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id da página: 12781 Ibn Ata'illah – A Chave para a Salvação

Ibn Ataillah Chave

SufismoIbn Ata'illah – A Chave para a Salvação

Aquele que desejar os benefícios da invocação siga os textos estabelecidos, pois seus benefícios não são insignificantes nem podem ser esgotados. A invocação segundo as autoridades tradicionais possui inúmeras vantagens; mencionaremos algumas que nos vêm à mente. Dizemos: a invocação repele, subjuga e doma Satanás, mas agrada ao Compassivo (ar-Rahman). Irrita Satanás, remove as preocupações e a tristeza do coração, atrai alegria e felicidade e elimina os males e as aflições.

A invocação fortalece o coração e o corpo, põe em ordem os assuntos interiores e exteriores, alegra o coração e o rosto, tornando este radiante. Além disso, obtém sustento e facilita a sua aquisição. Reveste o invocador de dignidade e inspira-lhe o comportamento correto em todos os assuntos. A sua permanência é um dos meios para alcançar o amor de Deus; é uma das maiores portas que conduzem a esse amor.

A invocação produz a vigilância que leva ao grau da virtude espiritual (ihsan), em que o servo adora a Deus como se o visse com os próprios olhos. Leva o homem a voltar-se frequentemente para Deus; pois aquele que O recorda com frequência acabará voltando-se para Ele em todas as suas ações. A invocação aproxima o servo de seu Senhor e abre a porta do conhecimento divino (ma‘rifah) em seu coração. Concede-lhe veneração e temor reverencial (haybah) por seu Senhor, ao passo que o coração do esquecido possui um véu de temor reverencial muito tênue.

A invocação faz com que Deus Se recorde do servo — o maior dos privilégios e a mais alta distinção. Pelo ato de invocar, o coração do homem vive, assim como a semente vive pela chuva que cai. A invocação é o alimento da alma, assim como o alimento é o sustento do corpo. Ela polimenta o coração de sua ferrugem — a negligência (ghaflah) e a busca das paixões. É para a meditação o que a lâmpada é para o viajante nas trevas: guia-o ao caminho aberto. Impede as ações pecaminosas: “Em verdade, as boas ações anulam as más” (Alcorão 11:114). A invocação põe fim ao distanciamento que se instala entre o Senhor e o servo esquecido.

Qualquer que seja a fórmula usada pelo servo para recordar a Deus — “Glória a Deus!” (Subhana’llah), “Deus é o Maior!” (Allahu Akbar), “Não há divindade senão Deus!” (La ilaha illa’llah) ou qualquer louvor — ela atrai a atenção de Deus, que está sobre o Trono Glorioso, para o servo. Todos os atos de adoração afastam-se do homem no Dia da Ressurreição, exceto a lembrança de Deus, a crença em Sua unicidade (tawhid) e o louvor a Ele. Quem conhece a Deus nos tempos de prosperidade, através da invocação, será por Ele conhecido nos tempos de adversidade, pela piedade.

Um dito relata:

“Quando a desgraça atinge o servo obediente que recorda frequentemente o Altíssimo, ou quando este Lhe pede algo, os anjos dizem: ‘Senhor, eis uma voz familiar de um servo familiar.’ Mas quando o esquecido, que evita Deus, clama a Ele ou Lhe pede algo, os anjos dizem: ‘Senhor, eis uma voz desconhecida de um servo desconhecido.’”

De todas as ações, nenhuma é mais redentora do castigo de Deus, Senhor da Majestade, do que a invocação. Para o servo, ela é a causa da descida da paz (sakinah) sobre ele, do círculo dos anjos ao seu redor, de sua permanência junto dele e de seu envolvimento pela misericórdia. Quão sublime é essa graça! A invocação é para a língua que não se distrai com calúnias, mentiras ou falsidades.

O companheiro que se senta ao lado do invocador não se sente incomodado; o amigo íntimo do invocador alegra-se com ele. No Dia do Juízo, os encontros do invocador com os outros não serão para ele motivo de pesar, dano ou arrependimento.

Invocar com lágrimas e lamentação é causa de abrigo sob a sombra do Trono no grande Dia da Retribuição, quando a humanidade permanecerá em pé, aguardando o julgamento. Quem for desviado da súplica pela lembrança de Deus receberá o melhor daquilo que se concede a quem pede; e as coisas tornar-se-ão fáceis para o servo na maioria das circunstâncias e ocasiões.

O movimento da língua na invocação é o mais fácil movimento para o homem. As plantas dos jardins do Paraíso são a invocação. O Paraíso é terra fértil e água doce; é formado de planícies, e as plantas nele são “Glória a Deus!” (Subhana’llah), “Louvado seja Deus!” (al-hamdu li’llah), “Não há divindade senão Deus!” (La ilaha illa’llah), e “Deus é o Maior!” (Allahu Akbar), conforme os hadiths autênticos. Essas fórmulas são meio de libertação do fogo do Inferno e proteção contra a negligência neste mundo, mundo de ignomínia. A prova textual disso encontra-se no Alcorão: “Portanto, recordai-Me, e Eu vos recordarei” (Alcorão 2:152). O esquecimento de Deus é o que faz com que os servos esqueçam suas próprias almas, e esse é o extremo da corrupção.

A invocação é luz para o servo neste mundo, em seu túmulo, em sua ressurreição e em sua reunião com os demais no Dia do Juízo. É o princípio fundamental e a porta da união espiritual; é o sinal de autoridade com que se assalta o ego e as paixões. Quando a invocação se enraíza firmemente no coração e dele desce, tornando-se a língua subordinada a ele, o invocador nada mais necessita; então progride e ascende. Já o esquecido, ainda que rico, é na realidade pobre; e se poderoso, é de fato vil.

Para aquele que recorda a Deus, a invocação unifica o coração disperso, fortalece sua vontade e repara sua resolução quebrada. Dissipa sua tristeza, seu pecado e as forças de Satanás e de seus seguidores. A invocação aproxima o coração da outra vida e afasta dele o mundo, ainda que o mundo o cerque. Adverte o coração descuidado a abandonar seus prazeres e enganos. Restaura o passado e prepara o futuro.

A invocação é uma árvore cujo fruto é o conhecimento divino (gnosis); é o tesouro de todo conhecedor de Deus. O Senhor está com o invocador por meio de Sua proximidade, autoridade, amor, assistência e proteção. A invocação relativiza a libertação dos escravos, a guerra santa e suas dificuldades, o combate no caminho de Deus, o sofrimento e a generosidade no gasto de bens e ouro. A invocação é o cume, a fonte e o fundamento da gratidão a Deus. Aquele cuja língua não cessa de estar úmida com a lembrança de Deus, e que O teme em Suas proibições e mandamentos, é admitido no Paraíso dos amados e na proximidade do Senhor dos Senhores: “Por certo, o mais nobre dentre vós, aos olhos de Deus, é o mais piedoso” (Alcorão 49:13).

O invocador entra no Paraíso risonho e sereno, e ali habita em tranquilidade. A invocação remove a dureza do coração e gera ternura e mansidão. O esquecimento do coração é doença e enfermidade, enquanto a lembrança é cura para o invocador de todo mal e sofrimento, como disse o poeta:

“Quando adoecemos, por Tua lembrança fomos curados, E quando a abandonamos, recaiu sobre nós o mal.”

A lembrança é a fonte e o fundamento da amizade de Deus; o esquecimento é a origem e o auge de Sua inimizade. Quando o esquecimento domina o servo, este é devolvido à inimizade divina da pior forma. A invocação afasta as desgraças e atrai as bênçãos e todo bem. É causa das bênçãos de Deus e das súplicas dos anjos sobre ele, de modo que emerge das trevas para a luz e entra na morada da paz. As assembleias de invocação são jardins do Paraíso, e nelas se deleita o Compassivo. O Altíssimo se orgulha, diante dos anjos do céu, daqueles que O recordam, pois sua posição entre os atos de adoração é a mais elevada e sublime.

Os mais excelentes entre os que praticam boas ações são aqueles que mais frequentemente se recordam de Deus em todas as situações. A lembrança substitui todas as ações, sejam elas relacionadas à riqueza ou a qualquer outra coisa. A invocação fortalece os membros e facilita as obras piedosas. Suaviza as dificuldades, abre portas fechadas, mitiga sofrimentos e reduz o labor. É segurança para o temeroso e libertação das solidões do deserto. Entre os competidores na corrida pelo prêmio final, o invocador é o vitorioso. Logo se verá, quando o pó assentar: montavas um cavalo — ou um jumento?

A invocação é causa do agrado de Deus por Seu servo, pois ela o torna consciente da Majestade, da Beleza e do Louvor divinos. Pela invocação constroem-se as moradas do Paraíso; mas para o esquecido, nenhuma morada ali se edifica. As invocações são barreira entre o servo e o fogo do Inferno: se a lembrança é contínua e permanente, a barreira é firme e sólida; se não, é frágil e rompida.

A lembrança é um fogo que não permanece nem se propaga: quando entra em uma casa, nada deixa de substância ou vestígio. Elimina o excesso de alimento que ultrapassa a necessidade corporal ou é ilícito consumir. A invocação dissipa as trevas e faz surgir luzes resplandecentes. Os anjos pedem perdão pelo servo quando ele persevera na lembrança e no louvor de Deus. As terras e montanhas se orgulham daquele que, entre os homens, recorda a Deus sobre elas.

A lembrança é o sinal do crente agradecido, enquanto o hipócrita raramente se ocupa em invocar. Aquele cuja riqueza ou filhos o distraem da recordação de Deus está perdido; mas o que se recorda de Deus experimenta delícias mais doces que o prazer da comida e da bebida. Neste mundo, o rosto e o coração do invocador estão revestidos de beleza e felicidade; na Outra Vida, seu rosto é mais branco e luminoso que a lua. A terra testemunha em seu favor, como o faz por todo aquele que obedece ou desobedece a Deus. A invocação eleva o participante aos mais sublimes graus e o conduz às mais altas estações.

O invocador está vivo, mesmo morto; enquanto o esquecido, ainda que vivo, conta-se entre os mortos. O invocador tem sua sede saciada na morte e está seguro dos temores e perigos que a acompanham. Entre os esquecidos, o que recorda Deus é como uma lâmpada em casa escura; os esquecidos são como uma noite sem amanhecer.

Se algo ocupa o invocador e o distrai da lembrança de Deus, arrisca-se ao castigo. Se não se dá conta disso, é como quem se senta diante de um rei sem o devido decoro: expõe-se ao castigo. Concentrar-se na lembrança de Deus por algum tempo é guardar-se de misturar pecados com boas ações. Ser cuidadoso, ainda que por pouco tempo, traz benefícios imensos.