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id da página: 317 Peter Kingsley – Realidade – Resumo da Parte II Peter Kingsley

Kingsley Realidade 2

Peter KingsleyRealidade – Resumo da Parte II

KINGSLEY, Peter. Reality. Inverness, Calif: Golden Sufi Center, 2008

  • 1

    • A impossibilidade de retroceder na rota traçada por Parmenides, cujo poema não possui divisões, constituindo um todo contínuo no qual se está inserido, envolvendo o presente, o futuro e o passado.
    • A transição direta, no poema, da evocação da jornada ao submundo para o acolhimento pela deusa e o resumo inicial dos ensinamentos que ela irá transmitir.
    • A instrução fundamental da deusa a Parmênides, frequentemente mal traduzida, que não é sobre prestar atenção, mas sobre "levar consigo" as suas palavras, uma vez que as tenha ouvido.
    • A conclusão de que Parmênides deve levar o ensinamento de volta do mundo dos mortos para o mundo dos vivos, tornando-se, portanto, simplesmente o seu mensageiro.
  • 2

    • A identidade de Parmênides como mensageiro ou profeta, no sentido original de alguém que fala em nome de um poder maior, uma função específica de quem viaja ao mundo dos mortos e regressa pelo bem dos vivos e dos mortos.
    • As implicações precisas do papel de mensageiro: cabendo a uma parte falar e à outra escutar e transportar a mensagem, sem interferir, alterar, acrescentar ou omitir qualquer pormenor.
    • A conexão entre este papel e a reputação de Parmênides como legislador, partilhada com outras figuras como Epiménides, que receberam leis de uma divindade durante visões ou sonhos, assegurando que nada era da sua própria criação.
    • A tendência moderna de projetar o nosso egoísmo nestas figuras, assumindo que o mensageiro é simplesmente o inventor, e de ler autores como Parmênides sem realmente os ler, alterando o que dizem.
    • O contraste entre a realização de inventar tudo sozinho e a realização de escutar e trazer para este mundo algo que mais ninguém é capaz de ouvir, uma magia reconhecível pela sua frescura e estranha sensação de totalidade.
    • A metáfora dos mensageiros como pescadores que trazem a sua captura do oceano, cujo cheiro a mar pode ser reconhecido mesmo por quem nunca lá esteve, servindo este livro para explorar esse "cheiro a mar".
  • 3

    • A aparente absurdidade do texto fundacional da lógica ocidental, que soa a nonsense porque não tem nada a ver com o nosso mundo familiar dos sentidos, mas provém de outro mundo.
    • A falha das pesadas ferramentas da lógica e da filosofia em clarificar o significado de Parmênides, mergulhando-o numa obscuridade ainda maior com símbolos e disputas sobre o verbo "é".
    • A constatação de que Parmênides não está a ser claro e não faz a mais pequena tentativa para o ser, sendo as suas linhas um puro mistério, um enigma clássico.
    • A refutação da ideia de que a filosofia surgiu na Grécia do desejo de clarificar as coisas, apontando para outros filósofos contemporâneos e figuras como Epiménides, que se expressavam através de enigmas.
    • A ligação de Parmênides, através das inscrições de Velia, a figuras Iatromantis e ao deus Apolo, notórios pela linguagem enigmática, e a sua autorreferência como "o homem que sabe", um iniciado.
    • A conclusão de que o poema é, em si mesmo, uma iniciação — o ponto de partida para entrar noutro mundo.
  • 4

    • O estranho pormenor de Parmênides descrever a segunda rota como "um caminho de onde não regressam notícias", uma expressão que, na linguagem poética antiga, significava a morte.
    • A técnica de Parmênides de usar frases que ecoam a poesia homérica para evocar contextos e associações completos, um método de ciência e arte precisa no qual ele era excelente.
    • A interpretação de que o caminho do "não é" é o caminho que leva ao silêncio da não existência e da morte, sendo Parmênides, o mensageiro, aquele que regressa com notícias de onde nenhumas notícias deveriam vir.
    • A relevância do facto de Parmênides se encontrar perante uma escolha entre dois caminhos no submundo, um motivo familiar nas iniciações da Grécia do sul de Itália, onde os iniciados eram confrontados com dois caminhos: um que leva à vida real e outro ao esquecimento e à morte.
    • A grave deturpação que ocorreu ao explicar esta escolha como um jogo intelectual, quando é, literalmente, uma questão de vida ou de morte.
  • 5

    • A comparação de enigmas iniciáticos com "a escuridão e a noite" e o segredo de que ninguém os resolve através da luta, mas sim através da paciência e do habituar-se à escuridão.
    • As regras dos enigmas iniciáticos: se uma solução parece imediatamente certa, está errada; são altamente enganadores porque criam a oportunidade para o autoengano, funcionando como espelhos que mostram o que estamos preparados para ver.
    • A falta de clareza no sujeito dos verbos "é" e "não é" como o cerne da lógica de Parmênides, uma lógica iniciática que nos leva para as sombras de nós mesmos, para além dos limites do que sonhámos ser.
    • A necessidade de observar em quietude o desenrolar do poema, sem pressa para encontrar respostas, porque se é a resposta e não há nenhum lugar para onde ir.
  • 6

    • O enigma inicial dos dois caminhos que "existem para pensar" e a sua obscuridade, sendo ofuscado por um enigma ainda maior que surge a seguir.
    • A interpretação comum e supostamente óbvia de que "pensar e ser são um e o mesmo", uma tradução que cria dificuldades esmagadoras, incluindo o facto de Parmênides mais tarde negar claramente esta identidade.
    • A armadilha da interpretação óbvia no contexto da linguagem iniciática, onde o significado fácil está errado, sendo um chamariz, um beco sem saída.
    • A solução alternativa, baseada na expressão "existir para pensar", que, quando aplicada de forma consistente, revela o significado: "Pois o que existe para pensar, e o ser, são um e o mesmo".
    • A conclusão aparentemente absurda de que tudo o que se pode pensar deve existir, um absurdo que deve ser mantido e compreendido à luz do local onde Parmênides ouve estas palavras: o mundo dos deuses, onde pensar algo é torná-lo real.
    • A natureza da mensagem de Parmênides como uma revelação sobre as leis da realidade divina, onde o próprio facto de pensar algo é a garantia de que já é.
  • 7

    • A implicação prática da afirmação de que tudo o que pensamos tem de existir: o colapso de todas as distinções entre pensamento e realidade, sendo cada pensamento a sua própria validação, não necessitando de confirmação externa.
    • A reação dos estudiosos, que se apressam a qualificar o que Parmênides diz, alegando que ele se refere apenas ao pensamento correto ou verdadeiro, uma tentativa de criar um objetivo para continuar a pensar.
    • A recusa da deusa em discriminar, afirmando que qualquer pensamento que se tenha existe, uma generosidade implacável que destrói a nossa dependência emocional, intelectual e espiritual da discriminação.
    • A ironia de que, ao aceitar todos os pensamentos, se é levado para além do pensamento, mostrando que este não importa e ajudando a deixá-lo para trás.
    • A impossibilidade de compreender isto através do pensamento, pois qualquer coisa que se pense sobre isso será verdadeira, sendo a única forma possível de compreensão permanecer na quietude subjacente ao pensamento.
    • O fim da discriminação como o fim de toda a sabedoria e filosofia, e o local onde o profeta intervém, trazendo notícias impossíveis de outro mundo.
  • 8

    • A amplitude do termo grego noein, usado por Parmênides, que abrange pensar, perceber direta e intuitivamente, e consciência ou awareness, referindo-se a todo o espectro da nossa existência como seres conscientes e sensíveis.
    • A linha inflexível de aceitação total traçada por Parmênides: tudo o que se é consciente, percebe ou pensa, é.
    • A afirmação concomitante de que não existe nada exceto o que pode ser pensado ou percebido, significando que o mundo é exatamente o que se pensa que é, e que não se é uma insignificante partícula perdida num vasto universo, a menos que se queira acreditar nisso.
    • A simplicidade radical da situação: a existência não está em nenhum outro lugar separado de nós, e compreender isto implica assumir uma tremenda responsabilidade pelo que se é.
    • A dissolução de qualquer sentido de isolação e a percepção de que a existência é um todo completo e ininterrupto, um continuum perfeito.
  • 9

    • A demonstração da deusa da abolição da separação, usando o exemplo de como coisas distantes estão firmemente presentes na mente, pois não há distância entre si e o que se imagina ou vê.
    • A constatação de que a ausência de separação não é um ideal intelectual ou místico, mas a realidade do mundo quotidiano em que se vive, e que, uma vez realizada, a consciência deixa de estar perdida dentro de um mundo, mas é o contrário.
    • As inúmeras formas de se perder nesta consciência, especialmente a ilusão de que importa o que se pensa, e a tentação de escolher apenas bons pensamentos, o que não passa de discriminação que leva a mais problemas.
    • A única escolha real: ver que, tal como se é, não se tem escolha nenhuma porque os pensamentos não são nossos, são simplesmente a realidade a pensar-se a si mesma.
    • A natureza da dor como sensação intensa, que é a realidade a perceber-se a si mesma, e a invencibilidade que surge ao enfrentar tudo no momento, como um todo.
    • A natureza prática dos ensinamentos de Parmênides, corroborada pelas evidências sobre ele como um sacerdote praticante de Apolo e pela existência de um "modo de vida Parmenidiano", exemplificado pela morte do seu discípulo Zenão, que testou as suas palavras no fogo.
  • 10

    • A reafirmação inicial da futilidade de seguir o segundo caminho, usando a mesma linguagem característica e a mesma falta de respeito pelos gestos normais de discriminação.
    • A expressão "Pondera isso!", invariavelmente mal interpretada como um convite para um debate intelectual, mas sendo na verdade a fórmula padrão dos oráculos para enfatizar que fizeram um enunciado particularmente obscuro.
    • A natureza do ensinamento, que não pode ser discutido polidamente, mas deve ser levado para casa e para a cama, nunca sendo perdido de vista até que se olhe nos olhos.
  • 11

    • A surpresa da introdução de um terceiro caminho, um caminho médio que combina existência e não existência, criando o caos.
    • A interpretação errada dos estudiosos, que durante gerações procuraram identificar estes "mortais", culminando na teoria genial mas infundada de que se referia a Heraclito.
    • A percepção de alguns estudiosos de que "mortais" significa exatamente a humanidade no seu todo, definida como "todos os que não estão familiarizados com o divino" e que "se confundem inconscientemente em contradições".
    • A conclusão inevitável, mas evitada, de que Parmênides está a descrever-nos a nós, e a estranheza de não conseguirmos reconhecer o nosso próprio reflexo no espelho.
    • A previsão de Parmênides de que perderíamos o ponto, uma descrição da nossa confusão que antecipa perfeitamente como as pessoas têm reagido ao que ele diz.
    • A irrelevância da aprendizagem, que só atrapalha, e o facto de isto não ser um problema reservado aos acadêmicos, pois cada um tem um acadêmico a viver dentro de si.
  • 12

    • O mito de Parmênides como um homem muito sério e rígido, ignorando a sua brincadeira e humor, que começam com a descrição da nossa desorientação.
    • A imagem humorística e contraditória de "a desamparo nos seus peitos é o que governa as suas mentes errantes", onde "governar" implica um curso preciso e "errantes" é o seu oposto direto.
    • A escolha deliberada de imagens de viagem, que pertencem a um vocabulário muito específico: metis, que significa astúcia, habilidade, inteligência prática, e especialmente ardileza.
    • A natureza da metis como uma qualidade de consciência intensa que se mantém focada no todo, num mundo onde tudo é ardileza e ilusão, e onde não há terreno neutro.
    • A palavra "desamparo" (amechania), que significa literalmente "sem um ardil", descrevendo pessoas que foram enganadas e privadas de recursos, o resultado perfeito de uma total falta de metis.
    • A exigência da metis de estar completamente alerta, sem tempo para pensar, e a promessa ou ameaça implícita no uso desta linguagem por Parmênides para definir a condição humana.
  • 13

    • A suposição errónea, desde a Antiguidade, de que Parmênides negava o mundo dos sentidos, quando, na verdade, a sua via nega absolutamente nada, e a deusa procura uma demonstração da unidade precisamente no mundo dos sentidos.
    • A importância que Parmênides atribui à descrição do que vê e ouve na sua jornada, incluindo o som sibilante significativo da incubação.
    • A natureza prática do seu ensinamento, tal como o conhecimento da legislação trazido por Epiménides do submundo, e a sua ligação com a metis, que procura certeza no reino da incerteza.
    • A realidade para a qual a deusa nos aponta não é um porto seguro longe dos sentidos, mas sim como navegar num mundo cheio de astúcia e decepção, encontrando quietude no movimento e prova da unidade na separação aparente.
    • A preferência humana em permanecer como Parmênides nos descreveu há mais de dois mil anos: muito surdos e completamente cegos.
  • 14

    • O precioso pormenor da descrição da deusa das pessoas como "multidões indistinguíveis, que não distinguem" (akrita phula), uma expressão deliberadamente ambígua.
    • O significado fundamental da ausência de distinção: a falha em distinguir claramente entre os dois caminhos e a incapacidade de fazer uma escolha consciente, sem sequer estar ciente de que existe uma escolha.
    • A evocação sutil, através do som, da expressão homérica "com incontáveis folhas" (akritophylla), comparando a humanidade a folhas, uma imagem que transmite a perspectiva divina da brevidade da vida humana.
    • O paradoxo das perspectivas: o que para nós é discriminação é o oposto para Parmênides, e a decisão que a deusa nos coloca é entre tudo e nada, uma escolha que não faz sentido para o nosso pensamento inquieto.
    • A irracionalidade desta decisão, que exige um estado de alerta total e aceitação completa, sem tempo para discriminar, e o único fator que nos pode persuadir: a consciência silenciosa, cultivada na quietude, de como as nossas decisões cuidadosas não passam de evitação.
  • 15

    • A descrição de Parmênides dos mortais como "duas-cabeças", uma expressão que quase faz sentido, mas não totalmente, levando a interpretações erradas ou a ser ignorada.
    • A definição num dicionário grego antigo de "duas-cabeças" como "bifurcações numa estrada", uma configuração perfeitamente relevante para o local onde Parmênides se encontra no submundo.
    • A questão de porque é que Parmênides chamaria aos humanos "duas-cabeças", resolvida ao notar que a palavra para bifurcação, trihodos ("três-vias"), era um local de poder associado a fantasmas e a certos tipos de pessoas de baixa reputação, como trapaceiros e prostitutas.
    • A implicação de que os humanos, no seu todo, são como essas pessoas que vagueiam nas bifurcações, trapaceando-se a si mesmos mais do que a qualquer outro.
    • A associação adicional de estar numa "três-vias" com a incapacidade de tomar uma decisão, explicando o terceiro caminho como um vaivém no ponto de intersecção, um caminho que "não para de voltar para trás sobre si mesmo".
    • A constatação de que a nossa aparente clareza e decisão não passam de confusão e indecisão, um empurrão que vem do pai da lógica.
  • 16

    • A familiaridade da visão de uma bifurcação no submundo para o público de Parmênides, um local onde se toma a decisão fatídica entre a vida e a morte.
    • A imagem habilidosa dos humanos presos neste local, incapazes de decidir, o que significa que já estão no submundo, já estão mortos.
    • A natureza da jornada iniciática, que leva a sítio nenhum, pois o ponto de chegada é o mesmo do ponto de partida, e a única coisa que se deixa para trás são os nossos antigos termos de referência.
    • A necessidade da jornada ao submundo para se realizar que já se está morto, para se encontrar em plena consciência a verdade sobre si mesmo.
    • A conclusão de que todos são fantasmas, já se está morto, e não há nada a temer porque os nossos piores medos já se realizaram, sendo a nossa existência um limbo interminável no mundo dos mortos.
  • 17

    • A aparente arrogância e desolação de dizer que a humanidade sabe nada, é surda, cega, e já está morta num purgatório vivo.
    • A possibilidade de a única arrogância real ser a nossa, ao insistir que a vida como a vivemos é tudo o que existe.
    • O dom amargo de Parmênides, que exige o reconhecimento de verdades desagradáveis sobre nós mesmos, mas contém a promessa misteriosa de muito mais do que poderíamos conceber.
    • A necessidade de enfrentar a situação como ela é, admitindo a sua desesperança, porque só então existe a possibilidade de a ultrapassar.
    • A afirmação de que já se está morto não é uma metáfora poética, mas uma declaração de uma verdade que se pode descobrir por experiência própria, cuja aparente tristeza é apenas um reflexo distorcido de uma realidade mais vasta.
    • O maior pessimismo como acreditar que se vai morrer em breve e isso é tudo, quando, no fundo, ninguém acredita que vive apenas trinta, cinquenta ou oitenta anos.
  • 18

    • A origem do nosso mundo estranho no terceiro caminho, que tenta unir existência e não existência, e as terríveis complicações que criou para os comentadores.
    • A disputa entre estudiosos sobre a existência ou não de um terceiro caminho, uma disputa que é, em si mesma, uma perfeita reflexão do caminho tal como Parmênides o retrata: autocontraditório.
    • A confirmação viva da precisão da observação de Parmênides através da nossa inconsciência, que valida os termos da sua descrição.
    • A natureza fabricada do terceiro caminho, que não é uma rota autêntica, mas sim um vaivém confuso na bifurcação, que como rota genuína simplesmente não existe.
    • A não existência também do segundo caminho, o da não existência, pois a não existência não existe, restando aparentemente apenas o primeiro caminho.
    • A conclusão de que mesmo o primeiro caminho, como rota que leva de um lugar a outro, não pode existir verdadeiramente, pois na realidade não há distinção ou movimento.
    • A compreensão final de que a deusa está a usar os termos familiares da nossa experiência comum, dando-nos imagens às quais nos agarrarmos, e que todas as suas vias são um truque, uma ilusão e uma piada, pois ao dar um passo na primeira, se chega ao fim, exatamente onde sempre se desejou estar.