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Filosofia Medieval

Filosofia — FILOSOFIA MEDIEVAL


Lição inaugural do Collège de France. LIBERA, Alain de. Où va la philosophie médiévale? Paris: Fayard, 2014

Senhoras e senhores, chega-se à Idade Média com certas perguntas para, ao final, descobrir outras. Após mais de quarenta anos de ensino e de pesquisa, confesso ter abandonado a maior parte daquelas de meus predecessores: filosofia cristã, teologia da história, filosofia da religião. Uma outra, em contrapartida, impôs-se a mim com acuidade crescente: como fazer história em filosofia medieval? – a dificuldade residindo, primeiro, na natureza do objeto: o pensamento medieval, que se diz dilacerado entre a razão e a fé – o que Durkheim chamava de “drama da escolástica” –, e, segundo, no estatuto da própria disciplina: a história da filosofia, contestada tanto pelos filósofos quanto pelos historiadores.

A isto responderei hoje simplesmente que não se pode fazer história da filosofia medieval sem fazer filosofia medieval. A cátedra que acaba de ser recriada não é um cenotáfio. O objeto existe, e não pede senão para viver. Tratando-se de filosofia, a despeito de Deslandes ou Le Gendre, a Idade Média não é o mais longo parêntese da história do pensamento humano. É verdade que se prolonga em extensão: é ainda mais longa do que se poderia supor; é verdade também que, embora central, encontra-se relativamente distante de tudo; mas seus limites, precisamente, são variáveis, ou melhor, dependem da visão que se tem tanto da história quanto da filosofia.

Quando começa a filosofia medieval? Quando termina? Dir-se-á: é evidente, começa e termina com a Idade Média. Isto é falso. Ou, melhor, depende da resposta que se dá a outras perguntas. A Idade Média do historiador começou, por assim dizer, durante muito tempo, com a queda de Roma, em 476, com a abdicação de Rômulo Augústulo, último imperador romano do Ocidente, para encerrar-se em 1453 com a tomada de Constantinopla por Mehmed II e a queda do Império Romano do Oriente. Este fim da Idade Média, evento político e religioso interno tanto à romanidade (Romanitas) quanto à cristandade (Christianitas), marcava também, culturalmente, o início de um período de renovação, de “Renascimento”, atiçado pelo exílio dos humanistas bizantinos na Itália, segundo o cenário construído por Michelet, entre um luto e um golpe de facho, em seus cursos no Collège de France de 1840-1841. Condillac, que ainda não empregava a palavra com maiúscula, “Renascimento”, mas falava em nascimento, renascimento e revolução – termos que bastava ouvir juntos, em minúscula, para chegar a Michelet –, julgava de modo completamente distinto dele a intrusão daqueles gregos, cujo afluxo fazia a fortuna das línguas mortas em detrimento das vivas, arruinando as esperanças suscitadas muito antes por um Dante, um Petrarca e um Boccaccio: «Os gregos, escreve em seu curso de lógica, esses gregos aos quais se atribui o renascimento das letras, espalharam-se na Itália como uma nuvem e interceptaram a luz que começava a se manifestar.»

Vê-se, pois, que não existe periodização histórica pura: a história política liga-se estreitamente à história cultural, e esta à história literária, que, sobre a mesma trama, pode tecer dois relatos de sentido oposto. O mesmo ocorre, evidentemente, com a história da filosofia. Na segunda edição de A Filosofia na Idade Média, Gilson fixa a primeira baliza na “tomada de contato da religião cristã com a filosofia, no século II de nossa era, desde que houve convertidos de cultura grega”. O relato que daí decorre percorre, portanto, os três caminhos que se oferecem a priori – retenhamos o termo – aos cristãos, tão logo estes se encontram com a philosophia: “condenação”, “absorção na nova religião”, “utilização para fins de apologética”. Este cenário mereceria longos comentários, mas o tempo obriga-me a ir diretamente ao meu.

A filosofia medieval só pode abrir-se sobre um evento para a filosofia: no caso, o fechamento da escola neoplatônica de Atenas em 529 pelo imperador cristão Justiniano, que provoca o exílio para a Pérsia dos últimos filósofos pagãos, de Damáscio e Simplício a Isidoro de Gaza. No mesmo ano, a Escola de Alexandria, a outra escola neoplatônica ainda em atividade, inicia, com João Filopono, uma virada em direção ao cristianismo, rapidamente concluída por seus sucessores. Fechamento, exílio, conversão: eis o primeiro episódio. Qual é o último? Para Ernest Renan, o mundo bascula quando, “em 4 de abril de 1497, Nicolau Leonico Tomeo sobe à cátedra de Pádua para ensinar Aristóteles em grego”: a criação de uma cátedra de filosofia emancipada da tutela do latim arabizado dos escolásticos, de suas “categorias descarnadas” e de seu “jargão selvagem”, marcaria o fim da Idade Média em filosofia. A tese é precisa – só falta o horário da aula –, mas é excessiva; ainda assim, chama a atenção para um ponto essencial: a entrada do grego e, ao mesmo tempo, da Grécia, então oriental, na Europa. Outro episódio possível seria a criação de cátedras de grego e hebraico – sem esquecer a de matemática – no Collège de France em 1530. Um terceiro, de datações variáveis: a ascensão científica das línguas vulgares. Um último, que os reúne a todos, o abandono conjunto do latim, de Aristóteles e da Lei religiosa: Giordano Bruno tentou-o em 1584 no Spaccio della bestia trionfante – A Expulsão da besta triunfante. A fogueira do Campo de’ Fiori lhe responde em 17 de fevereiro de 1600.

Voltemos ao começo. Para quem o fechamento da Escola de Atenas é um evento? Para nós. Não para os cristãos orientais, nem para os latinos. Não para os cristãos orientais, que há muito haviam dado o batismo à filosofia, fazendo da “filosofia segundo o Cristo” a verdadeira filosofia, quer se tratasse da vida cristã como tal ou de sua forma perfeita, a vida monástica. Não para os latinos, que desde há muito podiam dizer com Agostinho: «Verus philosophus est amator Dei.»

Toda fronteira é porosa. Todo evento esconde um processo. Sendo a filosofia, para os bizantinos e, a partir deles, para judeus e muçulmanos, a “ciência estrangeira” – estrangeira ao “nós” da comunidade religiosa –, fazer a história da filosofia medieval é fazer a história de uma série de aculturações filosóficas. Quem diz “aculturação” diz “apropriação”, assimilação ativa, numa palavra: translatio, que significa ao mesmo tempo transferência e tradução; quem diz “aculturação” diz também concorrência, competição, rejeição, recusa.

A “virada espacial” (spatial turn) operada em história é tão importante para um medievalista quanto a “virada linguística” e a “virada cognitivista” em filosofia. A geografia histórica dos saberes deve prevalecer sobre os recortes tradicionais da história da filosofia. O que se elabora atualmente entre os historiadores sob o título de Lugares de saber, em particular o estudo da produção e da circulação dos saberes, das “práticas de sociabilidade” ou das condições materiais do trabalho intelectual, não pode também permanecer fora de campo. É a isto que remete, em meus livros, a expressão carolíngia translatio studiorum. Fazer a história da filosofia medieval é antes de tudo fazer a história dos textos filosóficos da Antiguidade, de suas formas e gêneros, de sua sobrevivência, de sua difusão, de sua transmissão, de sua reprodução, de sua leitura; é interessar-se pelas traduções e pelos tradutores, pela constituição dos corpus, pela formação dos cânones, pelas instituições, pelas comunidades, pelos grupos sociais, pelas individualidades que de alguma maneira a eles contribuem; é interessar-se pelas relações que esses atores mantêm; por sua função na sociedade ou nas Igrejas; por sua ideologia. Entre o fechamento da Escola de Atenas e a ascensão à cátedra de Leonico Tomeo, não há apenas uma “Idade Média”. Há múltiplas continuações da Antiguidade tardia, múltiplas mudanças de língua – do grego ao latim, do grego ao siríaco, do siríaco ao árabe, do árabe ao hebraico, do árabe ao latim, do hebraico ao latim, mas também do latim ao grego e do latim ao hebraico –, há várias fases de rupturas, de reconfigurações ou de refundações, múltiplos renascimentos, retornos ou interrupções, em toda sorte de meios ou espaços geográficos, culturais, religiosos, institucionais, no Oriente, no Ocidente, em terras do Islã, em países da Cristandade, cujas características próprias o historiador da filosofia deve preservar e, ao mesmo tempo, perceber as semelhanças de família: um aluno de Olímpiodoro ou de Estêvão de Atenas no século VI não é um escolástico parisiense do século XII, mas, para além da diversidade dos lugares, dos meios e dos idiomas, ambos têm um ponto comum formidável: leem os mesmos textos filosóficos, as Categorias de Aristóteles, a Isagoge de Porfírio. Estão filosoficamente mais próximos entre si do que estão de nós aqueles que hoje reputam “inútil a leitura de qualquer artigo de filosofia com mais de dez anos”.


Embora tendo na tradição cristã um vetor dominante, a Filosofia Medieval é maior que a Escolástica. Nesta página reunimos alguns filósofos, inclusive contemporâneos, que se dedicaram ao estudo da Filosofia Medieval. Na página Cristologia encontram-se os grandes "santos" pensadores da Idade Média.