FICINO, Marsile. Théologie platonicienne de l’immortalité des âmes. Raymond Marcel. Paris: Les Belles Lettres, 1964
Terceiro argumento. O homem se move livremente
Todos os platônicos e peripatéticos concordam em que o homem move a si mesmo e que as ações humanas são ordenadas de tal modo que o homem que age é senhor de seus próprios atos, mas que age racionalmente, raciocinando com certeza antes de passar à execução, tomando primeiro um princípio geral, referindo a ele uma opinião particular e tirando, por fim, uma conclusão. Exemplo: É necessário escolher tudo o que é bom. Ora, este alimento é bom. Logo, é necessário escolher este alimento. A primeira parte desse raciocínio pertence somente à inteligência; a segunda pode pertencer à fantasia; a terceira, igualmente. E assim como o princípio geral para julgar o bem reside unicamente na inteligência, assim também nela somente reside a vontade universal de desejar o bem. Na fantasia não pode haver senão uma opinião particular e um desejo particular.
Quando esses filósofos afirmam que o homem move-se a si mesmo livremente, reconhecem que tal fato não provém da inteligência apenas, a qual é mais apta a mover à ação do que a ser movida a ela, nem provém do animal somente, em quem ser movido e constrangido à ação é mais natural do que mover, mas dos dois conjuntamente. Ora, se ambos juntos constituem uma espécie e uma única pessoa humana, a inteligência será a forma que anima o corpo; caso contrário, em parte alguma se encontrará um ser que se mova livremente, mas uma inteligência, vizinha do animal, que constrangeria o animal ao movimento, como a força comunicada a uma pedra por quem a lança a impele para o alto. Nessas condições, o termo liberdade seria ilusório, assim como o seria a própria pessoa do homem.
Se, como quer Averróis, se admite absolutamente apenas uma inteligência, a resposta às nossas questões será ou absurda ou satisfatória, mas não para Averróis. Com efeito, se essa inteligência nos move naturalmente, fá-lo-á de modo contínuo e idêntico, como o intelecto move o céu, pois os averroístas nos concedem a inteligência do mesmo modo que a concedem ao céu. Ou então ela nos move pela vontade e, nesse caso, ou nos constrangerá, e assim jamais seremos livres e, na hierarquia dos seres, nenhum agirá livremente; ou nos persuadirá, e então pergunto como eu, ser pensante, percebo essa persuasão, à qual não posso chegar senão pela intelecção. Assim, torna-se evidente que a intelecção me é própria, tanto mais porque é necessário, se me movo livremente, que seja uma e a mesma substância que persuade e move, que é persuadida e movida. De outro modo, o termo liberdade seria vazio de sentido.
Mas cheguemos à mesma conclusão por outro caminho.
Uma vez que temos por certo que este corpo vivo é movido na maioria das vezes pela inteligência, sobretudo nas operações que, após deliberação, conduzem por modos bem determinados a um fim mais racional do que corpóreo, perguntamos se é pela união natural de sua substância à substância do corpo que a inteligência move o corpo, ou apenas por seu comando. Não parece que seja somente por seu comando, pois não o faria senão persuadindo a fantasia ou ordenando-lhe que movesse ela mesma os membros do corpo, e a própria fantasia só os moveria se nisso consentisse. Ora, de fato, frequentemente o intelecto move o corpo contra o desejo da fantasia e dos sentidos, com o apetite sensível resistindo-lhe. Por isso, move os membros por uma espécie de união natural de sua substância aos corpos e mais por seu ser do que por seu comando.
Consequentemente, se na maioria das vezes é contra a inclinação da fantasia — não persuadida — que a inteligência ora retém os membros, ora os move, e se o faz de dentro e segundo a ordem pela qual os move ordinariamente a fantasia, não se vê então que essa alma cogitativa, por assim dizer, deixa de agir e torna-se supérflua, já que é a inteligência que opera em seu lugar e que a inteligência move à maneira de uma forma natural, pois por natureza é o princípio interno do movimento e do repouso? E, uma vez que ela engendra o movimento externo nos membros, com muito mais razão poderá engendrar o movimento interno nos humores, que são mais facilmente postos em movimento. Ora, pondo os humores em movimento, adaptará suas qualidades aos movimentos da nutrição. Com maior razão ainda poderá agitar fortemente os “espíritos”, que são perturbados até mesmo pela mais leve brisa. Moderando interiormente o “espírito”, põe em movimento o sentido dentro do “espírito”.
Logo, que necessidade há de duas almas semelhantes, a inteligência e a cogitativa, quando uma só basta, e quando a inteligência pode compreender e sentir tão bem quanto a cogitativa pode sentir e nutrir? Ademais, a inteligência também pode nutrir, uma vez que a potência vegetativa pode não apenas nutrir, mas também realizar os movimentos e atos dos elementos.
É, portanto, certo que há em nós uma potência que considera o ser mesmo, ou o ente, e a razão mesma, sob uma perspectiva mais geral do que a do sensível ou do não sensível, e que pode, à sua vontade, associar um inteligível e um sensível, e até mesmo cada um dos inteligíveis e todos os inteligíveis a cada um dos sensíveis e a todos os sensíveis. Assim, sucede que uma mesma potência conhece tudo isso. Ora, uma vez que o sentido não alcança o que é não sensível e não percebe nada mais geral do que o gênero universal dos sensíveis, e, por sua vez, a fantasia ignora o universal, essa potência será unicamente a inteligência.
Haverá, pois, na substância da inteligência, como na fantasia, uma potência capaz de discernir todos os sensíveis, que se poderá chamar, com propriedade, uma fantasia superior ou um sentido intelectual.
Onde está a potência de sentir, aí se realiza o ato de sentir, contanto que não falte o “espírito” no qual se exprimem as paixões do corpo ou aparecem as imagens das qualidades. Ora, há, subordinado à inteligência, um “espírito” luminoso que basta à função de sentir, e é por isso que essa fantasia superior, que está na substância da inteligência, pensa quando está infusa no “espírito” do cérebro, vê quando está infusa no “espírito” visual, extraindo de uma única fonte múltiplas potências.
Com efeito, se, segundo Averróis, a fantasia corpórea auxilia a substância inteligente no ato de intelecção, por que razão, segundo nós, o “espírito” que acompanha a fantasia corpórea não serviria à substância inteligente na execução do ato dessa fantasia que acompanha a inteligência? E, se os membros terrestres do corpo recebem da inteligência o movimento e o transmitem aos objetos exteriores, que impede que os “espíritos” ígneos, iluminados pela presença da inteligência, ofereçam à fantasia da inteligência as imagens corporais que se apresentam?
Eis por que, nessa mesma substância da inteligência, em que já reside toda a potência de agir livremente e de mover-se, estão contidas a potência intelectual, a potência sensitiva e a potência vegetativa.
Com efeito, quando nos dispomos a agir segundo a razão, o raciocínio de que falamos acima se produz necessariamente em nós. Se ele estivesse disperso em muitas substâncias, como em muitas pessoas, não passaria ao ato. É necessário remeter todo efeito a uma só causa principal, na qual esteja concentrada toda a potência e a razão de agir. Ora, a razão do ato humano consiste nesse raciocínio. Está, portanto, encerrada inteiramente na natureza da inteligência, natureza que será o princípio suficiente do ato humano, tanto porque o raciocínio está todo nela, quanto porque é a ela somente que obedecem os membros do corpo, e o olho, a língua, as mãos e os pés percebem e executam cada uma das ordens, por assim dizer, da inteligência com tamanha facilidade, rapidez e exatidão, que é incrível que a inteligência não seja sua forma própria e seu guia íntimo.