Traduzido de MAÎTRE ECKHART. Et ce néant était Dieu... : Sermons LXI à XC. Paris: Albin Michel, 2000
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“Devem encontrar-se renovados no vosso espírito que se chama mens, o que quer dizer um espírito.” É assim que São Paulo fala.
Diz São Agostinho que na parte superior da alma, que lá se chama mens ou espírito, Deus criou ao mesmo tempo que o ser da alma uma potência que os mestres chamam um receptáculo ou um estojo de formas espirituais ou de imagens de tipo formal. Esta potência faz o Pai igual à alma pelo fluxo da sua divindade, a partir da qual verteu toda a riqueza do seu ser divino no Filho e no Espírito Santo segundo uma diferenciação pessoal, assim como a memória da alma verte nas potências da alma o tesouro das imagens. Se agora a alma por esta potência contempla o que é da imagem – que ela contemple a imagem de um anjo, que ela contemple a imagem de si mesma –, é lá para ela uma carência. Contempla Deus tal como Ele é Deus ou tal como Ele é imagem ou tal como Ele é trino – é uma carência. Mas quando todas as imagens se encontram destacadas da alma, e que ela contempla somente o único Uno, então o ser nu da alma, repousando passivamente em si mesmo, encontra o ser nu desprovido de forma da unidade divina, que lá é o ser para além do ser. Ah, maravilha sobre maravilha, que nobre padecer é este que o ser da alma não pode padecer outra coisa que somente a unidade nua de Deus!
Diz São Paulo: “Sereis renovados no Espírito”. Renovação cai em todas as criaturas que estão debaixo de Deus; mas em Deus não cai nenhuma renovação, pois n’Ele tudo é eternidade. O que é a eternidade? Notemos! A propriedade da eternidade é que o ser e a juventude nela são um; pois a eternidade não seria eterna se ela pudesse se tornar nova e não fosse constante. Ora dizemos: Renovação cai no anjo, ou seja: o conhecimento do futuro, pois o anjo não sabe nada das coisas a vir a não ser na medida em que Deus as lhe manifesta. Na alma cai também renovação tanto quanto ela se chama alma, pois ela se chama alma pela razão de que ela dá vida ao corpo e é uma forma do corpo. Nela cai também renovação tanto quanto ela se chama um espírito. A razão pela qual ela se chama um espírito é que ela está destacada daqui e de agora e de toda a naturalidade. Mas lá onde ela é uma imagem de Deus e desprovida de nome como Deus, lá não cai nenhuma renovação nela, que somente eternidade, como em Deus.
Ora notemos! Deus é desprovido de nome, pois d’Ele ninguém pode falar nem ouvir. É por isso que um mestre pagão diz: O que ouvimos e dizemos a respeito da causa primeira, somos mais isso nós mesmos que se fosse a causa primeira, pois ela está acima de todo dizer e ouvir. Dizemos agora: “Deus é bom” – não é verdade, antes: Somos bons, Deus não é bom! Queremos dizer mais: “Somos melhores que Deus!”, pois o que é bom, isso pode se tornar melhor; o que pode se tornar melhor, isso pode se tornar melhor que tudo. Ora Deus não é bom, pela razão de que Ele não pode se tornar melhor. Porque Ele não pode se tornar melhor, por esta razão Ele não pode se tornar o melhor de tudo; pois estas três coisas estão longe de Deus: “bom”, “melhor”, e “melhor que tudo”, pois Ele está acima de tudo. Se dissermos igualmente: “Deus é sábio” – não é verdade: somos mais sábios que Ele. Se dissermos igualmente: “Deus é um ser” – não é verdade: Ele é um ser planando acima e um nada acima do ser. É por isso que São Agostinho diz: “A coisa mais bela que o homem pode dizer de Deus, é poder se calar em razão da sabedoria do seu reino interior”. É por isso que é preciso nos calarmos e não falarmos a respeito de Deus; pois quando falamos a respeito d’Ele, mentimos, assim cometemos um pecado. Que se quisermos ser sem pecado e perfeitos, não falemos a respeito de Deus. É preciso também não ouvirmos nada de Deus, pois Deus está acima de todo ouvir. Um mestre diz: Se tivéssemos um Deus que pudéssemos ouvir, nunca o quereríamos considerar como Deus. Ouvimos agora algo d’Ele, isso Ele não o é, e, por tanto que ouvimos algo d’Ele, nos equivocamos numa não-conhecimento, e deste não-conhecimento nos equivocamos na animalidade; pois o que é não-conhecendo nas criaturas, isso é animal. Se quisermos agora não ser animais, não conheçamos nada do Deus indizível. – “Ah! Como devemos fazer?” – “É preciso nos abismarmos plenamente do nosso ser-teu e devemos nos fundir no seu ser-seu, e o que é nosso e o que é seu devem se tornar um meu tão totalmente que nós, eternamente, compreendamos com Ele a sua entidade não-tornada e a sua não-entidade inominável.
Ora São Paulo diz: “Sereis renovados no espírito”. Se portanto devemos ser renovados no espírito, é preciso que as seis potências da alma, as duas superiores e as inferiores, tenham cada uma um anel em ouro dourado ao ouro do amor divino. Ora notemos! As potências inferiores são em número de três. A primeira se chama discernimento, rationalis; para ela é preciso ter um anel de ouro, ou seja: a luz que em todos os tempos fora do tempo ilumina o nosso discernimento pela luz divina. A segunda potência se chama a irascível, irascibilis; para ela é preciso ter um anel, ou seja: a nossa paz. “Por que?” – Pois, tanto em paz, tanto em Deus; tanto fora de paz, tanto fora de Deus. A terceira potência se chama desejo, concupiscibilis; para ela é preciso ter um anel, ou seja: uma satisfação, que deve nos bastar em relação a todas as criaturas que estão debaixo de Deus; mas Deus não deve jamais nos satisfazer, pois nunca podemos nos contentar com Deus: quanto mais de Deus temos, mais desejamos o que é seu; pois, se Deus pudesse nos satisfazer, de maneira que caísse em Deus satisfação, Deus não seria Deus.
É preciso também para as potências superiores termos em cada uma um anel de ouro. As potências superiores são igualmente em número de três. A primeira se chama uma potência que guarda, memoria. Esta potência se a diz igual ao Pai na Trindade. Para esta é preciso ter um anel de ouro, ou seja: um guardar pelo qual é preciso guardar em nós todas as coisas eternas. A segunda se chama intelecto, intellectus. Esta potência se a diz igual ao Filho. Para esta é preciso igualmente ter um anel de ouro, ou seja: conhecimento, pelo qual conhecer Deus em todos os tempos – “E como?” – É preciso o conhecermos sem imagem, sem intermediário e sem comparação. Mas se devemos assim conhecer Deus sem intermediário, é preciso que nos encontremos todo perto d’Ele e que Ele se torne nós. Dizemos mais: É preciso que Deus se encontre todo perto de nós e nós todo perto de Deus, a tal ponto uma coisa que este “Ele” e este “nós” se tornem e sejam um “é”, e na entidade operem eternamente uma só obra; pois este “Ele” e este “nós”, ou seja, Deus e a alma, são de grande produtividade. Se houvesse um único “aqui” ou um único “agora”, então este “nós” não poderia jamais operar ou se tornar um com o “Ele”. A terceira potência se chama vontade, voluntas. Esta potência se a diz igual ao Espírito Santo. Para esta é preciso ter um anel de ouro, ou seja: o amor, para que amemos a Deus. É preciso amarmos a Deus sem a amabilidade, ou seja: não pela razão de que Ele é amável, pois Deus não é amável; Ele está para além de todo o amor e amabilidade. “Como devemos amá-lo?” – É preciso amarmos não espiritualmente, ou seja: de tal forma que a nossa alma seja não-espiritual e desprovida de todo o caráter espiritual; pois, tanto tempo a nossa alma é conforme ao espírito, ela tem imagens; tanto tempo ela tem imagens, ela tem intermediários; tanto tempo ela tem intermediários, ela não tem unidade nem coincidência; tanto tempo ela não tem coincidência, ela não amou ainda jamais a Deus de forma justa; pois amar de forma justa prende-se à coincidência. É por isso que a nossa alma deve ser não-espiritual em relação a todo o espírito e deve se manter desprovida de espírito; pois, se amarmos a Deus segundo que Ele é Deus, segundo que Ele é espírito, segundo que Ele é pessoa e segundo que Ele é imagem – é preciso que isso desapareça “Como devemos amá-lo?” – É preciso amá-lo tal como Ele é Um não-Deus, Um não-espírito, Uma não-pessoa, Uma não-imagem, antes: segundo que Ele é um límpido puro e claro Uno, separado de toda a dualidade, e neste Uno devemos nos abismar eternamente do algo ao nada.
Que a isso Deus nos ajude. Amém.