FICINO, Marsile. Théologie platonicienne de l’immortalité des âmes. Raymond Marcel. Paris: Les Belles Lettres, 1964
Quinto argumento. A inteligência separada não tem necessidade da fantasia
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Exposição da doutrina de Averróis sobre a natureza separada e independente da inteligência em relação ao corpo.
- Para Averróis, a natureza da inteligência não tem uma existência comum com o corpo, nem o corpo lhe comunica a sua existência própria, não tirando dela a sua origem essencial ou a sua preparação para a existência.
- A inteligência não constitui com o corpo uma espécie qualquer e não se multiplica segundo o número dos corpos, possuindo um modo de existência totalmente distinto do ser animado e, consequentemente, um modo de conhecimento independente do corpo.
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Consequência lógica da doutrina averroísta: a inteligência não necessitaria das imagens da fantasia para conhecer, especialmente as realidades eternas.
- Nenhuma razão obrigaria a inteligência a tirar as suas espécies das imagens da fantasia ou a recorrer a um processo discursivo temporal e variável, assemelhando-se antes às inteligências superiores e compreendendo-as melhor do que as qualidades corpóreas.
- Esta conclusão contradiz Aristóteles, que escreveu que esta inteligência nada compreende sem imagens, as quais existem para os corpos, mas não para as inteligências.
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Defesa da natureza intermédia do intelecto humano, que, embora unido ao corpo, é separável e tende tanto para o corpóreo como para o incorpóreo.
- Partindo dos dados primeiros e familiares ao intelecto humano – as naturezas e razões gerais das coisas naturais, unidas aos corpos mas separáveis –, demonstra-se que o intelecto é constituído de modo a estar unido ao corpo e poder ser separado dele.
- Por estar unido ao corpo, volta-se quase sempre para as imagens; por ser separável, volta-se para elas de modo separável, isto é, abstraindo e separando.
- O pendor natural do intelecto para os corpos e para os incorpóreos, e o da vontade para as coisas eternas e temporárias, mostra a sua natureza intermédia.
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Refutação da possível resposta averroísta de que o intelecto compreende as inteligências superiores sem imagens, mas os corpos com elas.
- Os averroístas poderiam responder que o intelecto compreende as inteligências superiores sem as imagens da fantasia, mas não os corpos.
- Contra-argumenta-se que, se as inteligências superiores contêm as espécies incorpóreas dos corpos, o intelecto, ao compreendê-las, recebe delas o conhecimento dos corpos, não necessitando dos corpos para isso.
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Crítica à incoerência da noção de um intelecto que, sendo superior, receberia conhecimento dos inferiores.
- Os averroístas afirmam que o intelecto, sendo o mais baixo, subsiste em si e adere a nós; em si, percebe as inteligências superiores; unido a nós, tira das imagens as espécies.
- Responde-se que é inútil o intelecto, que sempre considera os corpos nas suas causas, vê-los também sempre nas suas imagens, e que não é por nos ser unido que tira as espécies das imagens, mas é porque as tira que nos é unido.
- Se o intelecto nos é unido por parentesco de natureza, sendo superior, deveria dar-nos a ciência, não recebê-la de nós, tal como a esfera da lua move a esfera do fogo, não sendo movida por ela.
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Questionamento sobre o efeito da intelecção humana na perfeição da inteligência separada.
- Pergunta-se se a inteligência, ao compreender em nós, se torna mais perfeita, mais imperfeita, ou nenhuma das coisas.
- Se não se torna nem uma coisa nem outra, a sua agitação perpétua será inútil; se se torna mais perfeita, a sua perfeição dependerá de imagens temporárias; se se torna mais imperfeita, como é que se move sempre para o imperfeito?
- Averróis afirma que as inteligências separadas, conhecendo as coisas eternas pela sua essência, nada conhecem de temporal, sob pena de se aviltarem; logo, o conhecimento temporal traz deficiência, e a inteligência humana, ao compreender coisas temporárias, tornar-se-ia mais imperfeita.
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Argumentação sobre a inutilidade e o carácter monstruoso do intelecto único de Averróis para as almas humanas e para o universo.
- A inteligência, ao contemplar as coisas eternas, tornar-se-ia mais imperfeita por ser o joguete de imagens falaciosas e de preocupações, e o seu conhecimento das coisas da natureza seria inútil, não se relacionando com nada nem ordenado a um fim.
- O suposto vínculo não é útil para as nossas almas, pois o espírito humano particular e mortal não está em condições de receber as razões universais e eternas.
- A presença da inteligência só seria vantajosa se nos arrastasse contra a nossa natureza, privando-nos dos bens presentes pelo engodo de bens divinos, o que não é útil para a inteligência divina.
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Demonstração da suficiência da inteligência separada para conhecer o corpóreo sem necessidade dos sentidos humanos.
- A inteligência, vendo pela sua essência as causas superiores, em que estão encerradas todas as causas intermédias e efeitos, percebe por elas todas as realidades corpóreas, não necessitando da nossa fantasia e dos nossos sentidos.
- Tendo em si o intelecto agente, perpetuamente em ato, pode emprestar uma natureza inteligível a todo o objeto sensível, preencher o intelecto possível com luz intelectual e apresentar-lhe as espécies inatas das realidades superiores ou conceber os seres particulares a partir de dados universais.
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Rejeição da união do intelecto com o ser animado como formando um composto real e da sua função de ligação no universo.
- A união não faz verdadeiramente dos dois um só, e não convém reportar partes verdadeiras a um falso conjunto como a um fim.
- O suposto monstruoso de Averróis, com uma cabeça única e membros inumeráveis, não embebe o universo, pois não é uno em si mesmo e não recebe ligação de fora, não podendo, portanto, ligar o resto.
- É necessária no universo uma forma única que ligue as formas superiores às inferiores, reunindo as propriedades de todas, o que não se verifica no monstro averroísta, onde os extremos permanecem separados.
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Crítica às absurdas consequências da localização e do movimento do intelecto único na doutrina averroísta.
- Se o intelecto está por toda a parte sob a lua, é inutilmente colocado onde nunca há homens, como nas camadas superiores do ar, onde não serve para nada.
- Se só está onde há homens, segue-se que estará todo em dois homens muito afastados sem estar no intervalo, o que a natureza não permite, e que se moverá com o movimento dos homens, o que a escola peripatética não admite para uma substância não corpórea.
- Não se consegue explicar por que razão uma inteligência tão divina acompanharia como uma serva um pequeno ser humano que raramente usa a inteligência, não por necessidade natural, constrangimento ou reflexão.