CAPUTO, John D. Hermeneutics: facts and interpretation in the age of information. London: Pelican, an imprint of Penguin Books, 2018.
“Isto é uma questão de interpretação.”
Essa observação é uma excelente maneira de causar confusão, caso haja inclinação para tanto. Mas, à parte a travessura, ela também expressa um ponto filosófico sólido.
Ainda assim, um fato é um fato, não? Tão claro quanto o nariz no rosto. Talvez não. Pergunta-se: quantos fatos há ao redor neste momento? Eis o problema. É necessário especificar os termos, o enquadramento. Contam-se narizes, cadeiras ou partículas subatômicas – ou o quê? É preciso uma interpretação antes de começar a contar. A teoria segundo a qual tudo é uma questão de interpretação denomina-se hermenêutica. Isso pode soar como uma travessura extrema, mas faz perfeito sentido. A hermenêutica é uma teoria fria e sóbria, que constitui a base de toda a inventividade nas ciências e nas artes, das liberdades democráticas na política e das instituições inovadoras e tradições vivas. Sem ela, tudo pararia bruscamente.
Assim, toda vez que um orador conhecido insiste, talvez acompanhado de algumas pancadas na mesa: “O fato é...”, qualquer que seja a interpretação que ele pretenda impor, a resposta filosófica correta é que não há fatos desprovidos de interpretação. Todo fato é uma questão da interpretação que o seleciona. A hermenêutica é a teoria segundo a qual a distinção entre fatos e interpretação requer exame mais atento, e é isso o que se pretende empreender aqui.
Para introduzir essas questões, inicia-se com uma breve seção de perguntas e respostas sobre a hermenêutica pós-moderna, um diálogo imaginário em que se defende a hermenêutica diante de um interlocutor que trata a distinção entre fatos e interpretação como um dogma incontestável. Retomar-se-á esse diálogo na conclusão do livro para verificar o que se terá alcançado até lá.
Hermenêutica: Perguntas Frequentes
O que é hermenêutica?
A hermenêutica é a teoria da interpretação. É a teoria segundo a qual tudo é uma questão de interpretação.
Mas certas coisas não são simplesmente fatos?
Na hermenêutica, defende-se a ideia de que não existem fatos puros. Por trás de toda interpretação há outra interpretação. Jamais se alcança uma compreensão de algo que não seja uma interpretação. Nunca se pode remover as camadas até chegar a algum fato puro, nu e desprovido de interpretação. Não importa o quanto se proclame estar apenas lidando com os fatos, apenas se aumenta o volume da própria interpretação. Na hermenêutica, costuma-se dizer que a interpretação vai até o fundo.
Isso também se aplica ao que acabas de dizer?
Certamente. Trata-se de uma interpretação da hermenêutica, que se está disposto a defender contra as alternativas, as quais serão apontadas ao longo do percurso. As interpretações vão até o fundo, mas algumas são melhores que outras (o que também será explicado adiante). É importante sustentar ambas as ideias simultaneamente.
Então, está-se dizendo que os fatos não importam. Como negar a distinção entre um fato neutro e uma interpretação?
Os fatos importam muito. É precisamente por isso que importa compreender o que são os fatos. Compreender qualquer coisa requer um ponto de vista, uma perspectiva, uma inclinação interpretativa; na ausência disso, simplesmente não haveria compreensão. Uma compreensão neutra e desinteressada equivale praticamente a um olhar vazio e ignorante. É o olhar que se vê no rosto dos estudantes diante de uma tarefa de redação sem a menor ideia do que irão fazer. O problema deles? Nenhuma inclinação, nenhum ponto de entrada, nenhuma interpretação. Os fatos encontrados são função dos interesses que se têm, e interpretações desinteressadas simplesmente não existem. Uma compreensão desinteressada jamais escreveu um trabalho, nem qualquer outra coisa.
São “hermenêutica” e “interpretação” termos intercambiáveis?
A palavra “hermenêutica” provém do grego, e “interpretação” de sua tradução latina. Contudo, é mais útil distingui-las dizendo que a interpretação é uma arte, e a hermenêutica, a teoria dessa arte. Uma interpretação é um ato ou processo de primeira ordem – como a análise de um filme por um crítico, de um raio X por um radiologista, das causas da Primeira Guerra Mundial por um historiador, de uma recessão econômica por um economista, ou do testemunho de uma testemunha por um júri. A hermenêutica é uma reflexão de segunda ordem sobre tais atos, sobre o trabalho concreto de interpretação realizado na arte, na ciência, nas salas de aula e nos tribunais, em geral.
Então, na hermenêutica mostra-se a essas pessoas como fazer interpretações?
Jamais se presumiria tal coisa. As interpretações concretas são da alçada dos especialistas nesses campos específicos. A hermenêutica não se pretende onisciente nem é um manual de instruções. É uma teoria filosófica. Mostra-se às pessoas como compreender o que ocorre na interpretação.
Por que filosófica?
Porque a hermenêutica é uma teoria da verdade – descreve a natureza da verdade como algo adquirido apenas por meio da interpretação – e também uma teoria do ser humano, pois sustenta que a interpretação está no cerne do que se é enquanto seres humanos.
Por que acrescentar “pós-moderna” à hermenêutica?
A hermenêutica tem longa história, remontando até Aristoteles. Divide-se essa história em duas partes, a primeira das quais se chama era moderna, iniciada nos estudos bíblicos advindos da Reforma Protestante e culminando no século XIX. No século XX, tudo mudou, resultando naquilo que se chama pós-moderno, versão que realmente interessa aqui.
E qual é a diferença?
Na era moderna, as humanidades encontravam-se na defensiva diante do crescente prestígio das novas ciências naturais e do sucesso do método científico, que ameaçava dominar tudo. Assim, os estudiosos das humanidades afirmavam: nas humanidades também há método, e também se alcançam verdade e objetividade, mas de forma diferente. As ciências naturais oferecem explicações causais de fenômenos matematicamente mensuráveis, enquanto nas humanidades alcança-se uma compreensão interpretativa de obras de arte ou eventos históricos, fenômenos dotados de significado não matemático. As humanidades são diferentes, mas igualmente legítimas.
Isso faz muito sentido. O que havia de errado com isso?
Antes de tudo, é preciso esclarecer que “pós-moderno” não significa anti-moderno nem retorno ao pré-moderno. Ele atravessa a modernidade, deixando-se instruir por ela, e emerge do outro lado com nova inflexão, prosseguindo o que fora iniciado na modernidade por outros meios. No século XX, dois desenvolvimentos importantes alteraram o curso da hermenêutica tradicional. Primeiro, os filósofos pós-modernos afirmaram que não existe divisão tão nítida: todo ato de compreensão já é uma interpretação, não apenas nas humanidades, mas também nas ciências naturais e, na verdade, em tudo o que se faz na vida cotidiana. Segundo, sustentaram que se deve retirar um pouco de peso da palavra “método”, predileta das ciências naturais, e reconhecer que a verdade é mais ampla e profunda que o método. O método pode ser muito rígido e até constituir obstáculo à descoberta da verdade. Assim, é necessário compreender que a interpretação é um processo mais flexível e inventivo do que qualquer método – científico ou não – permitiria.
Isso pode ser aplicado às humanidades, mas não às ciências naturais.
Esse é o equívoco do século XIX. Aprendeu-se com os historiadores da ciência do século XX, que estudavam cientistas reais em ação, que a ciência é um empreendimento muito mais desordenado do que os filósofos modernos faziam crer. Há nela grande dose de habilidade interpretativa – formulação de hipóteses especulativas, interpretação de evidências, leitura de dados, concepção de experimentos, enfrentamento de anomalias para as quais o método não está preparado, e adesão apaixonada a uma ideia mesmo quando as evidências são escassas e todos na comunidade científica julgam-na insensata. Isso se revelou especialmente verdadeiro quando os historiadores analisaram mudanças revolucionárias na ciência, que se assemelham muito mais a revoluções políticas ou artísticas do que os filósofos e cientistas modernos estavam dispostos a admitir.
Mas o que ocorre com a objetividade em meio a toda essa interpretação? Especialmente nas ciências?
A objetividade é redefinida, não descartada. É compreendida de modo mais cauteloso e circunspecto, com todas as condições, complicações e restrições apropriadas. Desconstrói-se a ideia de objetividade ou fatos puros e substitui-se por uma distinção entre boas e más interpretações.
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