2) É panteísta a apocatástase origeneana? Supõe ela que a união final das criaturas espirituais com Deus e entre elas ocorrerá pela dissolução de suas "hipóstase", quer dizer, de suas substâncias ou personalidades ? Poderíamos invocar de novo a esse respeito os textos que acabamos de citar acerca de que os ressuscitados já não conhecerão a morte. Orígenes expressa frequentemente a união do fiel com Deus por 1 Cor 6, 17: "Aquele que se une ao Senhor é um só espírito com ele", réplica de Gen 2, 24, citada anteriormente no mesmo versículo: "Serão dois em uma só carne". Entre o fiel e o Senhor, como entre o marido e a esposa, tem às vezes união e dualidade. De modo semelhante define Orígenes o conhecimento, tanto o de Deus quanto o das realidades divinas — único que lhe interessa — , mediante Gen 4, 1: "Adão conheceu Eva sua esposa", designando conhecimento pela união de amor. Podemos evocar também a famosa imagem empregada por ele para expressar a união da alma pré-existente de Jesus com o Verbo, a do ferro que, submergido no fogo, se torna fogo, o ferro se torna fogo no sentido de que aquele que o toca se queima, mas, entretanto, segue sendo ferro, de modo que a imagem expressa por sua vez a dualidade e a unidade. Não há aqui sombra de panteísmo.
No tocante à união com Deus e com Cristo, que será a da vida bem-aventurada, citemos dois textos entre outros. O primeiro é o do Comentário a João:
Em outros termos, todos os bem-aventurados, tornados em certo modo interiores ao Filho único, conheceriam ao Pai como o conhece agora só o Filho. Um texto equivalente, mas que fala não de um único Filho, mas sim de um único Sol a partir de Mt 13, 43, se encontra no Comentário sobre Mateus. Depois da ressurreição, os bem-aventurados brilharão "até que todos cheguem ao estado de homem perfeito e se tornem um único sol. Então brilharão como o sol no reino de seu Pai." Posto que para Orígenes, Sol de Justiça é uma das denominações (épinioai) luminosas aplicadas ao Filho, tornar-se um único sol é também tornar-se um único Filho no Filho único. Mas, faz Orígenes de dita unidade de todos os homens entre si no Filho único uma representação panteísta? Isto estaria em oposição com a crítica que o mesmo Orígenes faz do panteísmo estoico em Contra Celso. Para os filósofos do Pórtico a história do mundo se compunha de uma sucessão de ciclos com duas fases. Na primeira a diakósmesis, quer dizer, a organização do mundo, este vai saindo de um fogo divino, em Deus representado em forma material; na segunda, a ekpyrôsis, a conflagração, o incêndio, o mundo é pouco a pouco reabsorvido no fogo divino. Orígenes julga assim esta segunda fase:
Frente ao panteísmo materialista dos estoicos, que reabsorve todas as criaturas em Deus e, em consequência, não crê na imortalidade da alma, mas sim somente em uma "sobrevivência" — Orígenes a designa pelos termos de diamonè ou épidiamonè — que dura só até a conflagração seguinte, Orígenes afirma com clareza que a união com Deus não poderia suprimir as pessoas humanas nem as angélicas. Mais adiante, no mesmo livro, opõe novamente a conflagração estoica e a bem-aventurança cristã, mostrando que esta última é, certamente, a obra do Logos divino, mas que ela tem que ser necessariamente recebida e aceita pela liberdade humana:
A liberdade do homem é um elemento essencial do caminho que conduz à apocatástase e veremos que também isto há de ser tomado em consideração. Em todo caso, estes dois textos que opõem a restauração final segundo o cristianismo à conflagração estoica excluem da primeira todo panteísmo.