René Guénon: SÍMBOLOS DA CIÊNCIA SAGRADA
Mentalidade Primitiva
Talvez não haja tema que tenha sido mais amplamente investigado e, ao mesmo tempo, mais preconceituosamente mal interpretado pelo cientista moderno do que o do folclore. Por “folclore” entende-se esse corpo de cultura íntegro e coerente que não foi transmitido por livros, mas oralmente e pela prática, desde um tempo além do alcance da investigação histórica, na forma de lendas, contos de fadas, baladas, jogos, brinquedos, ofícios, medicina, agricultura e outros ritos, bem como formas de organização social, especialmente aquelas que chamamos de “tribais”. Trata-se de um complexo cultural independente das fronteiras nacionais e até mesmo raciais, e de notável semelhança em todo o mundo; é, em outras palavras, uma cultura de extraordinária vitalidade.
O material do folclore difere do da “religião exotérica” — com a qual pode estar em certa oposição, assim como, de modo diverso, em oposição à “ciência” — por seu conteúdo mais intelectual e menos moralista; e, mais evidentemente, por sua adaptação à transmissão vernacular. De um lado, como se disse acima, “o mito não é meu próprio, recebi-o de minha mãe”; de outro, “a passagem de uma mitologia tradicional a uma ‘religião’ é uma decadência humanista.”
O conteúdo do folclore é metafísico. Nossa incapacidade de reconhecer isso deve-se, antes de tudo, à nossa própria ignorância abissal da metafísica e de seus termos técnicos. Observemos, por exemplo, que o artesão primitivo deixa algo inacabado em sua obra, e que a mãe primitiva não quer ouvir que se elogie excessivamente a beleza de seu filho; isso seria “tentar a Providência” e poderia acarretar desgraça. A nós, isso parece um disparate. Contudo, em nossa própria língua vernácula sobrevive a explicação do princípio implícito nesse costume: o artesão deixa algo por fazer em sua obra pela mesma razão pela qual as palavras “estar acabado” podem significar tanto ser perfeito quanto morrer. A perfeição é a morte: quando algo se realizou completamente, quando tudo o que tinha de ser feito foi feito, quando a potencialidade se reduziu inteiramente ao ato (krtakrtyah), esse é o fim; aqueles a quem os deuses amam morrem jovens. Não é isso o que o artesão deseja para sua obra, nem a mãe para seu filho.
Pode ser que o artesão ou a mãe camponesa já não estejam conscientes do significado de uma precaução que pode ter-se tornado mera superstição; mas certamente nós, que nos chamamos “antropólogos”, deveríamos ser capazes de compreender qual era a única ideia que poderia ter dado origem a tal superstição — e deveríamos perguntar-nos se a camponesa, ao observar efetivamente essa precaução, não está defendendo-se de uma sugestão perigosa, à qual nós, que fizemos de nossa existência um sistema mais rigidamente fechado, talvez sejamos imunes.
De fato, a destruição das superstições implica invariavelmente, de um modo ou de outro, a morte prematura do povo, ou, em todo caso, o empobrecimento de sua vida. Tomemos, por exemplo, o caso dos aborígenes australianos. D. F. Thompson, que estudou recentemente seus notáveis símbolos iniciatórios, observa que sua “mitologia sustenta a crença em uma visitação ritual ou sobrenatural que sobrevém àqueles que desprezam ou desobedecem à lei dos anciãos. Quando essa crença nos anciãos e em seu poder — aos quais, sob as condições tribais, jamais ouvi falar que se faltasse com respeito — morre ou declina, como ocorre com a ‘civilização’, o caos e a morte racial seguem-se imediatamente.”
Os museus do mundo estão repletos das artes tradicionais de inúmeros povos cujas culturas foram destruídas pelo sinistro poder de nossa civilização industrial — povos que foram forçados a abandonar suas próprias técnicas altamente desenvolvidas e belas, e seus desenhos plenamente significantes, para poder conservar suas vidas trabalhando como mão de obra assalariada na produção de matérias-primas.
Ao mesmo tempo, os estudiosos modernos — com algumas honrosas exceções — compreenderam o conteúdo do folclore tão pouco quanto os antigos missionários compreenderam aquilo que consideravam apenas como “as invenções bestiais dos pagãos”. Sir J. G. Frazer, por exemplo, cuja vida foi dedicada ao estudo de todas as ramificações das crenças e ritos populares, ao fim de tudo o que observou, pôde apenas declarar, em tom de orgulhosa superioridade, que fora “conduzido, passo a passo, a examinar, como de uma altura espetacular, como de algum Pisga da mente, grande parte da raça humana; fui enganado, como por algum encantador sutil, a instruir o processo do que não podia considerar senão como uma crônica obscura e trágica do erro e da loucura humana, do esforço infrutífero, do tempo desperdiçado e das esperanças frustradas” — palavras que soam muito mais como uma descrição do processo da civilização europeia moderna do que como uma crítica de uma sociedade “selvagem”.
A característica distintiva de uma sociedade tradicional é a ordem. A vida da comunidade como um todo e a do indivíduo, qualquer que seja sua função, conformam-se a modelos reconhecidos, cuja validade ninguém questiona: o criminoso é o homem que não sabe comportar-se, mais do que aquele que não quer comportar-se. Mas tal recusa em comportar-se é muito rara onde a educação e a opinião pública tendem a tornar simplesmente grotesco tudo o que não deve ser feito, e onde, também, o conceito de vocação implica uma honra profissional correspondente.
A crença é uma virtude aristocrática: “a incredulidade é para as massas.” Em outras palavras, a sociedade tradicional é una e unânime, e, como tal, completamente diferente de uma sociedade proletária e individualista, na qual os problemas maiores de conduta são decididos pela tirania da maioria, e os menores, por cada indivíduo isoladamente — e onde não há verdadeiro acordo, mas apenas conformidade ou inconformidade.