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id da página: 10683 Evangelho de João – Capítulo III

EJ03

EVANGELHO DE JOÃO — CAPÍTULO III



CARREIRA DAS NEVES, Joaquim. Escritos de São João. Lisboa: Universidade Católica, 2004

A pessoa de Nicodemos aparece três vezes em João (3,1.4.9.; 7,50; 19, 39), mas é completamente desconhecida dos Sinópticos. Esta anotação pessoal reforça a tradição histórica do quarto evangelho. Em 7, 5 Nicodemos aconselha o Sinédrio a ter cuidado em não julgar Jesus sem primeiro "o ouvir e averiguar o que ele anda a fazer". Em 19,39 aparece juntamente com José de Arimateia para sepultarem Jesus. Como José de Arimateia é conhecido dos três Sinópticos (Mc 15,43; Mt 27,57; Lc 23, 51), também Nicodemos não é nenhuma invenção da tradição joanica. E os dois são descritos pelo autor de João de maneira semelhante:"Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, mas secretamente por medo das autoridades judaicas... Nicodemos, aquele que antes tinha ido ter com Jesus de noite..." (19,38-39). Trata-se de pessoas importantes entre os judeus, mas levaram tempo a decidirem-se a favor de Jesus.

Regressando ao nosso texto de 3, 1-21, a narrativa pode dividir-se em três subunidades literárias e temáticas:

1) 3,1-8 com o tema do ALTO e com o diálogo entre Jesus e Nicodemos na primeira pessoa ("eu"Jesus) e segunda pessoa ("tu" Nicodemos) do singular, de mistura com a segunda pessoa do plural (v. 7: "Não te admires por eu te ter dito: Vós tendes de nascer do ALTO").

2) 3, 9-15 com o tema da dialéctica entre o Céu e a terra. O autor usa os tempos verbais pronominais ora na segunda ora na terceira pessoa: "Tu és mestre em Israel e não sabes esta coisas? Nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não aceitais. Se vos falei das coisas da terra e não credes, como é que haveis de crer quando vos falar das coisas do Céu? Pois ninguém subiu ao Céu a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem." Esta mudança de tempos verbais e de pronomes pessoais é típico do nosso evangelho e significa que Jesus tanto se dirige à pessoa concreta ("tu") como aos destinatários do mesmo evangelho de todos os tempos, a começar pelos primeiros destinatários.

3) 3,14-21 com o tema central do Filho do Homem, elevado ao alto na Cruz, para que todos os que nele acreditam sejam salvos e tenham a vida eterna. Jesus é chamado "Filho do Homem" e "Filho Unigênito", passando-se da exaltação da Cruz para a escatologia realizada da vida eterna neste mundo, consoante a fé ou não-fé. A fé e consequente escatologia realizada é classificada com a metáfora da LUZ (5 vezes em três versículos, 19-21) e a não-fé e consequente condenação com a das TREVAS.


Depois do sinal de NICODEMOS, o autor apresenta o segundo testemunho de João Batista (3, 22-30), que já estudamos. Em seguida, nos vv. 31-36, deparamo-nos com um dos problemas redacionais do quarto evangelho. A literalidade e conteúdos do texto referem a literalidade e conteúdos do sinal NICODEMOS: "Aquele que vem do ALTO está acima de tudo. Quem é da TERRA... Aquele que vem do CÉU... dá testemunho daquilo que VIU e OUVIU.... dá o ESPÍRITO sem medida. O Pai ama o Filho e tudo põe na sua mão. Quem crê no filho tem a VIDA ETERNA; quem se nega a crer no Filho não verá a VIDA, mas sobre ele pesa a ira de Deus."

Logicamente é João Batista que continua a dar o seu testemunho, mas a letra e o conteúdo teológico correspondem com o Jesus do sinal NICODEMOS.

A única grande novidade, que a distingue do sinal NICODEMOS, consiste no fato do autor, pela primeira vez, depois do prólogo sobre o LOGOS (cf. 1, 14. 18), referir a pessoa do PAI, que em seguida irá apresentar continuamente na sua relação PAI-FILHO e acentuar também o tema da VIDA relacionado com a fé em Jesus.

Nós pensamos que não é nem Jesus nem o Batista, mas o autor a apresentar o seu parecer pessoal, isto é, sem monólogo nem diálogo, mas em primeira pessoa, sobre tudo quanto se disse até agora. Seria uma espécie de resumo doutrinal. Ao longo do evangelho iremos encontrar estas reflexões "pessoais" do autor.


BULTMANN, Rudolf. The gospel of John: a commentary. Philadelphia, PA: Westminister Press, 1971

O capítulo 3 divide-se em duas partes de extensão e importância distintas: 3.1-21, Jesus e Nicodemos; 3.22-30, o testemunho do Batista. Segue-se uma seção que, na ordem atual do texto, ainda pertence ao discurso do Batista, mas que não pode ser compreendida se for considerada como tendo sido proferida por ele. Pelo contrário, os ditos em 3.31-36 pertencem, como demonstrado por seu estilo e tema, ao discurso de Jesus que começa em 3.11. Originalmente, muito provavelmente terão vindo após o versículo 21. A estrutura do capítulo como um todo é então bastante simples. Se por enquanto deixarmos de lado 3.22-30 como um apêndice no qual a martiria do Batista é ouvida novamente após o testemunho do Revelador a si mesmo, então a seção principal divide-se em três subseções, todas relacionadas ao tema da vinda do Revelador como a krisis do mundo: 1) 3.1-8, a vinda do Revelador é explicada pela necessidade do renascimento; 2) 3.9-21, a vinda do Revelador como a krisis do mundo; 3) 3.31-36, o testemunho autoritativo do Revelador.

O capítulo começa com uma cena descrita de forma realista, que, no entanto, nunca é concluída; pois o diálogo entre Jesus e Nicodemos, que começa nesta cena, desemboca num discurso de Jesus que não está relacionado a nenhuma situação particular e no qual, a partir do versículo 13, o Revelador é referido na terceira pessoa. No que concerne ao conteúdo da composição, o elemento primário é o discurso. O mesmo aparece numa análise puramente literária da passagem. Sua estreita relação, tanto em forma quanto em conteúdo, com o Prólogo e com os discursos dos capítulos seguintes mostra que o Evangelista a tirou dos "discursos de revelação" que utiliza como fonte. Isto é, além disso, confirmado pela exegese da passagem que, como no caso do Prólogo, evidencia a diferença entre a fonte e os acréscimos explicativos do Evangelista. Estes são mais extensos aqui (como frequentemente o são posteriormente), de modo que a fonte fornece, por assim dizer, o texto para o sermão do Evangelista. O Evangelista "historiciza" os discursos de revelação ao inseri-los em seu retrato da vida de Jesus. De forma mais primitiva, os Sinóticos também haviam tecido logia independentes de Jesus em seu retrato de sua vida, às vezes usando uma história tradicional como estrutura para tal dito, às vezes compondo um cenário próprio. A mesma técnica, de forma mais desenvolvida, encontra-se em João. Parece provável que ele tenha composto a cena de Nicodemos sozinho, recorrendo assim ao motivo tradicional do diálogo como usado nas escolas, e provavelmente usando também um dito tradicional do Senhor. Nisto, ele foi visivelmente influenciado pela literatura religiosa do helenismo, que também conhece a forma de diálogo contida no livro de revelação. A diferença entre o discurso de 3.1 e seguintes (juntamente com os relacionados discursos de despedida) e os discursos Sinóticos reside não apenas no seu comprimento, mas também no tipo de argumento utilizado. Pois mesmo que estes últimos sejam de fato composições literárias, eles refletem em sua forma e conteúdo as conversas reais do mundo no qual Jesus, os Rabinos e a Igreja primitiva se moviam. Em João, sente-se que se foi transportado para o mundo de C. Herm. 13 e do Logos teleios.

O ambiente noturno e o estilo do diálogo — sobretudo o mal-entendido de Nicodemos e o ouk oidas; do versículo 8 — conferem a toda a passagem um ar de mistério. Além disso, o tema do diálogo é em si mesmo um mistério, que é desenvolvido num sentido triplo como o mistério do renascimento, o mistério do Filho do Homem e o mistério do testemunho. Mas, acima de tudo, um ar de mistério paira sobre toda a passagem, porque Jesus só fala do Revelador na terceira pessoa e nunca se revela por meio de um ego eimi. Seus ditos nos versículos 3, 5 e 11 são de fato introduzidos por amen amen lego soi, o que mostra que ele fala com autoridade, mas mesmo nos versículos 12 e seguintes ele não diz que está falando sobre si mesmo. Igualmente, nos versículos 31-36, permanece obscuro quem é o anothen erchomenos, cujo testemunho está em discussão.



CONVERSA COM NICODEMO

TESTEMUNHO FINAL DE JOÃO BATISTA