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id da página: 5203 Daniélou Batista

Daniélou Batista

Jean Daniélou — João Batista

Excertos de seu livro "João Batista"

A vocação de João não se situa num dos marcos do Antigo Testamento, como a de seus predecessores; situa-se no ponto de junção entre o Antigo e o Novo Testamento. Isso se mostra de modo frisante no Evangelho de S. Lucas. Quando Zacarias, pai de João, sacerdote da classe de Abias, estava no Hekal, o Santo, à hora da oração, para aí oferecer o incenso, "o anjo do Senhor lhe apareceu de pé à direita do altar do incenso" (Lc 1,11). É, pois, no quadro da liturgia do Templo, desse Templo onde habitava o Deus vivo, mas que prefigurava um outro Templo, que se situa o anúncio da vocação de João. Mas, com Jesus, o Templo novo será inaugurado e a Presença desertará do Templo prefigurativo. O anjo que o guardava o abandonará, como nos diz S. Hilário.1 E é no Templo celeste que ele oferecerá não mais o incenso figurativo, mas o verdadeiro incenso: a oração dos santos (Apoc 8,3).

Procuramos situar João Batista em sua ordem própria, neste limiar misterioso que separa e une os dois Testamentos, neste momento único da história da salvação. Dissemos como o conteúdo dessa vocação própria era de ser a derradeira preparação ao acontecimento escatológico, definitivo, da vinda do Verbo de Deus. Esse acontecimento escatológico era frequentemente designado no Antigo Testamento pelo nome de "visita" do Senhor. João deve dispor os corações a acolher esta visita, depois de ele próprio haver sido visitado por Aquele que ele deve preparar. Por uma reciprocidade misteriosa, é ele preparado a cumprir essa missão por Aquele cuja vinda ele prepara.

Tudo que o Evangelho nos diz sobre a vida de João Batista, entre seu nascimento e sua missão, está contido num versículo de S. Lucas: "O menino crescia e se fortalecia em espírito. E permaneceu no deserto até o dia de sua manifestação" (1,80). Desse versículo, vamos reter, em primeiro lugar, a afirmação do crescimento de João. Essa afirmação é tão genérica que, à primeira vista, pareceria nada se poder dela tirar. Qual a criança de quem não se poderia dizer o mesmo? Mas, justamente, esse crescimento não é um crescimento qualquer. É o crescimento de uma criança judia que vivia num tempo em que o judaísmo apresentava uma situação única.

Já mostramos, no primeiro capítulo, que a vocação de João Batista representa o próprio tipo da vocação, no sentido bíblico da palavra. Agora perguntaremos qual é o conteúdo dessa vocação. A liturgia do segundo domingo do Advento mostra-nos João no tempo que precede imediatamente o Natal. Já o Evangelho faz, de sua história, como que uma introdução à história de Cristo. A vocação de João está, pois, intimamente ligada à vinda do Verbo, a seu Advento. Ela consiste inteiramente em predizê-la, precedê-la, prepará-la. E se a vinda do Verbo continua em todo o tempo da Igreja, se ele é sempre "Aquele que vem", vê-se como a vocação de João permanece sempre uma vocação atual.

A vocação e a preparação de João Batista constituem um primeiro período de sua história, o de sua vida oculta. O segundo é o da realização de sua missão. Durará apenas alguns meses, mas a ele é que tudo que precedeu se ordenara. Já o dissemos, jamais um homem se identificou tanto com a sua missão como João. É a esta missão que é chamado desde antes do nascimento; para ela é que foi preparado na infância e na adolescência. A ela é que se vai dar inteiramente, durante o breve período ocupado por sua mensagem e que é o da preparação imediata à vinda do Senhor. Em seguida, ele de novo mergulha no silêncio, depois de haver anunciado a palavra que lhe fora confiada.

A missão de João Batista, sua função própria na história da salvação, compreende, antes de tudo, dois momentos maiores. De um lado, ele anuncia a iminência da Parusia e constitui, pelo batismo que dá, a comunidade daqueles que para ela se preparam; de outro lado, dá testemunho de que a Parusia, agora, já chegou, designando Jesus como aquele sobre quem desceu o Espírito no Jordão. Esse duplo aspecto de sua missão mostra-o como aquele que pertence, ao mesmo tempo, ao mundo anterior e ao mundo posterior à Parusia, como a conjunção das duas etapas essenciais da história da salvação.

O gesto pelo qual João batiza Jesus no Jordão assinala o momento supremo de sua missão de precursor. Fazendo-se batizar por João, Jesus dá testemunho dele e reconhece o caráter divino de sua missão. Mas esse gesto assinala também o termo dessa missão: com efeito, é imediatamente seguido da teofania em que a voz do Pai e a descida do Espírito vão designar, em Jesus, aquele de quem João era o precursor. Desde então, João já não tem de anunciar aquele que virá, mas de testemunhar aquele que veio. De profeta, ele se torna testemunha.

O batismo de Jesus e a teofania que o segue são o marco da vida de João. Assinala, ao mesmo tempo, o inicio de uma nova idade da história da salvação. Até então, foi João o profeta daquele que veio. Dando ele próprio testemunho de Jesus, exprimirá essa misteriosa mudança num texto significativo: "Eis aquele do qual eu disse: o, que vem depois de mim passou antes de mim, porque era antes de mim" (Jo 1,15). Deveremos voltar a este último membro de frase. Mas devemos primeiramente precisar esse novo aspecto da missão de João.

No capítulo precedente, vimos João Batista reconhecer, em Jesus, a vinda de Deus, que fora anunciada pelos profetas e que ele tivera missão de preparar. Pareceria que, a partir deste momento, tudo deva ser mudado. Esperaríamos ver João Batista cessar de cumprir sua missão de preparação e tornar-se o discípulo de Jesus. Ora, não é o que verificamos. O Evangelho de João, o único que nos informa sobre o período da vida do Batista que segue imediatamente à teofania do Jordão, no-lo mostra, pelo contrário, cumprindo seu ministério como se nada houvesse mudado: "João batizava em Enon, perto de Salim, porque lá havia muita água e as pessoas se apresentavam para se fazerem batizar" (Jo 3,23). Não só João não interrompe seu ministério, mas se desloca de Betânia a Enon para aí encontrar mais água.


Por outro lado, nesse momento começou Jesus seu ministério: "Depois disso, Jesus foi com seus discípulos ao país da Judeia, onde se deteve com eles, pondo-se a batizar" (3,22). Portanto, justapõem-se o ministério de João e o de Jesus; e, o que é mais, na mesma região: às margens do Jordão. Isso é a expressão dessas transições que encontramos, por vezes, na história da salvação. Assim, os Apóstolos continuarão a ir adorar no templo de Jerusalém, quando já existe o Templo da nova Aliança, a comunidade cristã. A era anterior da história da salvação se prolonga, quando já está inaugurada a era ulterior. Mas se compreende que essa situação tenha apresentado problemas, como vemos no texto seguinte, em que os discípulos de João vêm a ele, dizendo-lhe: "Rabbi, aquele que estava contigo do outro lado do Jordão, aquele a quem deste testemunho, ei-lo que batiza e toda a gente vai a ele" (3,26).

A resposta de João — um dos mais belos textos da teologia do Batista — nos introduzirá na significação dessa nova época de sua existência, onde ele mergulha pouco a pouco na obscuridade à medida que a luz de Jesus brilha com maior fulgor. Mas nós nos devemos demorar, primeiramente, num traço que parece estranho à primeira vista: Jesus nos é apresentado como batizando. Qual o sentido desse batismo dado por Jesus nesse momento, e que relação tem com o batismo de João? Depois de havermos respondido a essa pergunta, examinaremos o comportamento de João com relação à atitude de Jesus.

A última parte da vida de João Batista é a em que ele mergulha progressivamente na obscuridade e se apaga diante de Cristo. Já dissemos, a respeito do texto admirável: "Aquele que tem a esposa é o esposo, mas o amigo do esposo se alegra porque ouve a voz do esposo; é preciso que ele cresça e que eu diminua", — que tínhamos aí o eco de uma experiência espiritual quase mística. No momento em que sua influência desaparece, em que ele declina no plano aparente, João Batista é introduzido misteriosa e interiormente numa união de amor incomparável com Cristo. O que lhe toca a alma e sacia o coração é ver cumprido o que ele tinha missão de preparar, as núpcias do Verbo com a humanidade. "Aquele que tem a esposa é o esposo". Só a isso aspirava João Batista. Ele, agora, o vê realizar-se, já que os homens se voltam para Jesus. O fato, para ele, de cair no esquecimento nada é ao lado da exultação de sua alma contemplando a realização do mistério.


Mas essa parte da vida de João Batista é, também, um período de provação, em que sua santidade se aprofunda e fortalece. O amor, diz o Cântico dos cânticos, "é forte como a morte, duro como o inferno", mas só se torna de todo firme depois de ter sido provado; então é que ele se enraíza profundamente. A provação do amor de João Batista é relatada num texto, de todo ponto de vista surpreendente. É desconcertante por seu conteúdo. É enigmático em sua expressão. Faz alusão a um conjunto de coisas difíceis de compreender e cujo fundo incontestável nós pressentimos.

Eis o texto: "João, que soubera, na prisão, o que fazia o Messias, enviou-lhe alguns de seus discípulos para lhe dizer: És tu aquele que deve vir ou devemos esperar por outro? Jesus lhes responde: Ide dizer a João o que ouvis e vedes: os cegos recobram a vista, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres; feliz aquele que não cair por minha causa. Como se fossem, Jesus pôs-se a dizer ao povo a respeito de João: Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver? Um homem de vestes suntuosas? Mas aqueles que trazem vestes suntuosas estão nas casas dos reis. Então, por que fostes lá? Para ver um profeta? Sim, digo-vos, e mais que um profeta. É aquele de quem está escrito: Eis que envio meu mensageiro diante de ti para preparar o caminho à tua frente. Em verdade, vos digo, entre os filhos de mulher, não surgiu maior do que João Batista, mas o último no Reino dos Céus é maior do que ele. Desde o tempo de João Batista até hoje, o Reino dos Céus é objeto de violência ; são os violentos que o arrebatam. Pois todos os profetas e a Lei, até João, o anunciaram. E se quereis compreendê-lo, ele é Elias que devia vir. Que aquele que tem ouvidos ouça!

"A quem vou comparar a geração presente? Ela é semelhante a crianças que ficam nas praças gritando a seus companheiros: Tocamos flauta e não dançastes! Cantamos uma lamentação e não batestes no peito! De fato, veio João, que não comia nem bebia e dizem: é um possesso. Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: é glutão e ébrio, amigo dos publicanos e dos pecadores. Mas a Sabedoria se justificou por suas obras" (Mt 11,2-19).

Já utilizamos elementos desse texto, particularmente o paralelismo estabelecido por Jesus entre João e ele. Não voltaremos a isso. Mas, por outro lado, contém esse texto três coisas surpreendentes. A primeira é a pergunta de João, pela qual parece ele, depois de haver sido precursor e testemunha, tudo examinar novamente: "És tu aquele que deve vir?" Encontramo-nos em presença de uma dessas passagens cuja autenticidade histórica se mostra segura, porque é, à primeira vista, incômoda: com efeito, parece dar a entender que João atravessa uma crise de dúvida com relação a Jesus. Há, em seguida, o testemunho extraordinário que Jesus presta sobre João. Sem entrar em minúcias na comparação de que já falamos, temos de destacar a amplitude desse testemunho. Enfim, veremos a parte final a respeito das crianças que cantam sem que seus companheiros dancem, que choram sem que seus companheiros chorem, e que justificam a Sabedoria. Passagem misteriosa que nos dá, novamente, aspectos essenciais da significação de João Batista.

Dissemos que João Batista fora precursor e, depois, testemunha de Cristo. Uma última glória lhe pertence, a de mártir. Por um privilégio especial, o ano litúrgico faz, dele, duas menções. Celebra sua natividade, a 24 de junho, e seu martírio, a 29 de agosto. É citado na liturgia da missa, ao Nobis quoque peccatoribus, no início da lista dos mártires, antes de Estêvão e Inácio, antes de Cecília e Inês. O hino de Laudes de 24 de junho lhe reconhece a tríplice coroa de profeta, de virgem e de mártir. Sua morte, assim, sela, por um supremo ato de amor, o testemunho de toda a sua vida. Nisso, ela própria é o supremo testemunho, o martyrion.