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id da página: 1045 Gurdjieff – Seguidores G. I. Gurdjieff

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Depoimentos de dois não gurdjieffianos


WEBB, James. The harmonious circle: the lives and work of G.I. Gurdjieff, P.D. Ouspensky, and their followers. Boston: Shambhala, 1987

Outras limitações impostas a este livro não provêm nem da economia editorial nem da natureza escorregadia do assunto. Resultam de uma política deliberada de obstrução por parte de alguns seguidores de Gurdjieff. Não há verdadeira queixa quanto a isso, pois esses discípulos agem com plena boa-fé, protegendo aquilo que consideram ser a integridade das ideias que lhes foram confiadas. Não existe motivo algum para que alguém colabore em um empreendimento do qual possa desaprovar profundamente. Foi-me negada autorização para citar certos escritos inéditos, e é igualmente provável que uma grande quantidade de informações potencialmente úteis tenha sido retida ou suprimida.

Os sucessores de Gurdjieff ofereceram uma espécie de cooperação limitada — que, em alguns casos, ultrapassou de muito os limites do que eu teria direito de esperar —, mas, em outros, pareceu uma mão estendida apenas para transformar-se em punho cerrado. Além disso, meus informantes sempre tiveram a possibilidade de converter aquilo que parecia um processo de pesquisa direto em uma situação ambígua do tipo em que Gurdjieff era mestre em criar. Com efeito, acabou por tornar-se claro que se tentava enredar-me à força no tipo de atividades sobre as quais eu esperava escrever de um ponto de vista distanciado.

Deve-se admitir que tal tentativa foi temporariamente bem-sucedida, e estou certo de que ela contribuiu grandemente para a compreensão da natureza da curiosa disciplina de Gurdjieff. Contudo, a ética da situação continua a intrigar-me. Em determinado momento, suspeitei ter sido manipulado para escrever o tipo de obra que a hierarquia desejava que fosse escrita; em outro, que a tentativa de envolver-me na Obra visava assegurar que livro algum fosse escrito. Embora deva muito a certas pessoas pelos esforços realizados em meu favor, é necessário manter ceticismo quanto à boa-fé de outras.

Por que tanto segredo? Em parte, pode ser explicado pela natureza da própria Obra, que pouco se interessa por explicações coerentes, e em parte como consequência de décadas de ridicularização irrefletida. Alguns seguidores de Gurdjieff e Ouspensky são de sensibilidade excessivamente frágil e possuem uma capacidade singularmente desenvolvida de perceber crítica onde nenhuma se pretende. Tal característica milita contra qualquer concepção da Obra como disciplina séria e torna impossível acreditar na estrita exatidão das afirmações feitas no interior do movimento. A impressão resultante é de um medo mórbido da crítica e de uma tendência a tratar os fatos históricos com demasiada liberdade. Mas limitar-se a isso não seria inteiramente justo, nem para Gurdjieff nem para os aspectos mais nobres de seus seguidores.


PRIESTLEY, J. B. Man and time. New York: Crescent Books : Distributed by Crown Publishers, 1989

Gurdjieff e seu principal discípulo, Ouspensky, chamaram com frequência de a Obra o sistema complexo de pensamento, de conduta e de desenvolvimento psicológico que ambos ensinaram. Para poupar tempo e preocupação, seguir-se-á o exemplo deles. Comecemos dizendo que a pouca atenção que o público dedicou à Obra é surpreendente. Muitos de seus discípulos escreveram a seu respeito — a tal ponto que possuo uma vintena de seus livros —, mas, tanto quanto se saiba, nenhum observador imparcial o fez. Se existe um exame desinteressado e crítico do ensinamento e das ideias de Gurdjieff, jamais chegou ao meu conhecimento. Considero essa negligência espantosa por duas razões.

A primeira é que, a partir dos primeiros anos que se seguiram a 1920, grupos dedicados ao estudo da Obra surgiram em Paris e em Londres e, provavelmente, em outras capitais europeias, bem como em Nova York, na Cidade do México e em diversas cidades da América do Sul. (Como a Obra não possuía organização central nem jamais fez publicidade — o que é preciso recordar —, duvido que exista em algum lugar uma lista completa de seus estabelecimentos.) A segunda razão é que, a julgar pelos grupos britânicos, a qualidade dos discípulos foi, senão em número, impressionante. Afastemos, pois, de imediato a ideia de que se tratou de um movimento sustentado por senhoras ricas e excêntricas em benefício de charlatães. Sem dúvida, houve entre eles pessoas discretas que entraram apenas para sair. Mas, para citar apenas dois homens já falecidos — A. R. Orage, que foi o mais brilhante editor da Grã-Bretanha, e Maurice Nicoll, discípulo de Jung e distinto especialista da Harley Street —, não eram partidários medíocres. A Obra sempre conseguiu obter os edifícios de que necessitava porque pôde contar com seus arquitetos, engenheiros e especialistas profissionais. O nível dos discípulos mais devotos de Gurdjieff e Ouspensky era muito elevado. Para estudar este movimento, ninguém precisará realizar visitas de caridade intelectual.

Insiste-se neste ponto apenas por uma questão de imparcialidade: jamais se pertenceu a um desses grupos, jamais se viu Gurdjieff ou Ouspensky, e os contatos com seus principais sucessores foram bastante limitados. Mas é necessário varrer toda uma série de tolices proferidas sob o signo da ignorância e do preconceito. Com efeito, a Obra possui um pano de fundo semi-oriental, fontes misteriosas na Ásia Central, onde Gurdjieff — espécie de mago bem-humorado que adorava mistificar — afirmava ter passado anos em busca das verdades esotéricas e da sabedoria antiga. No entanto, a Obra está muito distante da doçura e do sentimentalismo das doutrinas habituais — teosofia, pensamento superior e semelhantes. É severa, exigente, rigorosamente desprovida de sentimento.