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Eckhart Sermon 29



ES28 <= Sermão XXIX – Convescens praecepit eis, ab Ierosolymis ne discederent etc. => ES30

Estas palavras que acabamos de pronunciar em latim, lemos na missa da Festa de hoje; Nosso Senhor disse-as aos seus discípulos quando estava prestes a subir ao céu: “Permaneçam juntos em Jerusalém sem se separarem e esperem o cumprimento da promessa que o Pai lhes fez: que serão batizados com o Espírito Santo depois destes dias que não são muitos, mas sim poucos” (Cfr. Atos dos apóstolos 1, 4 a 5).

Ninguém pode receber o Espírito Santo a não ser que more acima do tempo na eternidade. Nas coisas temporais o Espírito Santo não pode ser nem recebido nem dado. Quando o homem se afasta das coisas temporais e se volta para o seu foro íntimo, percebe ali uma luz celestial que veio do céu. Encontramo-nos debaixo do céu e, no entanto, é do céu. Nesta luz o homem fica satisfeito, e, no entanto, ela é ainda corpórea; dizem que é matéria. Um pedaço de ferro cuja natureza consiste em cair para baixo, levanta-se para cima contra a sua natureza e apega-se à pedra ímã por causa da nobre influência que a pedra recebeu do céu. Para onde quer que a pedra se dirija, até lá se dirige também o ferro. O mesmo acontece com o espírito: não nos contentamos assim, no entanto, com essa luz; vamos avançando sempre pelo firmamento e penetramos através do céu até chegar ao espírito que faz girar o céu, e devido à rotação do céu reverdece e se cobre de folhas tudo quanto há no mundo. Mas o espírito ainda não está satisfeito se não avança até ao cume e à fonte primigênia onde o espírito tem a sua origem. Este espírito compreende de acordo com o número sem número, e semelhante número sem número não existe no tempo da caducidade. Na eternidade, em contrapartida, ninguém tem outra raiz, ali ninguém carece de número. Este espírito tem que ir mais além de todo número, atravessando toda a quantidade, e depois é atravessado por Deus; e assim como Ele nos atravessa, o atravessamos, por nossa vez. Deus conduz este espírito ao deserto e à sua unidade ali onde Ele é um puro Uno e só brota em si mesmo. Este espírito já não tem porquê; se tivesse algum porquê também a unidade deveria ter o seu porquê. Este espírito encontra-se em unidade e em liberdade.

Ora, dizem os mestres que a vontade é tão livre que, com exceção de Deus, ninguém é capaz de a submeter. Mas Deus não submete a vontade, mas sim a coloca na liberdade de tal maneira que não quer outra coisa a não ser aquilo que é o próprio Deus e a própria liberdade. E o espírito não pode querer outra coisa fora do que Deus quer; e isso não é falta de liberdade, mas liberdade por excelência.

Pois bem, certas pessoas dizem: “Se tenho a Deus e o amor de Deus, posso fazer muito bem tudo quanto quero”. Esta palavra interpretamo-la mal. Enquanto somos capazes de fazer qualquer coisa que esteja contra Deus e os seus mandamentos, não possuímos o amor de Deus, por mais que enganemos o mundo pretendendo que o tenhamos. Ao homem que se encontra afiançado na vontade e no amor divinos, é-lhe prazeroso fazer tudo quanto agrada a Deus e deixar tudo quanto está contra Deus; e é-lhe tão impossível deixar de fazer algo que Deus quer que se faça, como fazer algo que esteja contra Deus. Acontece exatamente o mesmo com quem tem as pernas atadas; tão impossível como seria para ele caminhar, seria para o homem afiançado na vontade divina, fazer algo de mal. Disse alguém: Embora o próprio Deus tivesse mandado fazer o mal e fugir da virtude, não seríamos capazes de fazer o mal. Pois ninguém ama a virtude senão aquele que é a própria virtude. O homem que deixou a si mesmo e a todas as coisas, que não busca nada do seu em coisa alguma e faz todas as suas obras sem porquê e por amor, semelhante homem está morto para todo o mundo e vive em Deus e Deus nele.

Há, porém, gente que diz: “Dá-nos belos sermões, mas não notamos nada disso”. Eu também me lamento do mesmo! Este ser é tão nobre e tão universal que não é preciso comprá-lo nem por um quarto nem por meio penique. Tenhamos, no entanto, uma disposição reta e uma vontade livre, então o possuiremos. O homem que deixou assim a todas as coisas no seu ser mais baixo e em quanto são perecíveis, recebe-as de volta em Deus onde são verdade. Tudo quanto aqui está morto, vive ali, e tudo quanto é matéria grossa aqui, ali, em Deus, é espírito. É exatamente como se alguém vertesse água pura num recipiente limpo, que fosse completamente puro e límpido, e o deixasse sem mover; e se depois uma pessoa pusesse em cima o seu rosto, o veria no fundo exatamente como é em si mesma. Isto deve-se ao facto de que a água é pura e limpa e imóvel. O mesmo acontece com todos os homens que se mantêm livres e unidos em si mesmos, e, se recebem a Deus no meio da paz e tranquilidade, devem recebê-lo também na discórdia e intranquilidade; então tudo anda perfeitamente bem. Mas se o apreendem menos na discórdia e intranquilidade, do que na tranquilidade e na paz, as coisas andam mal. Diz São Agostinho: A quem o dia se torna aborrecido e o tempo se faz longo, que se dirija para Deus onde não há “tempo longo” e em quem descansam todas as coisas. Aquele que ama a justiça, será apreendido pela justiça e se converterá em justiça.

Pois bem, disse Nosso Senhor: “Não vos chamei de servos, chamei-vos de amigos, porque o servo não sabe o que é o que o seu Senhor quer” (João 15,15). Também o meu amigo poderia saber algo que eu não sabia, porquanto não o quereria comunicar. Mas Nosso Senhor disse: “Tudo quanto ouvi do meu Pai, revelei-o a vós”. Surpreende-nos, pois, que alguns frades, que pretendem ser muito doutos e grandes frades, se contentem tão depressa e se deixem enganar. Ao referir-se à palavra que Nosso Senhor disse: “Tudo quanto ouvi do meu Pai, revelei-o a vós”… querem interpretá-la dizendo que nos revelou tudo o que nos faz falta para a nossa eterna bem-aventurança, enquanto estamos “em caminho”. Não opinamos que se deva interpretar assim, porque não é verdade. Deus por que se fez homem? Para que nós mesmos nascêssemos como o próprio Deus. Deus morreu para que nós morrêssemos para todo o mundo e todas as coisas criadas. Assim temos que interpretar a palavra pronunciada por Nosso Senhor: “Tudo quanto ouvi do meu Pai, revelei-o a vós”. O que é que o Filho ouve do seu Pai? O Pai não pode senão engendrar, o Filho não pode senão nascer. Tudo quanto o Pai tem e quanto é, ou seja, a essência abismal do ser divino e da natureza divina, engendra-lo tudo no seu Filho unigênito. Isto é o que o Filho ouve do Pai, isto é o que nos revelou para que sejamos cada um o próprio filho. Tudo quanto o Filho tem, ou seja, o ser e a natureza, temo-lo do seu Pai, para que sejamos cada um o próprio filho unigênito. Por outra parte, ninguém tem o Espírito Santo se não é o filho unigênito. Pois, ali onde se faz espírito ao Espírito Santo, fazem-no espírito o Pai e o Filho; porque isto é essencial e espiritual. Podemos receber, com certeza, os dons do Espírito Santo ou a semelhança com o Espírito Santo; mas não permanece no nosso interior, é instável. Acontece o mesmo quando uma pessoa se ruboriza por vergonha e depois empalidece; é um acidente e passageiro. Mas o homem que é rubicundo e formoso por natureza, sempre continua a sê-lo. Assim também acontece com o homem que é o filho unigênito: o Espírito Santo permanece nele essencialmente. Por isso está escrito no Livro da Sabedoria: “Hoje te engendrai” ao reflexo da minha luz eterna, na plenitude e “na claridade de todos os santos” (Cfr. Salmos 2,7; 109,3). Engendra-o agora e “hoje”. Aí estamos de parto na divindade, aí somos “batizados no Espírito Santo” – “esta é a promessa que lhes fez o Pai”. “Depois destes dias que não são muitos, mas sim poucos”: isto é a “plenitude da divindade” (Cfr. Col. 2, 9) onde não há nem dia nem noite; aquilo que se encontra a uma distância de mil milhas, ali se encontra tão perto de nós como o lugar onde estamos parados agora, ali há plenitude e magnificência de toda a divindade, ali há unidade. A alma, enquanto percebe ainda qualquer diferença, anda mal; enquanto ainda há algo que olha para fora ou para dentro, não há unidade. Maria Madalena procurava a Nosso Senhor no túmulo, procurava um morto e encontrou dois anjos vivos; por isso se sentiu ainda desconsolada. Então disseram os anjos: “De que te preocupas? O que estás a procurar? Um morto e encontras dois vivos”. Então disse ela: “Exatamente isto é o meu desconsolo, que eu encontre a dois e, no entanto, procure a um só”. (Cfr. João 20,11 ss.).

Enquanto ainda é possível que alguma diferença de qualquer coisa criada olhe para o interior da alma, ela sentirá aflição. Dizemos, como já dissemos muitas vezes: Onde a alma tem o seu ser natural criado, ali não há verdade. Dizemos que há algo por cima da natureza criada da alma. Mas, alguns frades não compreendem que possa haver algo tão afim a Deus e tão uno com Ele. Não tem nada em comum com nada. Tudo o criado ou criável não é nada; mas àquilo resulta afastado e estranho toda a índole de criado e criável. É um só em si mesmo que não recebe nada de fora de si mesmo.

Nosso Senhor subiu ao céu por cima de toda a luz e de todo o conhecimento e de toda a compreensão. O homem que é levado assim por cima de toda a luz, mora na eternidade. Por isso diz São Paulo: “Deus mora numa luz à qual não há acesso” (Cfr. 1 Timóteo 6,16), e que é, em si mesma, um puro Uno. Por isso o homem deve estar mortificado e completamente morto e não ser nada em si mesmo, inteiramente despojado de toda a igualdade e já não ser igual a ninguém, então é verdadeiramente igual a Deus. Porque esta é a peculiaridade de Deus e a sua natureza: que é sem par e não igual a ninguém.

Que Deus nos ajude para que sejamos de tal maneira uns na unidade que é o próprio Deus. Amen.