VIDE
Raymond Christinger
O simbolismo da cruz latina destaca-se ainda melhor quando outros cruzamentos transversais lhe são acrescentados, como aparece na cruz papal e na cruz eslava.
Essas duas cruzes têm em comum o fato de comportar três travessas, cortando o eixo vertical em quatro seções. Nos dois casos, a travessa do meio é mais longa que as duas outras. O que diferencia uma da outra é que as travessas da cruz papal são horizontais, enquanto que a cruz eslava possui duas travessas horizontais e uma oblíqua, esta ocupando sempre uma posição inferior.
Não se têm dados que permitam explicar a origem desses cruzamentos suplementares. Todavia, se refletirmos neles, perceberemos que, se a travessa intermediária, mais longa, corresponde à trave na qual foram pregadas as mãos do Salvador, a travessa superior deve ter tido por origem o letreiro que trazia o motivo da condenação, não sendo outra coisa a travessa inferior além do suporte dos pés do supliciado.
Isso não tem, aliás, grande importância do ponto de vista simbólico. O que convém reter acima de tudo é que a cruz de várias travessas destaca melhor os diferentes planos que percorre nos dois sentidos, de alto a baixo e de baixo para o alto, a atividade salvadora do Mediador.
A esse respeito, encontramos grandes arroubos de São Paulo nas Epístolas do Cativeiro: o Cristo, de condição divina, humilhou-se até assumir a natureza de escravo e foi em sua humilhação até a morte, a morte na cruz. Havendo assim descido até as regiões inferiores da terra, subiu muito além dos poderes celestes para reencontrar o seio de Deus. Se colocarmos esses textos paralelamente ao simbolismo da cruz de várias travessas, poderemos reconhecer facilmente, na parte inferior destas, as regiões inferiores da terra; na segunda seção, o plano terrestre e humano; na terceira seção, os planos celestes, onde residem os Reinos e as Potestades, os Tronos e as Dominações; enfim, na parte superior da haste, que se perde no infinito do espaço, a "Luz inacessível", onde reside o Inexprimível.