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Um caso notável é apresentado pela obra, monumental sob muitos aspectos, que Leszek Kolakowski dedicou aos Cristãos sem Igreja. O livro, que trata de figuras holandesas e francesas do radicalismo espiritual, tenta rearticular uma história social sobre uma história intelectual. Não cessa de jogar com a relação entre estas duas histórias que representam dois grandes modelos contemporâneos: de um lado György Lukács e sua filosofia marxista da cultura, do outro Alexandre Koyré, a erudição mais sutil a serviço das obras pioneiras da ciência "moderna". Seja o que for dos sistemas intelectuais que evoca de vez em quando (de maneira mais feliz na parte holandesa que na francesa), ele oferece uma reflexão metodológica sobre esta rearticulação cujo princípio consiste em restabelecer a pertinência política e social dos movimentos espirituais. No início encontra uma dificuldade preliminar que diz respeito, mais uma vez, ao próprio objeto da pesquisa: o que é a mística? Como é possível tratá-la? Para "construir" seu "objeto", Kolakowski quer antes de tudo eliminar "a mística" marcada, diz, pela experiência e pelo problema de sua autenticidade que dependem da psicologia. Ao contrário, mantém o que chama de "misticismo", uma série de "doutrinas teológicas que interpretam as experiências místicas". Seu "objeto", então, é constituído pelas variantes da relação entre dois fatores: um, "ideológico", relativo às especulações religiosas fundadas sobre uma experiência, mas consideradas independentemente do que ela é; outro, "social", relativo à função de pessoas ou grupos que negam a uma Igreja sua autoridade em matéria doutrinal, mas pretendem testemunhar seu verdadeiro espírito separando-se das instituições corrompidas. Que tal objeto transponha para a cena de um passado religioso a situação política do autor, marxista excluído do partido comunista polonês, que interroga sobre a possibilidade de ser "marxista sem Partido", não é o índice de uma assimilação indevida (dada a extraordinária meticulosidade da investigação histórica), mas a manifestação da pergunta presente de onde surge toda obra científica relevante. O "objeto" da investigação formaliza uma experiência atual que vem aqui substituir a de outrora. A omissão da "mística" marca o posto deixado à atualidade que organiza a problemática (mas não o conteúdo) da pesquisa e à qual é oferecido outro campo operativo para que o questionamento presente, confrontado com dados diferentes, possa ser explicitado e aberto a novas hipóteses. Kolakowski, de fato, observa antes que o "cristianismo não confessional" do século XVII foi um "radicalismo malogrado", ou reconduzido a um conformismo institucional ou excluído da história. Pode-se perguntar se não acontece o mesmo com os místicos, mas se seja necessariamente o sinal de um fracasso daquilo que testemunham e que não cessa de reaparecer, como uma exigência ética, como um "motivo" cujos retornos desafiam a história. Talvez a análise de Kolakowski, vítima daquilo que elimina, reduza demasiado a política aos seus sucessos. (Michel de Certeau, Fábula Mística)
Extratos de sua obra sobre "Cristãos sem Igreja", tratando de Angelus Silesius