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Hassidismo

TRADIÇÃO JUDAICA — HASSIDISMO


Reb Zalman Schachter: Excertos de "Fragmentos de um futuro pergaminho"

Há mais de duzentos anos na Podolia, um pequeno lugar na Rússia onde a Rússia, a Turquia e a Polônia se encontram, perto dos Montes Cárpatos, o Baal Shem Tov (também chamado de Besht), o "Conhecedor do Bom Nome", começou o movimento conhecido como Chassidismo. Os chassidim (seguidores do Besht) gostavam de dizer que quando Deus viu que Israel não duraria até a vinda do Mashiach (Messias), porque tinha se tornado fraca e quase se desesperançava quanto ao Paraíso, ele tomou um pouco de fulgor do Mashiach, projetou-o na alma do Besht e deu ao povo forças para seguir em frente. As condições dos judeus no século XVII na Europa já foram descritas muitas vezes; de como não muito tempo antes o cossaco Chmelnitsky conduziu suas hordas cidade após cidade, massacrando centenas de milhares de judeus; de como por duas vezes, durante um curto espaço de tempo, falsos Messias surgiram, criando esperanças e depois as esmagando. O chassidismo — o caminho da alegria e da devoção — olhava para o futuro, ensinando não tanto "o que , mas "como".

Israel, filho de Eliezer e Sarah, conhecido como o Baal Shem Tov, começou a servir como rabino em 1734 aos 36 anos. O apelido quer dar a entender que ele operava milagres. Ele era capaz de usar o Nome Divino com o propósito de mudar as coisas tais como são para como deveriam ser, porque há sempre uma grande discrepância entre como as coisas são e como elas deveriam ser. Seu maior milagre, sem dúvida, foi o de pegar um ser humano que tinha quase morrido e trazê-lo de volta à vida; pegar uma pessoa que tinha perdido as esperanças de ser capaz de obter alguma coisa espiritual ou divina deste mundo, impregná-la com o espírito, mostra-lhe que a possibilidade ainda estava lá e o que é mais importante: mostrar-lhe como fazê-lo.

Martin Buber relata o quão entusiasmado ele ficou quando se deparou com o texto onde o Besht diz: "E ele se levanta como um novo homem, capaz de realmente criar". Essa virilidade do espírito Buber redescobriu através dos escritos do Besht. Esse aconselhamento do "know-how", sobre como fazer, é o que o preocupava. Se há alguns conselhos à mão então nós temos que aprender quais são e como consegui-los. A que vem o Chassidismo afinal? E um caminho, um caminho dinâmico. E um caminho para se servir a Deus. O ser humano tem que ser libertado e retomar sua habilidade de sonhar o seu sonho. O falecido Lubavitcher Rebbe nos contou uma vez que seu avô, o Rebbe Shmuel, o Mahara'sh de Lubavitch, disse que cada pessoa deve ao menos fingir por meia hora, de vez em quando, que é um perfeito Tzadik (Sábio).

Não há ninguém entre nós que não pudesse dar conselhos a todo mundo sobre o que deve ser feito. O único problema é: como? É como se nos encontrássemos diante do mesmo tipo de problema que o ladrão tem que resolver quando dá uma receita de omelete a alguém. Ele não diz "pegue dois ovos", pois de onde vamos tirá-los? Ele diz: "Vá e roube dois ovos e...". O problema é sempre o "know-how".

O que o Baal Shem fez então, e todos os seus seguidores 18 depois dele, não foi nos dizer o que fazer. Na verdade, em relação ao "o que" ele não mudou nada. O que ele inovou foi ao nos dizer "como".

Numa mdassé (estorinha chassídica) contada por Buber, perguntaram a um discípulo do Rav Moshe de Cobrin após a morte de seu mestre, o que era mais importante para seu professor. Ele respondeu "o que quer que ele estivesse fazendo no momento". Os mestres chassídicos a partir do Besht, ensinavam através do próprio exemplo. Por esta razão, estórias sobre suas ações, conversas, milagres, observações e comentários e suas próprias estórias e parábolas foram contadas e re-contadas por aqueles em busca do "know-how". O fato de que isso era um conhecimento tanto espiritual quanto prático é ilustrado pela mdassé do discípulo que, ao ser perguntado porque viajara um longo caminho para encontrar seu professor, imediatamente respondeu: "Para observar como ele amarra os sapatos".