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Mistérios Cristãos e Essênios

MISTÉRIOS CRISTÃOS E ESSÊNIOS

Mircea Eliade: História das Crenças e das Ideias Religiosas

A organização e os sistemas rituais das duas seitas apocalípticas (cristãos e essênios) apresentam surpreendentes semelhanças, mas apuram-se também certas diferenças não menos importantes. Os essênios constituíam uma comunidade ao mesmo tempo sacerdotal e leiga. A atividade religiosa (instrução, culto, exegese) era dirigida por sacerdotes hereditários; aos leigos incumbia a responsabilidade dos recursos materiais. O grupo dirigente denominava-se os rabbim (literalmente, os "numerosos"), termo que voltamos a encontrar no Novo Testamento (a "assembleia" que escolhe os seus representantes; cf. Atos, 15: 12). Doze leigos e três sacerdotes formavam o círculo inferior. O ofício mais elevado era o de "inspetor" (mbaqqên); esse chefe supremo devia comportar-se como um "pastor" ("Documento de Damasco", 13: 7-9). A sua função lembra a do "pastor" ou epískopos entre os cristãos.

Em Qumran, o batismo iniciatório, que integrava o neófito na comunidade, era seguido das lustrações rituais que se realizavam todos os anos. Tal como o "partir do pão" para os cristãos, a sua refeição comum era entendida pelos essênios como a antecipação do banquete messiânico. Os membros da comunidade abstinham-se do casamento, pois todos se consideravam soldados na guerra santa. Não se tratava de um verdadeiro ascetismo, mas de uma ascese provisória, imposta pela iminência do eschaton. Deve-se destacar outro ponto de semelhança: o método hermenêutico similar utilizado pelos exegetas essênios e pelos autores do Novo Testamento, sem analogias no judaísmo rabínico e na obra de Fílon. Aplicando um processo especial (pesher), os essênios vislumbravam nas profecias do Antigo Testamento referências precisas à história contemporânea e, por conseguinte, predições relacionadas com certos acontecimentos iminentes. Aqueles que tinham acesso ao "conhecimento", vale dizer, os iniciados na gnose apocalíptica revelada pelo "Mestre de Justiça", sabiam que a guerra suprema estava a ponto de explodir. De resto toda a literatura apocalíptica judaica exaltava o saber esotérico. Da mesma forma, mormente desde a segunda geração, os cristãos atribuíam um valor particular à gnose: estavam impacientes por decifrar os sinais anunciadores da parusia. Para os essênios, o conhecimento religioso era essencialmente um conhecimento revelado, de ordem escatológica. Já se apontou uma concepção paralela nas Epístolas de Paulo e nos Evangelhos de Mateus e João. A instrução num grau superior, e até os sacramentos da comunidade, eram considerados esotéricos. Porque o Reino de Deus não é acessível à "carne", mas tão-somente ao "espírito". Em resumo, tanto entre os judeus como entre os cristãos, gnose secreta e esoterismo fazem parte do "método" apocalíptico. Depois da destruição de Qumran e da dispersão dos essênios, alguns sobreviventes reuniram-se provavelmente aos núcleos cristãos da Palestina. Em todo o caso, as tradições apocalípticas e esotéricas mantiveram-se no cristianismo dos dois primeiros séculos, e encorajaram certas tendências gnósticas.