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id da página: 8717 IBN ARABI – ENGASTES DE SABEDORIA – NO VERBO DE JESUS Ibn Arabi

Ibn Arabi Fusus Jesus


VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS

A SABEDORIA DA PROFECIA NO VERBO DE JESUS

A maior parte deste capítulo trata dos vários modos e manifestações do Espírito [ruh] e da maneira como ele é transmitido à matéria e à forma. Em particular, ele trata do papel do Espírito na criação de Jesus e também de seus poderes de revivificação.

Até agora, nesta obra, Ibn Arabi falou em termos do Sopro do Misericordioso ao discutir o ato criativo, descrito como um movimento de alívio da pressão interior dentro da Realidade, cuja expressão provoca a existência do Cosmo criado. No entanto, ao discutir a natureza e a atividade do Espírito aqui, ele está preocupado com aspectos mais particulares desse ato espontâneo de expiração criativa. As duas palavras mais importantes que ele usa neste contexto são ruh [espírito] e nafakha [soprar]. Em relação ao Sopro primordial [nafas], a primeira é seu conteúdo, enquanto a última descreve um modo de sua operação. O Espírito, cujo significado de raiz, em árabe, está intimamente relacionado em significado à raiz nafasa, denota claramente a realidade viva de Deus, Sua consciência viva, que como o polo ativo infla, insemina, irradia e informa a passividade escura da substância primordial, da Natureza original. Assim, também fica claro a partir do tratamento de Ibn Arabi do assunto que os conceitos de sopro-insuflar, semente-impregnar, luz-irradiar e palavra-enunciar estão intimamente relacionados em sua mente, como estão na tradição espiritual da maioria das tradições religiosas. É provavelmente o último desses conceitos relacionados, palavra-informar, que fornece uma pista para o título deste capítulo, uma vez que a palavra para Profecia em árabe [nubuwwah] vem da raiz naba'a, que significa «informar», um profeta [nabi] sendo um receptáculo particular e especial para a Palavra divina, assim como, em um sentido mais universal, todo o Cosmo ['alam] é «informado» [criado] pelo Espírito divino, suas múltiplas formas constituindo pistas ['alam] a partir das quais os «inteligentes» poderiam aprender ['ilm] a verdade.

O conceito de Espírito — como seu outro complemento, a alma, que é seu polo passivo e experiencial — é complicado pelo fato de que sua manifestação difere de acordo com o nível existencial em que está sendo considerado. Assim, o Espírito, em sua fonte, é concebido como luz pura, enquanto no nível físico ele se manifesta como o fogo e o calor da vida cósmica, representando, como ele faz, o pulso da realidade-vida, a expressão do Ser, em todos os níveis da criação-automanifestação divina. Na fonte, ele é pura Consciência-Identidade, mas à medida que ele se estende cada vez mais, ele é experimentado como Palavra que comanda e semente que impregna.

Como em outras partes desta obra, Ibn Arabi fala da relação entre o Espírito e a Natureza como sendo, por assim dizer, uma relação parental em escala macrocósmica, na qual o Espírito é o Pai e a Natureza a Mãe. Enquanto o primeiro é visto como ativo, luminoso e comandante, a segunda é concebida como passiva, escura e receptiva, aquela matriz primordial que está sempre pronta para receber a impressão determinante do Espírito. Às vezes essa relação é expressa em termos do Intelecto Universal e da Alma Universal ou, em termos mais corânicos, da Pena e da Tábua. Talvez a melhor maneira de explicar a diferença entre a Natureza e a Alma, por um lado, e entre o Espírito e o Intelecto, por outro, é que o primeiro termo em ambos os casos é ontológico, enquanto o segundo termo é experiencial. Assim, enquanto se pode dizer que a Natureza é a realidade da receptividade passiva, a Alma denota, antes, a experiência dessa realidade; da mesma forma, enquanto o Espírito denota a realidade da verdade ativa, o Intelecto pode ser visto como a consciência de ser essa realidade. Assim, no contexto da criação e da Automanifestação, tem-se ainda uma outra expressão da polaridade sujeito-objeto, e sua dependência mútua.

No contexto humano ou microcósmico, Ibn Arabi ilustra uma instância particular e especial dessa relação no caso de Jesus, que é o produto tanto de Maria, que personifica a «água» da Natureza, quanto de Gabriel, que representa, por seu sopro, a palavra-semente do Espírito. A criação de Jesus é um caso especial, na medida em que, ao contrário da maioria dos homens, o Espírito impregnou Maria não através dos lombos de um homem mortal, mas diretamente pelo instrumento angélico, como no caso da revelação ao próprio Jesus como um profeta de Deus. Sua Profecia, no entanto, ou «ser informado» pela Palavra divina, não foi apenas verbal, mas também vital, na medida em que o «soprar» espiritual do qual ele era um canal transmite o Mandamento divino em todos os seus modos. Assim, em virtude dos meios diretos de sua geração, Jesus foi capaz de comunicar o Espírito divino não apenas verbalmente, mas também vitalmente, uma vez que o Espírito anima em todos os níveis.

Assim, Jesus foi, de uma maneira especial, o que todo homem é potencialmente, ou seja, um espírito entronizado dentro de uma forma natural, que não é outra coisa senão o Espírito entronizado dentro de Sua Natureza. Ao longo do capítulo, Ibn Arabi está preocupado, como sempre, em explicar o paradoxo de «Ele» e «outro que Ele», para tentar deixar claro em que sentido Jesus, ou qualquer coisa, é ele mesmo em vez de Ele mesmo, ou até que ponto é o próprio Jesus ou o próprio Deus Quem fala e revivifica. Esta é, é claro, a questão do tema subjacente e constantemente recorrente da Unidade do Ser, cuja essência o autor se vê incapaz de explicar satisfatoriamente por causa da polarização inerente da linguagem.