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id da página: 9707 Ibn Khaldun Profetismo II

Ibn Khaldun Profetismo II

Ibn Khaldun — Prolegômenos


Excertos da tradução de José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury, IBF, 1958

SEXTO DISCURSO PRELIMINAR — TRATANDO DOS HOMENS QUE, SEJA POR DISPOSIÇÃO INATA, SEJA POR TREINO OU DISCIPLINA, CHEGAM A PERCEBER O MUNDO INVISÍVEL; COM OBSERVAÇÕES PRELIMINARES SOBRE A NATUREZA DA REVELAÇÃO

O PROFETISMO (cont.)

Encarando as almas humanas sob este ponto de vista, reconhece-se que podem ser divididas em três classes. A primeira é, por natureza, fraca de mais para atingir a percepção espiritual; contenta-se com se agitar até conseguir chegar ao limite inferior, às percepções que se encontram no domínio dos sentidos e da imaginação. É capaz mesmo de 'combinar, seguindo um sistema bastante restrito de regras combinadas numa sequência particular, as noções reais (proposições), que lhe fornecem a faculdade estimativa ou a memorativa (o autor se refere ao silogismo). Por meio desta operação, adquire conceitos e noções afirmativas1 , os únicos conhecimentos que a reflexão é capaz de fornecer enquanto estiver esta faculdade dentro do limite do corpo. Todos estes conhecimentos pertencem à faculdade imaginativa e se confinam dentro de limites muito estreitos. Com efeito, a alma como as da classe que estamos descrevendo, pode elevar-se do ponto de partida até ao começo da categoria que lhe é imediatamente superior, sem possuir a força de passar este limite. Se, com isso, seus esforços são mal dirigidos, nada que valha fará. Eis, pois, o termo que geralmente pode alcançar a percepção humana, enquanto ainda influenciada pelo corpo. Os sábios aí param, não podendo ir além.

As almas da segunda classe são levadas, por um movimento de reflexão e em virtude de uma disposição natural, para o intelecto espiritual, enveredando para as percepções que se podem adquirir sem precisar do instrumento do corpo. Para estas almas, o campo da percepção estende-se muito para além de onde começa o mundo espiritual, ponto em que se detém a faculdade perceptiva das almas da classe precedente. Chegadas nesta região, percorrem o campo da contemplação interior, no qual tudo é êxtase e cujo começo e fim são simultâneos. É este o ponto aonde chega a faculdade perceptiva dos favoritos de Deus (Ualí), esses homens em quem Deus incutiu a ciência infusa e os conhecimentos (divinos). As pessoas predestinadas à felicidade eterna são favorecidas da mesma percepção enquanto estiverem no "barzakh"2 .

As almas da terceira categoria são criadas com a faculdade de poder libertar-se inteiramente da natureza humana, de sua corporeidade e de sua espiritualidade, para elevar-se até à natureza angelical da Esfera superior, onde efetivamente se tornam anjos, mas somente durante um instante curtíssimo. Durante este momento, percebem elas a Companhia sublime (dos Anjos) na Esfera que lhes é própria e entendem, no breve instante que lhes é dado, as palavras da alma universal e a voz da divindade. Tais são as almas dos profetas a quem Deus concedeu a faculdade de se libertarem da natureza humana durante um curto lapso de tempo. É neste estado (de liberação e de enlevo) que recebem a revelação, tendo-os criado Deus com este dom natural que os predispõe para tal mister. Foi com o propósito de desempecilhá-los dos obstáculos e impedimentos com que os cerca o corpo, enquanto revestidos da condição humana, que Deus infundiu na natureza dos profetas uma pureza de costumes, um sentimento de retidão, que os realçam até a espiritualidade, ao mesmo tempo que incutiu no seu carácter um espírito de religião que os retém para sempre neste caminho e os conduz para o objeto de seus desejos. Por semelhante gênero de liberação (que exime a alma da influência do corpo), estes homens se dirigem à vontade para o mundo espiritual, favor que devem, não aos próprios méritos, nem a meios artificiais, mas apenas ao carácter inato neles, incutido pelo Criador. Despindo-se dos farrapos da humanidade, dirigem-se para a Companhia sublime a fim de receberem dela a sua mensagem. Voltam descendo para o domínio da natureza humana, carregando seu precioso depósito que trazem como uma revelação vinda do alto para ser comunicada aos homens, no meio de influências humanas. A revelação chega-lhes, às vezes, como o murmúrio de um discorrer confuso; o profeta apanha o sentido do que ouve, e, mal cessou o murmúrio, aprendeu-o de cor e compreendeu a mensagem. Outras vezes, o anjo encarregado da mensagem aparece sob a fisionomia de um homem que fala, e o profeta retém na sua memória o que lhe foi comunicado. A comunicação feita pelo anjo, a volta do profeta ao domínio humano e o ato de compreender o que acaba de lhe ser revelado, tudo isso se passa num segundo de tempo, mais rápido que um abrir e fechar de olhos. Porque estes acontecimentos se passam fora do tempo e simultaneamente. É devido ao fato de as revelações se produzirem com rapidez que tomam em árabe o nome de "uahi", de "uahia", verbo que nesta língua significa "apressar".


NOTAS:
1 Segundo os lógicos, todos os nossos conhecimentos se classificam em duas classes, uma composta de simples apreensões ou conceitos, a outra, de afirmações ou julgamentos. Exemplo de conceito: Deus, o homem, eterno; a afirmação é: Deus é eterno, o homem não é eterno. "O conceito, dizem, é a existência da imagem de uma coisa no entendimento; a afirmação é um conceito unido a um julgamento". Mais simplesmente: os conceitos são as simples ideias e as afirmações são as proposições.
2 Barzakh, literalmente, significa o que separa duas coisas, como o tempo que medeia entre a morte e a ressurreição, como o túmulo que separa este mundo do outro. No texto, designa uma região no espaço, porque os muçulmanos dizem de um defunto "Ele entrou no BARZAKH". Jurjani define Barzakh: O mundo ideal, isto é, o que separa os corpos espessos do mundo, dos espíritos puros. Em outros termos: este mundo, do outro. (Tarifat: barzakh). (Nota dos Trad.).