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id da página: 10607 Maurice de Gandillac – Gêneses da Modernidade – Boehme de Berdiaev Jacob Boehme

Gandillac Berdiaev Boehme

Maurice de Gandillac – Gêneses da Modernidade – Boehme de Berdiaev

GANDILLAC, Maurice de. Genèses de la modernité: les douze siècles où se fit notre Europe de “La Cité de Dieu” à “La nouvelle Atlantide”. Paris: les Éd. du Cerf, 1992

O Boehme de Berdiaev

  • A tradução francesa (anônima) do Mysterium magnum, em 1945

    • A tradução francesa anônima do Mysterium magnum, publicada em 1945, contém como prefácio dois textos de Nicolas Berdiaev, dedicados ao Ungrund e à liberdade, à Sophia e ao Andrógino, que propõem uma exegese “cristã” de uma obra por eles definida como “gnose” e como “teosofia”.
    • O interesse maior desses textos está em colocar em relevo certos temas que inspiraram, de diversas maneiras, setores importantes do pensamento russo e que também encontram ressonância nas reflexões de Dostoiévski sobre o mal e o sofrimento.
  • Berdiaev não considera realmente “heréticos” os doutrinários dos primeiros séculos

    • Berdiaev não considera verdadeiramente “heréticos” os doutrinários dos primeiros séculos que se costuma denominar, de maneira imprecisa, “gnósticos”, e que foram combatidos com igual vigor por Irineu e por Plotino.
    • Em uma nota inesperada, chega a reconhecer-lhes o mérito de terem enriquecido o cristianismo com elementos orientais e gregos, mas não é a eles que se refere ao qualificar Jacob Boehme de “gnóstico cristão”.
    • O sentido da expressão é apenas indicar que o teósofo silésio, crente simples e de coração puro, interpretava a Palavra de Deus não mediante conceitos, mas por meio de mitos e símbolos, leitura que supõe regras hermenêuticas que Boehme não poderia ter inventado por si mesmo.
  • Longe de ser o pobre artesão da lenda, Jacob era proprietário em Görlitz

    • Jacob Boehme não era o modesto artesão da tradição lendária, mas proprietário de uma casa burguesa em Görlitz e mestre de uma importante fábrica de calçados.
    • Já seus pais possuíam alguns bens, e parece estabelecido que frequentou a escola de Altseidenberg até os quatorze anos.
    • Declarou em várias ocasiões ter “estudado os escritos de numerosos mestres”, entre os quais certamente Paracelso e, provavelmente, Franck, Weigel, Schwenckfeld, entre outros hoje desconhecidos, leituras que se somavam ao convívio fervoroso com o Liber naturae e à confiança no sopro vivificante do Espírito.
  • Opondo-se aos místicos, Berdiaev destaca a discrição quanto às experiências íntimas

    • Berdiaev opõe Boehme aos místicos, sublinhando sua reserva sobre experiências interiores.
    • De fato, sobre a visão de 1600 Boehme fornece menos detalhes do que seu biógrafo Frankenberg, relatando apenas que, em quinze minutos, aprendeu mais do que em todos os anos que poderia ter passado em uma universidade, experiência que, após doze anos de maturação, lhe permitiu afirmar que seu espírito se abriu “até o nascimento mais íntimo da Divindade”.
    • Essa formulação evoca o Durchbruch de Eckhart, mas em registro mais voluntarista, permanecendo uma experiência vivida, ainda que Boehme limite o contato ao nível da Vernunft, diante dos “nascimentos profundos de Deus em sua essência”.
  • E um tema tão antigo que o autor de Rumo a uma Nova Idade Média recorda

    • Berdiaev lembra que Boehme não buscava a sabedoria “nem nas academias nem nos livros”, e mesmo assim não hesita em relacionar a experiência fundamental do fogo ao legado de Heráclito, ainda que apenas em termos de parentesco, e não de influência direta.
    • Essa afinidade, embora contestável, associa Boehme ao misticismo medieval por certo “realismo místico”, à Renascença pelo valor atribuído à vida cósmica e já ao mundo moderno por sua autoconsciência e pelo sentido de processo e de luta.
    • O ponto de partida de sua reflexão é a convicção de que as teodiceias tradicionais se mostram frágeis diante da realidade do pecado, da cólera divina e dos paradoxos da piedade, evocando o clima das gnoses dualistas e da religião de Mani.
  • Certamente aqui e ali é a mesma recusa e a mesma preocupação

    • A originalidade de Boehme consiste em romper com o dualismo simplista de dois princípios originários separados e de um mal nascido de seu encontro, vinculando-o, ao contrário, a uma raiz comum, e fazendo-o emergir do jogo entre liberdade e negativo.
    • Berdiaev sugere que se trata de levar até as últimas consequências o dinamismo divino já presente no Antigo Testamento e explicitado pelo dogma trinitário.
    • Eckhart, em seu Livro da Consolação Divina, descreve o “trabalho” do fogo que consome a madeira, mas permanece aquém do espaço divino onde toda diferença é abolida, evocando ainda o modelo aristotélico da causa imóvel que move tudo, enquanto Boehme insiste no drama da resistência.
    • Berdiaev observa que textos de Weigel e outros não antecipam a noção de Ungrund nem descrevem processo teogônico, o que distingue a gnose boehmiana.
  • Na realidade, é a tomada de posição pessoal de Berdiaev que garante a autenticidade cristã

    • Berdiaev considera que a autenticidade cristã da gnose de Boehme se encontra inclusive no caráter “mágico” de uma vontade inicialmente “sombria” e “irracional”, liberdade “meôntica” sem a qual a relação Criador-criatura seria apenas comédia ou jogo divino consigo mesmo, perpetuando a escravidão do homem.
    • O gênio de Boehme foi apreender o “mistério da Criação” como “tragédia divina e humana”, penetrando progressivamente na vida interior da Divindade, concebida não como monarca indiferente, mas como liberdade abissal de manifestação, fonte de luz e sofrimento situada “além do bem e do mal”.
    • Berdiaev distingue essa liberdade “meôntica” da vontade de potência nietzschiana, que surge apenas após a definição dos valores, enquanto em Boehme a natureza é derivada e a resistência se encontra já no caos originário descrito por Paracelso como “fogo frio” necessário à iluminação.
  • Sob diversas formas, o primado do indeterminado ou do inconsciente se reencontra

    • Esse primado ressurge em Fichte, Hegel, Hartmann e Schopenhauer, embora estes últimos o associem a fontes orientais omitidas por Berdiaev.
    • A falha desses filósofos está em derivar o processo cósmico da liberdade primordial, seja atribuindo-lhe valor de antítese negativa, seja propondo sua aniquilação.
    • Em Boehme, ao contrário, é o Deus trinitário que se constitui a partir do conflito primeiro, enquanto a natureza surge apenas em segundo momento, pela imaginação nefasta, e o pecado exprime a angústia da liberdade.
    • O capítulo IX do Mysterium magnum mostra como Lúcifer, ao contemplar-se no espelho de fogo, desperta desejo duro e rude, qualidade e suplício, evocando o mito narcísico em Plotino.
    • Berdiaev admite que as explicações de Boehme sobre a Trindade são pouco precisas, mas interpreta o processo teogônico como menos herético do que parece aos olhos da teologia catáfata.
  • O paradoxo é sobretudo que, nesta perspectiva, ainda que presente o mal

    • O mal, em Boehme, aparece como reverso necessário do bem, mas perde parte de seu caráter angustiante, pois enraíza-se no processo teogônico e na dupla natureza do fogo.
    • Lúcifer é, assim, menos aterrador que o demiurgo dualista, e a chama da ira revela-se manifestação do amor divino, assegurando que a Cruz absorveria a ira do pecado e a transfiguraria em delícias divinas.
    • Berdiaev ressalta que aqui a liberdade permanece mistério irredutível à razão, sendo reconhecido por Schelling seu aspecto voluntarista, embora atribuições como “em Deus há algo que não é Deus” pareçam excessivas.
    • A defesa do livre-arbítrio por Boehme se distancia da ortodoxia ao sugerir que Deus não previu a queda de Lúcifer, aproximando-se das gnoses dualistas, mas mantendo-se no limite entre monismo e dualismo.
  • Preocupa, entretanto, ver evocadas as “fontes da consciência mitológica”

    • Berdiaev associa Boehme a mitologias arcaicas, ainda que bíblicas, mas corre o risco de exagerar sua influência ao vinculá-lo ao Fausto de Goethe ou às irreligiões de Darwin, Marx e Nietzsche.
    • Reconhece, contudo, que tais descendências seriam ilegítimas e perturbariam a fé ardente de Boehme, destacando sua especial recepção na Rússia, em particular em Soloviev, embora este tenha racionalizado sua gnose.
    • Afastado tanto do platonismo dos Padres gregos quanto do aristotelismo da escolástica, Berdiaev se apresenta como intérprete atento da música espiritual de Boehme, sem esconder ambiguidades como a confusão entre “abismo” e “liberdade”, análoga à confusão moderna entre subconsciente e superconsciente.
  • O que Berdiaev considera o ápice da gnose boehmiana é a doutrina da Sophia

    • A Sophia é concebida não como mundo de Ideias, mas como imagem divina no homem, presente em Adão enquanto androginia até a queda.
    • Sua retirada aos céus marca o surgimento da feminilidade terrena em Eva, nascida do sono de Adão, sinal de separação.
    • A virgindade bissexual só reaparece em Cristo, nascido da Virgem e do Espírito, mas Berdiaev critica as leituras que reduzem Maria a nova Eva em vez de reconhecê-la como encarnação de Sophia.
    • A ênfase está na transfiguração da sexualidade em amor, ainda que Boehme nem sempre tenha desenvolvido plenamente suas intuições.
    • Berdiaev acompanha a posteridade do tema em Portedge, Soloviev, Blok e Bulgakov, cada um reinterpretando a figura de Sophia em chave diversa: ora cristificada, ora cósmica, ora trinitária, ora laicizada.
  • Diante do desenvolvimento da ciência que neutraliza o cosmos

    • O papel essencial do sophiologismo boehmiano é possibilitar a transfiguração do mundo sem esquecer a obscuridade irracional da liberdade.
    • Berdiaev acusa as teologias de terem privilegiado o destino humano e confundido Sophia com o Verbo ou o Espírito, esquecendo que a verdadeira teosofia ensinada por Boehme são apenas premissas.
    • Sophia aparece em alguns textos como imagem arquétipa de Adão antes da divisão, como “espelho do espírito da Divindade”, como corpo ou Gegenwurf de Deus, jamais como chave única, mas refletindo a complexa obscuridade da gnose boehmiana.