Os Reden Der Unterscheidung
A primeira obra que conhecemos de Meister Eckhart e que a tradição atribui ao período de Erfurt, não é nem um exercício escolástico nem um ensaio doutrinal farto de distinções metafísicas, mas a revelação luminosa de uma alma que já possui sua certeza interior. São ensinanças de vida moral e religiosa dirigidas aos confrades da Ordem, que pressupõem, portanto, o conjunto de normas da vida coletiva e ocupam um lugar apropriado somente se as concebermos em função da disciplina do claustro e deveres bem determinados. A doutrina que as inspira constitui um misticismo que devemos nos limitar a definir como misticismo ético, ainda que, bem visto, revele uma estrutura especulativa preenchida pelos elementos que darão firmeza doutrinal ao conjunto das obras da maturidade. Mas a alma cristã e mística de Eckhart, sedenta de salvação espiritual mais do que de sistematizações intelectuais, está já aqui: as obras posteriores criarão superestruturas metafísicas mais ou menos consistentes, deduzindo, por esta necessidade imanente de auto-interpretação racional que constitui nosso espírito, motivos e conceitos de várias correntes teológicas e filosóficas e comprometendo dogmaticamente, na audácia das fórmulas, a espontaneidade da experiência religiosa fundamental. Mas trairíamos a sinceridade moral de Meister Eckhart se quisermos separar o aspecto especulativo de sua doutrina do tom místico-religioso de sua vida. Também para ele, como para os místicos de todos os tempos, o que se expressa é apenas o símbolo inadequado e ainda que se leve ao extremo, impotente para reproduzir o Ato do espírito, que é interior e inefável. As palavras escritas ou pronunciadas podem provocar escândalos e condenações; mas, ainda que pareça a manifestação integral da alma, à qual é necessário ater-se para interpretar uma personalidade, voam como folhas secas longe da inviolável raiz do espírito: o místico leva consigo à tumba o prodígio de sua vida, deixando à posteridade a árdua tarefa de encontrar na palavra morta e fossilizada o vestígio do esplendor já apagado.
Este mesmo chamado à experiência mística pessoal de seu auditório — que Eckhart, como Plotino dirige nestes Reden — deve dirigir-se agora a quem se presta a reconstruir integralmente, não o edifício de suas ideias expressadas e racional e objetivamente discutíveis, senão a plenitude espiritual de sua alma: a palavra deve evocar e sugerir, a menos que queiramos nos limitar à análise do "pensamento expressado" como a de uma construção intelectualista, declarando inacessível o que é a tonalidade inviolável de cada indivíduo. O místico não pertence nem ao âmbito da arte nem ao da filosofia, pois representa uma experiência particular e irredutível: não é artista, porque não se esgota na obra expressada, senão que ama o grande silêncio; não é filósofo, porque não indaga nem traduz racionalmente seu próprio pensamento, senão que oferece unicamente uma "chave" daquilo que é irracionalizável. Seria,portanto, inútil querer interpretar adequadamente, através da palavra, o que é ato de vida profunda, além da palavra. E com efeito, a experiência mística não tem história porque se esgota em um ponto inexpressável.
Contudo, se o místico por um lado é uma pessoa encerrada dentro de um incomunicável círculo de sua existência e não conhece outra relação que a que existe entre sua alma e Deus, por outro lado é coexistência, comunicação e caritas e, enquanto tal, é palavra pronunciada e relação espiritual. O "recolhimento" absoluto é tão absurdo como a relação pura que é abstrata universalidade. Na sua relação vital com outras almas o místico demonstra a si mesmo a pureza do seu querer e o valor de sua experiência íntima: por isso combate e atua no mundo, escreve e fala a outras almas para revelar-se, mas sobretudo para permanecer fiel a si mesmo. A imóvel luz interior ameaçaria apagar-se se não se recuperasse em outros homens, acendendo novos corações. O místico, que parece necessitar concentrar-se na posse plena e auto-suficiente de seu espírito, é, na realidade, como seu Deus, atividade desinteressada e pura que transcende perenemente suas próprias obras e pertence somente a si mesma. Os Reden são a revelação desta "atitude" específica, esboçada a partir de um princípio com a mais desejável clareza. "A verdadeira e completa submissão é a virtude que supera todas as demais. Nenhuma obra importante pode realizar-se sem ela, e por mais insignificante e pouco relevante que seja uma ocupação, se feita com espírito de submissão, traz um proveito maior que celebrar ou escutar uma missa, rezar, contemplar ou qualquer outra coisa que se possa imaginar." O que importa mais não, é tanto o conhecimento ou a obra em si. O saber não é nem renúncia nem sacrifício de si mesmo, mas sim, reconhecimento do ser e, portanto, vínculo com a realidade; a obra não tem significado por si mesma se não é santificada pela Gelassenheit que é adesão total a Deus e,portanto,desinteresse e desprendimento absoluto das coisas. O princípio e o fim da vida espiritual é a "solidão interior" que é despojamento ou negação absoluta do indivíduo. O homem deve abdicar do seu próprio querer e do seu próprio eu, renunciar ao seu pensamento e ao seu desejo, libertar-se de causas e motivos exteriores. Este é por ora, o motivo central do misticismo ético do Mestre que inspira todos os seus ensinamentos.
Todavia uma ampla problemática não apenas moral como também especulativa e metafísica, no evoluir da obra, acompanha a intuição fundamental com abundantes motivos implícitos e explícitos que teremos que levar em consideração ao examinar as maiores obras. Antes de tudo, a clara distinção, ainda mais, a contraposição entre o exterior e o interior, entre o humano e o Divino, entre o terreno e o celestial, entre o múltiplo e o uno. O místico enfrenta a realidade com um sentido inerente de amargura e desgosto: todos os elementos negativos do mundo — o devenir, o tempo, a morte, o pecado, a dor — mas também as coisas que parecem positivas e desejáveis, são para ele trevas e o não-ser. Seu básico tom angustiante diante da exterioridade não deriva de um conhecimento racional das coisas, senão que é o conhecimento que se forma e se determina sobre aquele fundo original e irredutível. Por outro lado, este sentimento primordial, que é negação, também não se pode pensar senão em função e íntima relação com o sentido do Divino e do numinoso. A complexa doutrina mística de Eckhart tem neste sentido originário .sua condição primeira, transcendental. Não se trata nunca, como veremos, nem de êxtase nem de visões nem de enfermas fantasias que venham quebrar, com seu aspecto milagroso e excepcional, a atmosfera mais ou menos inerte da vida cotidiana. O misticismo eckhartiano, ainda que sustentado por uma perene tonalidade afetiva, é, em última análise, contrário a todo sentimentalismo e a toda miragem extática. Os "doces sentimentos" podem ser produzidos também pelos sentidos, e não são seguramente melhores, aqueles que os experimentam. Os que cresceram no amor de Deus possuem uma fé inquebrantável nele e aderem a ele com sua vontade fidelíssima, mesmo sem estas "experiências" especiais. As sensações agradáveis são fugazes e passageiras e pertencem, portanto,a este mundo exterior, do qual a alma deve manter-se livre sempre: Mas quem possui a Deus não tem algo efêmero, senão que possui o imutável e o eterno. Contudo — e aqui quero insistir — seu anti-sentimentalismo não é a expressão inequívoca de uma atitude racionalista em direção ao ser. Pode ser que a aversão à afetividade mística lhe venha do ambiente dominicano-tomista e não seria difícil demonstrar como o voluntarismo dominante nos Reden pressupõe a presença luminosa da razão discriminadora e equivale, portanto, a uma posição intelectualista. Mas compare-se o desenvolvimento da personalidade de Eckhart com o desenvolvimento da personalidade de Tomás de Aquino. Este passou de uma,primeira fase de pensamento, profundamente penetrado ainda por elementos neoplatônicos, com inclinação à mística a um rigoroso racionalismo que não tolera posições a priori e afetivas, revelando assim a típica estrutura de sua mentalidade; Meister Eckhart mantém-se fiel ao espírito numinoso dos Reden, rumo ao qual orienta decidida e sinceramente tudo o que a especulação posterior, ainda que intelectualista e racionalista, lhe poderá oferecer, ocultando às vezes o centro lírico de sua alma sob os obstáculos da problemática escolástica, revelando outras vezes, em obras alemãs — plenamente livre de categorias especulativas — as profundezas de sua vida divina, isto é, a inerente "atitude" mística de todo seu ser diante das coisas. Para São Tomás a primeira relação humana é a que está entre o pensamento e o existente concreto; para Eckhart é a que existe entre a alma e Deus e se revela como sentido de liberdade absoluta e de "desprendimento" interior, como gozosa unidade de espírito. A especulação posterior não terá valor como construção objetiva e universal, senão tão somente em função do inexpressável; o que aos críticos modernos parecerá excessos de linguagem, incoerências lógicas ou testemunho de um pensamento não disciplinado, não são na realidade mais do que símbolos, ainda que inadequados, da Vida profunda, inacessível à palavra e ao raciocínio e, em consequência, também expressões de uma exigência espiritual.