Nicola Magliulo. La luce oscura. Invito al pensiero di Massimo Cacciari. (2005)
Pode-se conceber uma vida cumprida, contente de si, capaz de atingir o próprio fim aqui e agora? Está em nosso poder remediar a nossa constitutiva finitude, curar colmatando a falta que determina ontologicamente a nossa condição, e alcançar a Felicidade que satisfaça o nosso profundo desejo? E pode demonstrar-se um fundamento que destine e assegure tal Fim, que seja raiz firme de nosso existir?
Ou, como escreve Cacciari: a vida é extraordinariamente breve em um sentido metafísico, ontológico, não quantitativo, no sentido de que no tempo não se pode alcançar qualquer completude estável e duradoura, e toda criatura é absolutamente contingente, suspensa ao caráter intrinsecamente arriscado de seu próprio fundamento?
Uma poderosa sereia, em nosso tempo, quer persuadir-nos a abandonar tais perguntas, a investigação em torno desses nós, e toda sedutora aventura em alto-mar, convidando-nos, ao invés, a tomar morada na Terra isolada do Todo; somente a finitude, absolutizada, dissociada de sua constitutiva relação com o Infinito, parece utilmente investigável; pesquisar em torno do Infinito é considerada pura insensatez que nos afasta do aqui e agora.
Os homens não devem afadigar-se, deixar-se interpelar pelo enigma que inquieta todo pensamento. Contemplemos a luz clara do dia, as suas evidências, abandonemos as sombras como vãs quimeras: por que voltar-se para a luz obscura que tudo envolve, perder-se na investigação do Inconsciente mais profundo de nosso existir?
Em sua investigação, Cacciari interroga-se acerca desses nós essenciais de nosso ek-sistere; e desconstrói a tradição filosófica e teológica, os pensadores que julgaram possível afirmar uma Vida cumprida destinada por um Fundamento necessariamente demonstrado e assegurado.
É evidente, então, por que o face a face com o sistema hegeliano representa uma passagem crucial, retornando constantemente em seu percurso.
Para Cacciari, a dialética hegeliana assegura vida verdadeira, capaz de ressurgir do negativo. O Início, para Hegel, libertado de toda abstração, determina um movimento que suprime (aufhebung), em seu proceder, todo erro e infelicidade. A filosofia é a ciência de tal processo, e a potência de seu método permite recompor os fragmentos e elevar a multiplicidade a vida cumprida.
O espírito transforma, em seu proceder através e além da devastação, as simples ruínas em via para o Fim; e compreender a negação significa, ao mesmo tempo, negar a negação.
O destino do existir aparece assim maximamente determinado pelo processo irreversível que manifesta e cumpre um Início concebido dessa maneira.
Nesse sentido, a arché da totalidade dos entes deve ser investigada e pode ser apreendida: não é outra coisa senão o Princípio que unifica as determinações do ser, que é sua origem.
O Princípio do ser, então, aparece logicamente compreensível, discursivamente exprimível: o ser como totalidade dos entes, e o logos que o manifesta, representam o horizonte último de nossa investigação.
A raiz comum de pensamento e ser não é Abgrund, mas conexão conceitualmente apreensível e exprimível. Nada mais que Início lógico.
Para Cacciari, o pressuposto do Início lógico é, na filosofia hegeliana, a completa equivalência de Início e Iniciante. Mas o Iniciante desdobra-se em Início vazio, ao qual falta o ser, e no impulso arbitrário a proceder que o satisfaz e o cumpre. Início lógico, portanto, porque já em si, desde sempre, mediação e comunicação, não simples imediatidade. De um outro Início nada sabem céu, terra ou Espírito, nem propriamente nada poderiam dizer. O Início não é senão a sua própria expressão, a sua própria comunicatividade imanente. O Início somente para esta Vida existia, e nela se manifesta abertamente, sem mais mistério, todo o sentido do Início.
Para a teologia ou teosofia hegeliana, mistério dá-se apenas para os sentidos e para o intelecto abstrato, enquanto, coerentemente com o desenvolvimento de seu sistema, é no saber racional que se dá o conhecimento perfeito da manifestação (offenbarung) de Deus.
O Início, então, não é Silêncio, mas início da palavra; não é Abismo, mas fundamento do processo; o Uno pode ser visto e sabido. Hegel conduz, desse modo, às suas conclusões inexoráveis, a especulação trinitária; Deus é isto: encarnação, calvário e reconciliação, e o divino dá-se como verdade de si e daquilo que o nega.
Ao final do calvário chegamos ao dom da Vida cumprida, destinada desde o Início: assim como, para ser Verdade e Vida plena, o divino deve superar a congelada identidade consigo mesmo (em perfeita analogia com aquela dureza do universal da qual já a Fenomenologia narrou o desabrochar e o proceder) e opor-se a si até sofrer a morte (e a mais infamante das mortes), assim agora deve superar a abstração da humanidade, a posição do humano considerada em sua abstrata finitude. Deus morre enquanto fechado em si, não revelado, para que morra, ao mesmo tempo, a imagem igualmente fechada em si, inóspita ao seu Outro, do homem. Assim como Deus, morrendo, abre-se e revela-se ao Outro de si, e mostra, com isso, esse Outro como seu próprio momento, assim, ao mesmo tempo, o homem, nessa morte, morre à própria finitude e mostra o Outro de si, o divino, como sua própria essência.
Estamos nos antípodas da concepção gnóstica de Deus como Estrangeiro ao mundo: o Divino despe-se de sua divindade, encarna-se, abaixa-se, e nessa kenosi torna-se um com o humano, conciliando carne e espírito, terra e céu. Se o homem, por sua vez, sabe negar a abstrata oposição de carne e espírito, torna-se um com o Pai na carne glorificada.
Fim do além separado do aquém, e do valor do mundano contraposto ao espiritual: através da morte de Deus, toda fragilidade e dor são acolhidas no divino, e nos é concedida vida cumprida.
Evidente é a marca luterana presente na filosofia da religião hegeliana: verdadeira humilitas dá-se quando alguém se abaixa até anular-se, quando se torna o objeto mais vil, rejeitado por todos; e Deus, escreve Cacciari, é, nesse sentido, lançado da manjedoura até a Cruz onde é exaltado.
É um Deus que permanece e reencontra-se idêntico a si na mais radical distinção de si para si: Amor, mas Amor assim entendido: voltar-se ao outro de si para ser no Outro verdadeiramente si mesmo.
Para o filósofo veneziano, a relação entre Início e processo aparece, nesse sentido, univocamente determinada: Hegel pensa a distinção sempre entre figuras determinadas internas ao aparecer, jamais como distinção entre aparecer e não aparecer, manifestação e não manifestação. Concepção que poder-se-ia chamar autenticamente trágica, justamente porque nela o processo é dominado e compreendido pela necessidade, pela ananke do Início (nenhuma determinação pode libertar-se daquilo que se põe em princípio; enquanto este é absoluto de toda determinação, todas apreende em seu vórtice), e justamente porque ao final é conciliação, catarsis: o reconhecimento pleno da mesma necessidade.
Mas tal concepção não silencia as perguntas às quais inevitavelmente remete e que nos inquietam: por que a morte não poderia devorar o divino, o Filho escolher não beber o cálice amargo, os filhos decidir não corresponder ao Dom recebido? Quais consequências derivam de negar tais possibilidades?
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