Excertos de seu livro "João Batista"
Por outro lado, nesse momento começou Jesus seu ministério: "Depois disso, Jesus foi com seus discípulos ao país da Judeia, onde se deteve com eles, pondo-se a batizar" (3,22). Portanto, justapõem-se o ministério de João e o de Jesus; e, o que é mais, na mesma região: às margens do Jordão. Isso é a expressão dessas transições que encontramos, por vezes, na história da salvação. Assim, os Apóstolos continuarão a ir adorar no templo de Jerusalém, quando já existe o Templo da nova Aliança, a comunidade cristã. A era anterior da história da salvação se prolonga, quando já está inaugurada a era ulterior. Mas se compreende que essa situação tenha apresentado problemas, como vemos no texto seguinte, em que os discípulos de João vêm a ele, dizendo-lhe: "Rabbi, aquele que estava contigo do outro lado do Jordão, aquele a quem deste testemunho, ei-lo que batiza e toda a gente vai a ele" (3,26).
Mas essa parte da vida de João Batista é, também, um período de provação, em que sua santidade se aprofunda e fortalece. O amor, diz o Cântico dos cânticos, "é forte como a morte, duro como o inferno", mas só se torna de todo firme depois de ter sido provado; então é que ele se enraíza profundamente. A provação do amor de João Batista é relatada num texto, de todo ponto de vista surpreendente. É desconcertante por seu conteúdo. É enigmático em sua expressão. Faz alusão a um conjunto de coisas difíceis de compreender e cujo fundo incontestável nós pressentimos.
Eis o texto: "João, que soubera, na prisão, o que fazia o Messias, enviou-lhe alguns de seus discípulos para lhe dizer: És tu aquele que deve vir ou devemos esperar por outro? Jesus lhes responde: Ide dizer a João o que ouvis e vedes: os cegos recobram a vista, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres; feliz aquele que não cair por minha causa. Como se fossem, Jesus pôs-se a dizer ao povo a respeito de João: Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver? Um homem de vestes suntuosas? Mas aqueles que trazem vestes suntuosas estão nas casas dos reis. Então, por que fostes lá? Para ver um profeta? Sim, digo-vos, e mais que um profeta. É aquele de quem está escrito: Eis que envio meu mensageiro diante de ti para preparar o caminho à tua frente. Em verdade, vos digo, entre os filhos de mulher, não surgiu maior do que João Batista, mas o último no Reino dos Céus é maior do que ele. Desde o tempo de João Batista até hoje, o Reino dos Céus é objeto de violência ; são os violentos que o arrebatam. Pois todos os profetas e a Lei, até João, o anunciaram. E se quereis compreendê-lo, ele é Elias que devia vir. Que aquele que tem ouvidos ouça!
"A quem vou comparar a geração presente? Ela é semelhante a crianças que ficam nas praças gritando a seus companheiros: Tocamos flauta e não dançastes! Cantamos uma lamentação e não batestes no peito! De fato, veio João, que não comia nem bebia e dizem: é um possesso. Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: é glutão e ébrio, amigo dos publicanos e dos pecadores. Mas a Sabedoria se justificou por suas obras" (Mt 11,2-19).
Já utilizamos elementos desse texto, particularmente o paralelismo estabelecido por Jesus entre João e ele. Não voltaremos a isso. Mas, por outro lado, contém esse texto três coisas surpreendentes. A primeira é a pergunta de João, pela qual parece ele, depois de haver sido precursor e testemunha, tudo examinar novamente: "És tu aquele que deve vir?" Encontramo-nos em presença de uma dessas passagens cuja autenticidade histórica se mostra segura, porque é, à primeira vista, incômoda: com efeito, parece dar a entender que João atravessa uma crise de dúvida com relação a Jesus. Há, em seguida, o testemunho extraordinário que Jesus presta sobre João. Sem entrar em minúcias na comparação de que já falamos, temos de destacar a amplitude desse testemunho. Enfim, veremos a parte final a respeito das crianças que cantam sem que seus companheiros dancem, que choram sem que seus companheiros chorem, e que justificam a Sabedoria. Passagem misteriosa que nos dá, novamente, aspectos essenciais da significação de João Batista.