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Dubant Retorno Espirito

Bernard DubantCarlos Castañeda – O Retorno do Espírito


Bernard Dubant teve o trabalho de sintetizar a obra de Castañeda, apreciando-a sob a ótica tradicionalista. De seus três livros publicados, apresentamos já alguns excertos, e nesta página nos voltamos para o último livro, "O Retorno do Espírito", em sua versão em espanhol realizada por Milagro Revest Mira.

Excertos

O «homem natural»

O homem arquirracionalizado dos tempos modernos tenta justificar-se e fazer apreciar o mundo incongruente ao qual está ligado, falando de progresso, de evolução, de constituição progressiva de um ser maravilhoso, denegrindo o passado e denegrindo-o em razão direta da sua antiguidade. Mas outra memória nos ensina que o homem não fez mais do que degradar-se e que esta decadência é «ontológica» e segue, segundo os hindus entre nós, um processo cíclico.

E essa degradação do homem constitui precisamente a essência do que os evolucionistas — que por outra parte, cantam «logicamente» os seus próprios louvores e o seu próprio medo — exaltam por encima de tudo: a racionalidade, o imperialismo mesmo da razão e do sentimento que lhe é correlativo, a redução do mistério formidável (nos dois sentidos do termo) desta «maravilha», a um «absurdo manipulável».

O homem antigo poderia ser chamado o homem do espírito, e o homem moderno o homem da razão, para quem por outro lado, a «espiritualidade» é um sucedâneo totalmente privado de espírito. Na sua autocontemplação morosa e triunfante, o moderno fustiga a parte «antiga», «reptiliana», que poderia «despertar-se» nele e nos seus semelhantes. Os termos pejorativos de que se vale para manchá-la são uma mostra do seu medo, o medo do desconhecido, do «espírito», de tudo o que está «racionado» pela sua visão mesquinha. Todo conhecimento que não se lhe parece é para ele maldito ou absurdo.

O processo é antigo, mas mais antigo é ainda esse estado do homem cuja «simplicidade» louvaram os Taoístas. E escreve Castaneda, porque o homem esteve durante a maior parte da sua história no estado de «conhecimento silencioso» é por isso que sente nostalgia.1

«Os brujos creem, diz dom Juan, que quando o homem quis ser consciente do que sabia, perdeu-o.» (Ibid.)

A sua consciência reflexiva elaborada interpôs-se entre ele e o seu saber, e, para usar uma expressão gasta, passou do «ser» ao «ter», do imediato ao mediato. Por isso o homem converteu-se num ser de «segunda mão», o que mostra bem a expressão «conhecimento discursivo». É assim como a história antiga vê o nascimento de religiões «humanistas» — culto de Atón no Egito,2 o Confucianismo na China etc. — que se convertem em formas do culto do mundo racional, do mundo do «tonal», do homem isolado, ocupado, a partir de então, em fabricar-se o seu inferno pequeno e medíocre.

«O lado antigo do homem é o conhecimento silencioso.» O homem antigo, isto é o homem natural, conhece diretamente, ou seja como diz dom Juan, «é tudo isso».3 Esse estado, «o estado natural», diz um hindu que voltou a ele, está além, ou melhor, «fora» de toda «experiência». «O teu estado natural não tem a mínima relação com os estados religiosos de felicidade, de beatitude, e de êxtase.» «O estado natural é um estado de não-conhecimento».4 É a isso a que o «benfeitor» de Castaneda chama o conhecimento silencioso. Não é uma eleição no mundo da racionalidade, mas não é tampouco um estado «irracional», não se pode dizer sequer que se trate de um estado «suprarracional». É o estado fundamental do homem, isto é, a sua «natureza», enquanto que o funcionamento do homem no mundo exclusivo da «razão» é um estado «contra natura».

O «estado natural» é o de Shiva, ou melhor Bhairava (fora das representações religiosas), tal como o descreveu o Pratyabhijnahrdayam,5 mas antes do aumento dos tattwas. «Os Antigos estavam num estado de indiferenciação que fazia participar toda a sua época da paz e da renúncia.» (Chuang-Tzu) A representação simbólica do homem antigo dada pelos Taoístas é a do «unípede», isto é o homem a quem não afeta a dualidade, a divisão entre sujeito e objeto, bem e mal aqui e ali, verdadeiro e falso, que não está obcecado pelo «pensamento muito madurado, a compreensão discursiva» — que são, segundo um famoso adepto de Chan, «como uma lâmpada iluminada em pleno dia». (Yen-Kuan Ch'ian)

Sendo sem dualidade, não pode ser criador e vítima do ego, estátua maravilhosamente erigida pelo que Castaneda chama a autocontemplação, que isola definitivamente o ser da totalidade de si mesmo.

É o intelecto (buddhi), que é o substrato do agente do eu (ahamkara), quem engendra, pois esse processo de «individualização» e de «reflexitividade» chegando à constituição de manas, o mental ou sentido interno, a nossa faculdade central e harpagônica de acumular o conhecimento, de transformar a realidade em haveres fictícios, que orienta os sentidos e fixa os seus dados em construções mentais.6

Esta procissão degradante é a despossessão do «paraíso». O homem provido de um «ego» substancializa o mundo ao qual está submetido e gaba-se de ser uma «pessoa», «responsável» com a «consciência» suscetível de melhorar indefinidamente, moral, «religiosa» com ou sem deus reconhecido, quando não é assim mais do que uma caricatura do que foi o homem verdadeiro, «termo que se aplica ao homem cuja alma voltou a tomar contacto com o espírito».7

Assim o «homem primordial», o «homem natural» é impessoal, por muito escandaloso que nos pareça, a nós «humanistas», tão possuídos de nós mesmos, tão «personalistas» e «pessoais». Não está no entanto «desprovido de pensamento», mas «no estado natural, o pensamento deixa de oprimir-vos, volta ao seu ritmo natural. Já não existe «vós» para enlaçar os pensamentos e tomá-los por «vossos».8

«Não é um estado que se preste aos discursos e aos louvores»;9 é simplesmente um estado misterioso, já que não há ponto de referência para dar conta dele. «Nós participamos do misterioso. A racionalidade não é mais do que um verniz que temos.»10

Esse estado — horresco referens — é o do homem que alcançou «o sítio onde não há compaixão». Não é um não-lugar ou um estado de espírito «impiedosos», «cruéis», mas um estado interior que exclui a «comiseração de si mesmo», isto é o «narcisismo», o «culto do eu», a compaixão universal que não é mais do que a extensão da compaixão pessoal, ou seja do «eu» e todos os atributos que suscita para defender-se do desconhecido — o autêntico — que é ao «conhecido» o que o «selvagem» é ao «domesticado».

Esta «reintegração» não é um ato «moral» ou «imoral», é um ato de bruxaria. Por trás do «verniz» da racionalidade e dos sentimentos correlativos, encontra-se esse estado «antigo». Carlos Castaneda fala da experiência que teve com o seu «benfeitor». Este, «espreitando-o» de forma irrepreensível, desdobra as «condições» que permitem ao seu «discípulo» alcançar esse lugar «onde não há compaixão» (ou melhor destruiu as condições que o mantinham no estado contrário).

Castaneda conta que sentia «duas partes nele»: «uma muito velha, tranquila, indiferente — pesada11 obscura, conectada com tudo o demais — a outra leve, aturdida, agitada, que se ama — insegura, superficial, esponjosa».12 É com esta segunda «parte», o lote do «homem moderno», do humanista, com a que Castaneda considera as novas terras agrícolas, aprecia os «esforços do homem», lamenta que o deserto de Sonora esteja tão deteriorado, enquanto que a parte antiga é de uma indiferença titânica, ofídia, e está precisamente «ligada a tudo». Esse estado está literalmente fora do bem e do mal, as duas posições da razão palpitante, afetuosa, imperialista, déspota, bufonesca, quejumbrosa, humanista em suma. Não se trata naturalmente de algo que compete à «moral», já que esta é precisamente o código de tirania do «eu» social, do «ego» subtraído do universo. Esse «estado implacável» é evocado pela «imprecisão primordial», o «não atuar» dos Antigos que «cultivaram o Tao» — que foi arruinado pelos que quiseram influir nos homens».13 A indiferença não é a apatia. O acordo faz-se automaticamente com o que rodeia o homem, porque este não cortou esse laço que lhe permite ser todas as coisas, viver no lado «silencioso», abstrato, ao sopro do espírito.

O homem natural é ofídio, isto é titânico. O conhecimento otimista e racional, a preocupação de si mesmo e as suas duas expressões, o egoísmo e o altruísmo, erigiram deuses para honrar-se e salvaguardar-se. Desta maneira os cultos antropomórficos relegaram na sombra, «sob terra», o «estado mágico» e primordial do homem. As religiões moralizantes e o seu subproduto exagerado, o humanismo, foram e são a redução do homem à porção congruente da sua razão, esse homem caprichoso, egoísta, imbuído do seu grotesco saber indireto, da representação que ele mesmo se forjou de si mesmo, sempre no brando leito enlouquecido pelo «desconhecido».

«Quando o ponto de encaixe alcança o sítio onde não há compaixão a posição da racionalidade e da sensatez debilita-se.» 14 «O sítio onde não há compaixão» é uma posição da percepção, que indica que o que se encontra ali liberou-se da sua prisão.


NOTAS:
1 O Conhecimento Silencioso.
2 Jean Robin, Seth, o Deus maldito (Ed. Guy Trédaniel).
3 Cf. Relatos de Poder.
4 U. G., Charlas com un iluminado contestatario (Ed. Sirio). As siglas U. G. correspondem ao autor Upalari Gopala Krishnamurti.
5 Ed. Guy Trénadiel.
6 Cf. Lilian Silburn, Vijñana Bhairava (Ed. Boccard).
7 Martin Lings, Creencias antiguas y supersticiones modernas (Pardes). René Guénon falou sobretudo em Reino de la Cantidad y Signos de los tiempos, da «solidificação» progressiva do homem e do mundo, que passa do polo essencial ao polo substancial ou quantitativo num processo catafático. Trata-se com efeito de uma mudança total ontológica ou espiritual do homem.
8 U.G., Op.cit.
9 Ibid. «Os que estão no estado natural estão endurecidos, indiferentes, não afetados.»
10 O Conhecimento Silencioso.
11 Guru significa «pesado». O guru autêntico está no estado «antigo» do elefante Ganesha, simbolicamente idêntico à suástica.
12 O Conhecimento Silencioso.
13 Chuang Tzu, Obras completas (Gallimard).
14 O Conhecimento Silencioso.