DEUTSCH, E. Qu’est-ce que l’Advaita vedānta ? S. Girard. Paris: Les Deux Océans, 1980
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Brahman e o Mundo: A Questão Fundamental da Relação entre o Absoluto e o Universo Fenomênico
- Formulação da questão central sobre a relação entre Brahman, o Absoluto, e o mundo, conforme abordada nas Upanisads e no Vedanta clássico.
- Menção às diversas respostas fornecidas pelas Upanisads, muitas seguindo um modelo de emanação do tipo Samkhya.
- Afirmação upanisádica da não dualidade: "Brahman é um, sem segundo", onde todas as distinções são transcendidas.
- Explicação de que o Advaita Vedanta, particularmente em Shankara, aborda a relação utilizando as noções de satkaryavada e vivartavada.
- Identificação das três noções fundamentais que fundamentam a explicação: maya (ilusão), avidya (ignorância) e adhyasa (sobreposição).
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A Experiência da Não Dualidade e a Natureza da Maya
- Descrição da experiência imediata e intuitiva do Brahman como saccidananda: plenitude do ser, consciência autoiluminante e bem-aventurança infinita.
- Caracterização do estado de nirvikalpa samadhi, onde o mundo complexo desaparece e apenas o Brahman é percebido como verdadeiramente real.
- Conclusão de que a percepção de um mundo independente e substancial deve fundamentar-se em um erro, definido como maya.
- Definição de maya como a característica de toda experiência que decorre da distinção entre sujeito e objeto, entre o eu e o não-eu.
- Associação de maya com a transformação do impessoal em pessoal e com a imposição de limitações (upadhis) à Realidade.
- Atribuição a maya de todos os apegos, aversões, medos, cognições e enunciados lógicos que falham em realizar a unicidade do Real.
- Caracterização de maya como sem início (anadi), inconcebível (acintya) e indescritível (anirvacaniya), sendo o próprio nível da Aparência.
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As Duas Perspectivas da Análise Advaita: Metafísica e Epistemológica
- Explicação do método do Advaita Vedanta de tratar os problemas tanto em termos metafísicos quanto epistemológicos, usando essas perspectivas como corretivas mútuas.
- Finalidade soteriológica da análise: conduzir a mente do nível da Aparência para o nível do Real, realizando o Brahman.
- Compreensão de que questões como a criação só surgem do ponto de vista da consciência racional e empírica, dentro da Aparência.
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Maya como Poder Metafísico e como Ignorância Epistemológica
- Definição metafísica de maya como o poder (shakti) do Brahman pelo qual o mundo da multiplicidade vem a existir.
- Uso da analogia do prestidigitador para ilustrar a transição para a perspectiva epistemológica: o Brahman, como o mágico, cria ilusões que não o afetam.
- Definição epistemológica de maya como ignorância (avidya), com seu duplo poder de ocultar a Realidade (avarana shakti) e de distorcê-la (vikshepa shakti).
- Caracterização positiva da maya como produtora de uma ilusão (bhava rupam ajnanam), e não apenas como uma negação.
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O Estatuto do Mundo Fenomênico: Nem Real nem Irreal
- Afirmação de que o mundo fenomenal é maya, mas não um mero produto da imaginação subjetiva.
- Citação de Shankara para sustentar a percepção de entidades externas: "não pode haver nenhuma não-existência (de entidades externas), pois as entidades externas são verdadeiramente percebidas".
- Definição de "real" como aquilo que é permanente, eterno, infinito e nunca subjugado por outra experiência (trikalabadhyam), qualidades que pertencem apenas ao Brahman.
- Conclusão de que o mundo não é real (sat), mas também não é totalmente irreal (asat), possuindo uma realidade aparente ou prática (vyavaharika).
- Definição do mundo como sadasadvilaksana (outro que o real e o não-real) ou anirvacaniya (indescritível).
- Esclarecimento de que o mundo só é uma ilusão do ponto de vista da experiência do Absoluto, mantendo sua realidade empírica do ponto de vista relativo.
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Avidya e o Mecanismo da Adhyasa (Sobreposição)
- Equiparação dos termos maya e avidya nos escritos de Shankara e dos Advaitins posteriores, com predominância de avidya para explicar a alienação.
- Definição de adhyasa por Shankara como "a apresentação, por meio da memória, de algo previamente percebido sob a forma de outra coisa".
- Explicação de adhyasa como a suposição não real dos atributos de uma coisa como sendo os atributos de outra coisa, ilustrada pelo exemplo clássico da corda e da serpente.
- Aplicação primordial da adhyasa ao eu: a sobreposição recíproca do Ser (Atman) e do não-ser.
- Citação de Vidyarana no Panchadasi: "a sobreposição ao Ser daquilo que não existe realmente" é o obstáculo ao autorreconhecimento.
- Exemplo de sobreposição causal: atribuir causalidade ao Brahman e características do Brahman a Isvara, o Criador.
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Isvara como Causa do Mundo na Perspectiva Fenomênica
- Definição de Isvara como Brahman dotado de atributos, considerado a causa do mundo enquanto se está sob o domínio de maya e avidya.
- Identificação de uma aplicação específica da avidya: a sobreposição de uma atividade ao Brahman e dos efeitos às causas.
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As Teorias do Satkaryavada e do Vivartavada
- Apresentação da resposta advaita à questão da relação Brahman-mundo, baseada em duas teorias interligadas: satkaryavada e vivartavada.
- Definição de satkaryavada como a teoria de que o efeito preexiste na causa.
- Definição de vivartavada como a teoria de que o efeito é apenas uma manifestação aparente da causa.
- Comparação com outras escolas: o parinamavada do Samkhya (transformação real) e o asatkaryavada de outras correntes (o efeito é independente).
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Argumentos de Shankara a Favor do Satkaryavada
- Argumento baseado na percepção: a não-diferenciação entre causa e efeito é por vezes diretamente percebida, como no caso do tecido e dos fios.
- Argumento baseado na experiência prática: a produção específica de efeitos a partir de causas específicas indica que o efeito preexiste na causa.
- Argumento da regressão ao infinito (anavastha) contra o asatkaryavada: a necessidade de postular relações infinitas entre entidades independentes.
- Argumento baseado na mudança de forma: uma substância permanece a mesma mesmo com mudanças em sua aparência externa, como no exemplo de Devadatta em diferentes posições.
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A Necessidade Prática de Isvara e o Conceito de Lila
- Interpretação do alcance prático dos argumentos do satkaryavada: estabelecer um fundamento espiritual para a experiência e um ideal para a ação.
- Afirmação de Isvara como causa material e eficiente do mundo do ponto de vista fenomênico.
- Citação de Shankara: "aqueles que refletem sobre a criação pensam que a criação é o desdobramento de Isvara".
- Caracterização da atividade criadora de Isvara como lila (jogo), um transbordamento espontâneo de energia por puro prazer, sem propósito ou motivo.
- Explicação de que lila isenta Isvara de qualquer responsabilidade pelo mal ou por consequências morais, tornando a questão do "porquê" da criação sem sentido.
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A Afirmação Final do Vivartavada como Não Transformação Real
- Caracterização do satkaryavada e da atividade de Isvara como verdades apenas no plano fenomênico, negadas na experiência do Brahman.
- Distinção crucial entre o parinamavada do Samkhya (transformação real) e o vivartavada do Advaita (manifestação aparente).
- Ilustração com o exemplo da lua que parece múltipla para um olho com visão dupla, sem se tornar realmente múltipla.
- Fundamentação de que apenas o Brahman é Real, portanto, um "efeito" é apenas uma designação verbal.
- Citação que resume a posição: "Brahman parece ser suscetível de todo comportamento fenomênico... enquanto que em sua verdadeira natureza, Brahman existe apenas em seu aspecto não modificado".
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Síntese da Posição Advaita sobre a Criação
- Conclusão de que a criação é apenas uma verdade aparente (vivartavada).
- Reafirmação da dupla afirmação do mundo: como realidade empírica e como "efeito" de Brahman, ambas com valor prático para despertar a mente para o Real.
- Explicação da função do vivartavada: conduzir a mente, através da negação (apavada), à subjugação do mundo pelo Brahman, onde todas as questões de relação se dissolvem.
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Avaliação da Análise Advaita: Validade e Fecundidade Filosófica
- Condição para reconhecer o problema como legítimo: afirmar o Brahman ou aceitar a possibilidade de uma experiência espiritual de não dualidade.
- Defesa da doutrina da maya como a colocação ontologicamente correta do mundo diante da afirmação do Brahman.
- Reconhecimento da indescritibilidade última do mundo, só inteligível através da categoria epistemológica da avidya.
- Elogio à caracterização geral do processo de adhyasa como convincente e passível de verificação prática.
- Avaliação do vivartavada como mais convincente que o satkaryavada, criticando a noção racionalista de causalidade implícita no debate.
- Discussão sobre o recurso a Isvara, considerado teoricamente problemático, mas justificado como conteúdo de experiência ou condição necessária para a experiência espiritual.
- Elogio ao conceito de lila por evitar o dualismo insolúvel da teologia ocidental, subordinando tanto Isvara quanto o mundo ao domínio de maya.
- Defesa do ensino final sobre a causalidade: nenhuma relação causal pode ser estabelecida entre níveis de ser diferentes, como Brahman e mundo.
- Conclusão de que o vivartavada constitui a resposta correta, garantindo a não dualidade e mostrando como fazer da aparência do mundo matéria de experiência, privilegiando o amor à sabedoria sobre a satisfação intelectual estrita.