Quando a alma é arrebatada até as coisas visíveis para o espírito, mas semelhantes às corporalmente visíveis, de maneira que é afastada dos sentidos do corpo mais do que sucede no sono, porém menos que na morte, a socorre a advertência divina graças à qual sabe espiritualmente ver, não já corpos, senão visões semelhantes a corpos. São estes como aqueles que sabem ver no sono ainda antes de se despertar ele, ainda que pareçam adivinhar as coisas vindouras de modo que conhecem o futuro, cujas imagens se veem como se estivessem presentes, seja porque a mente do homem recebe ajuda divina, seja porque uma das coisas assim reconhecidas manifesta seu significado; João, no Apocalipse, fez uso de uma exposição assim. É grande a revelação, ainda quando aquele a quem se revelam essas coisas ignore se saiu do corpo ou todavia se encontra nele; mas em todo caso as vê com o espírito afastado dos sentidos. Com efeito, quem é arrebatado desse modo talvez possa ignorar seu arrebatamento, em caso de que não seja desvelado abertamente. Ademais, se foi arrebatado fora dos sentidos corpóreos, de maneira que se encontra entre essas semelhanças dos corpos tal como se veem com o espirito. será arrebatado por elas para ser transportado à região das ideias intelectuais. Asi se distingue a límpida verdade, sem semelhança corpórea alguma, sem a ofuscação de nuvens de falsas opiniões. Ali as virtudes da alma não resultam fatigosas; ali a única virtude consiste em amar o que vês, e suma felicidade é ter o que tens. Ali se bebe a vida ditosa em sua fonte, desde onde salpica algo sobre esta vida humana, de maneira que logo se vive nas tentações deste século com vigorosa temperança e com prudente justiça. Assim se distingue a claridade do Senhor, não já por visão significativa ou corporal, como se viu sobre o Sinai, nem espiritual, como vislumbraram Isaías ou João no Apocalipse, senão específica, abertamente, na medida em que a mente humana pode compreender, segundo a graça de Deus que a eleva, de sorte que Deus fala cara a cara àquele ao qual fez digno de tal colóquio; se entende a cara da alma e não do corpo, como se escreveu de Moisés, quem, segundo o Êxodo, quis ver a Deus, não como o havia visto sobre o monte, ou no tabernáculo, senão na substância na qual consiste Deus, sem as semelhanças corpóreas, na medida em que é dado à mente humana conceber sem mediações. Ele o mereceu, como atesta o Senhor dizendo: «Se há entre vós um profeta, eu, o Senhor, o falarei em visão, ou em sonhos, não como com meu servo Moisés.... falando-lhe cara a cara, abertamente e não em enigmas» (Nm 12,6-8), e Moisés viu a claridade de Deus. Deus fala com quem quer com essa fala inefável, mas secretamente e com maior presença; com efeito, nenhum vivente durante sua vida mortal o há jamais visto com estes sentidos corpóreos, salvo estando já morto a esta vida ou havendo saído do corpo, ou estando em oposição às coisas carnais e alienado delas até o ponto de não saber se se encontra no corpo ou fora dele, como o Apóstolo quando doi arrebatado até essa visão tão verdadeira e certíssima. Ali, com efeito, se saboreia, ainda que parcialmente, a verdadeira vida que além desta outra mortal nos tocara viver junto com os anjos na eternidade Por isso diz o Senhor: «Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus» (Mt 5,8). Quando a mente humana é iluminada por tal visão, percebe tudo com verídica inteligência em si mesmo ou na visão, pois a luz em que se encontra é Deus. Quando, arrebatada fora dos sentidos corporais, a alma se apresenta a esta visão que não se produz em um espaço, senão de um modo inteiramente particular, vê também sobre si mesma aquilo em virtude do qual reconhece também algo dentro de si. Antes de haver experimentado esta diviníssima visão, cuide a alma que aspira a esta doçura de não deixar-se arrebatar pelo anjo de Satanás, semelhante ao anjo da verdadeira luz, cuide de não acolhê-lo fiando-se do que ele não pode dar, e de não pôr, pelo contrário, em dúvida o arrebatamento que acontece em virtude do espírito; ainda mais, não creia em nenhum espírito que o arrebate em modo algum, nem mesmo quando prediga coisas verdadeiras. Com efeito, o arrebatamento demoníaco que nos engana produz a possessão ou o falso profeta; ao contrário, o bom espírito conduz até o dom da profecia ao fiel que arrebatou em êxtase só algum tempo depois de havê-lo feito eloquente nos mistérios.
A visão intelectual não se obtém por meio de dicções e sílabas, como com o ouvido, senão pela intuição simultânea da mente, tal como se alcança com a vista, da mesma maneira que se desvelam em um só instante no espírito mesmo de Deus todas as coisas, sabidas e vistas, ao invés de ouvidas através de enigmas, e vê tal visão veraz e imutavelmente. Por isso os profetas são chamados videntes. Da mesma forma que se o corpo do homem fosse todo um olho, na frente e atrás, veria as coisas circunstantes de golpe, igualmente a mente iluminada por Deus nesse momento da assunção entende todas as coisas que se o mostram simplesmente as olhando.
Portanto, quando comeces a ser uma pomba de simplicidade na conversação espiritual e rolinha de castidade na adesão a Deus, estais em guarda com maior diligência contra as astúcias do abutre que dá voltas ao redor, quer dizer, contas insinuações e arrebatamentos do demônio meridiano, de cujos laços não escaparás senão submetendo-te à obediência com plena humildade. Com efeito, às almas que se entregam com lágrimas à oração perpétua geralmente arrebatá-las sem vexação alguma, senão porém elevando-as por cima dos sentidos corpóreos e predizendo coisas além do mais verdadeiras, advertindo muitas coisas santas e saudáveis, para poder enganá-las melhor quando elas já deem fé dessas coisas boas. No entanto, em virtude da verdadeira fé também ele está condenado a mostrar-se, manifestando-se como demônio (daemonem se esse manifeste personare) à alma que no êxtase o pergunte: «A Quem és?» Às vezes arrebata à alma e engana ignominiosamente ao corpo, coisa que o revela sem dúvida como espírito imundo. A quem faz progressos no cenóbio o sugere o deserto, e a quem o seja aquiescente e ao que tenha conseguido arrancar do caminho da salvação o precipita no abismo da morte eterna, matando-o. Além do mais, ao que permanece no claustro o exaspera contra as ordens estranhas para afastá-lo da paz do coração. Aos mais devotos os sugere que se elevem sobre si mesmo entre as coisas grandes e maravilhosas, fazendo-os incorrer em exageração qualquer seu seja sua ocupação. Quer com o excesso mostrar-se Espírito Santo a quem não o reconhece, e à alma ludibriada não resta recurso algum se não recebe iluminação de Deus. Com efeito, frequentemente, com um harmonia que soa docemente e que prenuncia no céu, quando a alma é arrebatada e pergunta: «A Quem és?» se o responde: «Sou Deus».
A mente que tenha sido todavia iluminada deste modo se engana muito ao crer que o que a arrebata maravilhosamente é, ora o espírito bom, ora o mau, e é necessário que sofra quando o Espírito Santo apenas sopre. Com efeito, quando é arrebatada pelo anjo bom, Deus a concede discernir com certo sabor espiritual. Quando mais tarde se tenha purificado até o ponto de ser capaz de entender as palavras da Sabedoria mesma, sem mediador de nenhum tipo, elevada pelo Espírito Santo até Deus e fora do corpo e de toda imaginária, então com suavíssima doçura, com uma só e veraz intuição vê, sabe e compreende quanto o é mostrado nessa segura visão.