Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 10682 Evangelho de João – Capítulo II

EJ02

EVANGELHO DE JOÃO — CAPÍTULO II

CARREIRA DAS NEVES, Joaquim. Escritos de São João. Lisboa: Universidade Católica, 2004

Estamos perante o primeiro sinal-milagre de Jesus no IV evangelho. O texto grego assinala-o desta maneira: tautên epoiêsert archên tôn semeiôn: (“foi este o primeiro sinal que ele fez”). Não se trata de um milagre como poder (dynamis) de Jesus, à maneira dos Sinópticos, mas como “sinal”. Em 4, 54, com a cura do filho do funcionário real, diz o texto que Jesus realizou “novamente o segundo sinal ao ir da Judeia para a Galileia”132. Mas já em 2, 23, a propósito da purificação do Templo, escreve o evangelista: “Enquanto Ele estava em Jerusalém, durante as festas da Páscoa, muitos creram nele ao verem os sinais miraculosos que realizava (ta sêmeia ha epoiei)”.Também em 3,2b, Nicodemos dirige-se a Jesus dizendo:“Rabi, nós sabemos que tu vieste da parte de Deus, como Mestre, porque ninguém pode realizar os sinais que tu fazes... (tauta ta sêmeia poiein há su poies...)”. Semelhantes anacronismos, como vimos, levam alguns exegetas a afirmar que o evangelho primitivo continha apenas alguns sinais-milagres, à maneira dos Sinópticos. Os sete sinais narrados em João misturam-se com muitos outros sinais não narrados como acontece com os milagres narrados nos Sinópticos juntamente com a multidão dos milagres não narrados (Mc 1,32-34; 3,10,6,5.13. 56 e par.).

Descendo, agora, ao interior do sinal-milagre de Caná, é fácil percebermos que se trata de um sinal-milagre diferente de todos os demais de João, porque não apresenta os diálogos e monólogos típicos de 5, 1-17; 6,35-71; 9,1-41 e 11,1-44. A história é simples, mas a carga teológica, no interior desta simplicidade, é enorme, e em tudo de acordo com a teologia e cristologia de João.


DIEL, Paul; SOLOTAREFF, Jeanine. Le symbolisme dans l’Evangile de Jean. Paris: Payot, 1983

O testemunho de João é seguido pelos dois primeiros atos da vida pública de Jesus: o milagre das Bodas de Caná e a intervenção no Templo, de onde ele expulsa os vendedores.

Estes dois fatos marcam o início de sua vida pública e resumem simbolicamente o sentido fundamental da Missão. O milagre de Caná, compreendido ao pé da letra, seria apenas uma vangloria e não teria servido senão para embriagar pessoas que já tinham bebido suficientemente; a intervenção no Templo, literalmente compreendida, seria apenas a loucura de um homem exaltado.

No mito cristão, a imagem do vinho é empregada em sua significação positiva; ele simboliza o sangue, ele mesmo símbolo da alma e de sua expressão específica, o amor pelo essencial. Simbolicamente, a água pode ser espírito positivo, a verdade que flui da fonte, mas ela não estaria então em oposição ao vinho. Em Caná, a água contrastada com o vinho tem, portanto, uma significação negativa; ela é, por oposição ao vinho, de gosto insípido e sem sabor, ela simboliza a platitude do espírito. É, portanto, o espírito banal (a água) que anima os convivas e que vai ser transformado em entusiasmo espiritual (vinho).

Antes de começar sua missão pública, Jesus toma neste círculo íntimo a palavra e desperta o espírito adormecido daqueles que se reuniram para festividades banais.



BODAS DE CANÁ

A PURIFICAÇÃO DO TEMPLO