VIDE: kenosis
Guillermo Fraile
El kenoma, o reino celeste, constituye una región intermedia entre el mundo superior y el terrestre. Fue creado por el Salvador a semejanza del pléroma, y tiene tres zonas, que corresponden a las del mundo superior: Ogdóade, Hebdômada, Hexada.
Harold Bloom
Em toda a literatura religiosa, não conheço retrato mais vívido da depressão espiritual do que aquele que o gnosticismo oferece dos piores parâmetros de nossa existência terrena. Os escritos gnósticos antigos recordam-me frequentemente o cosmos das tragédias mais negativamente sublimes de Shakespeare, Rei Lear e Macbeth, e recordam-me também nossas cidades interiores aterradoras e a desolação erodida de grande parte da paisagem norte-americana. Nosso mundo existente é chamado de kenoma, ou vazio cosmológico, pelos gnósticos antigos: um mundo de tempo repetitivo, de reprodução sem sentido, sem futuro, Geração X: ontem, hoje e sempre. O que nos tornamos é possuído por demônios, presos em um sentido de destino governado por anjos hostis chamados arcontes, os príncipes de nosso cativeiro.
Certa vez, caminhando por Yale, encontrei meu amigo, o eminente estudioso do gnosticismo, Bentley Layton, que perguntou pela expressão dolorida em meu rosto. Quando lhe disse, com sinceridade, que meus pés doíam, ele levantou o dedo com sabedoria e observou: “Ah, isso é por causa do arconte dos sapatos!” No mundo sobredeterminado do que nos tornamos, até as piadas gnósticas têm sua utilidade.
Há um sentimento contemporâneo de angústia à medida que se aproxima o Milênio, sentimento este que possui sabor distintivo próprio, e que é notavelmente semelhante à angústia gnóstica de dois milênios atrás. Nossas obsessões norte-americanas atuais com anjos, com sonhos parapsicológicos, com a “experiência de quase-morte” e suas manifestações de corpo astral: tudo isso possui claros análogos no período formativo do gnosticismo antigo. O que a Gnose mais nos ensina, nesse aspecto, é a pôr fim a nosso entusiasmo por anjos, que segundo o gnosticismo não são nossos guardiões, mas nossos carcereiros.
O que a Gnose nos diz é que o tempo, que degrada, é ele próprio o produto de uma degradação divina, um fracasso dentro de Deus. Adiei falar sobre a degradação divina até agora porque nenhum aspecto do gnosticismo é mais mal compreendido ou mais ofende os piedosos das igrejas estabelecidas. Mas a crise dentro do Pleroma, a ruptura na Plenitude original, teve de ser mútua: quando nós desabamos neste mundo feito pelos anjos ineptos, então Deus também desabou, descendo não conosco, mas em alguma esfera mais estranha, impossivelmente remota.
Há (pelo menos) dois kenoma, dois vazios cosmológicos: nosso mundo, este mundo, e as esferas invisíveis também formadas no pavor, como diz Herman Melville em seu muito gnóstico Moby-Dick. Nesses lugares devastados, Deus agora vagueia, ele próprio um estrangeiro, um estranho, um exilado, assim como nós vagueamos aqui. O tempo, uma sombra invejosa (como o poeta gnóstico Shelley o chamou), caiu da Plenitude sobre o nosso mundo. Uma sombra igualmente invejosa, uma sombra sem nome, paira sobre o Deus errante do Abismo, não apenas separado de nós, como nós estamos dele, mas tão impotente sem nós quanto nós somos sem ele.
Peter Wilberg
A nova teosofia gnóstica distingue entre o reino do não-ser ou da potencialidade — aquilo que os gnósticos antigos chamavam pleroma — e o reino do ser ou da atualidade — conhecido como kenoma. Ao mesmo tempo, é não aristotélica, pois reconhece a primazia da dynamis sobre a energeia, da potencialidade sobre a atualidade. Reconhece todas as atualidades como a autoatualização autônoma de um campo primordial de potencialidades — o pleroma.
Deste ponto de vista, a ação em si é essencialmente autônoma — não possui “causa primeira”. A palavra grega arche, traduzida em latim como causus, implicava algo independente da ação que pode ser um ponto inicial ou “causa” da ação e que, portanto, domina e governa a ação. A noção de arche é uma expressão da identidade do ego humano, sendo o ego aquela parte de nós que se experiencia como causa independente ou iniciador da ação, sem conhecer-se, porém, como uma parte e expressão da ação. Trata-se de uma ilusão, já que todos os eventos ou fenômenos identificáveis — todas as identidades — consistem em estruturas ou padrões estabilizados de ação e são a autoatualização autônoma de um campo primordial de potencialidade.
Como toda ação é automultiplicadora, criando novas possibilidades de ação, todas as estruturas ou padrões de ação — todas as identidades — são inerentemente mutáveis e sujeitas à transformação.
A suposição de Deus conter uma “forma-ideia” de algo no ventre de sua consciência (nous) como semente de potencialidade foi personificada na mitologia gnóstica pela figura da Mãe divina, Sofia. A forma-ideia prototípica do ser humano — o homem primordial — era chamada Adamas ou Anthropos, considerada encarnada na semente espiritual de Sete. A interconexão e a conexão interna de todas essas formas-ideias ou “formas” (Platão) era o Logos. Sofia-Logos constituía, assim, um terceiro princípio mediador entre Deus e a Criação, entre o Pleroma e o Kenoma, entre o ser humano Primordial e o Físico.
Os estudiosos reconheceram uma estrutura triádica subjacente à mitologia gnóstica, que veem como derivada do Timeu de Platão, com sua distinção entre “Formas” ou “Ideias” primordiais, um útero ou receptáculo feminino dessas Formas ou Ideias, e suas Imagens materializadas e sensoriais.