BERARD, Bruno; CIDERON, Annie. Metaphysique pour tous. Entretiens avec Bruno Berard. Paris: Editions L’Harmattan, 2022
« Tal é a minha oração. Para ti, caro Timóteo, exercita-te sem cessar nas contemplações místicas, abandona as sensações, renuncia às operações intelectuais, rejeita tudo o que pertence ao sensível e ao inteligível, despe-te totalmente do não-ser e do ser, e eleva-te assim, tanto quanto possas, até unir-te na ignorância com Aquele que está além de toda essência e de todo saber. Pois é saindo de tudo e de ti mesmo, de modo irresistível e perfeito, que te elevarás em um êxtase puro até o raio tenebroso da divina Suressência, tendo tudo abandonado e despojado de tudo » (S. Dionísio Areopagita, A teologia mística, Cap. I, §1).
« Quando retorno a Deus sem ali permanecer e volto à Deidade, esta irrupção é muito mais nobre do que a minha saída. Eu sozinho faço sair todas as criaturas de sua razão de ser, a fim de que em mim elas sejam unidade. Quando chego ao Fundo e no Leito, no Riacho e na Fonte da Deidade, ninguém me pergunta de onde venho, nem onde estive. Ali, ninguém percebeu minha ausência, pois é ali que Deus desaparece.
Feliz aquele que compreendeu este sermão. Se não houvesse ninguém aqui, eu teria pregado para este tronco de esmolas. Há certos pobres que retornam para casa dizendo: “Permanecerei onde me encontro bem, comerei meu pão e servirei a Deus”. Digo-o pela eterna Verdade: essas pessoas não poderão senão permanecer em seu extravio; jamais adquirirão nem conquistarão o que obtêm os outros, aqueles que seguem a Deus no despojamento e no exílio. Amém » (Mestre Eckhart, « Todas as criaturas se reúnem em minha razão a fim de que eu as prepare todas para retornar a Deus », ed. Aubier, p. 244).
« O homem deve ser tão pobre que não seja um lugar e não tenha em si um lugar onde Deus não possa operar … É por isso que peço a Deus que me libere de Deus; pois meu ser essencial está acima de Deus, na medida em que concebemos Deus como a origem das criaturas; com efeito, nessa Essência de Deus onde Deus está acima da Essência da Trindade ainda dividida em si, eu era eu mesmo, eu queria a mim mesmo e eu conhecia a mim mesmo, para fazer o homem que aqui embaixo eu sou. E é por isso que sou minha própria causa, segundo minha essência que é eterna, mas não segundo meu devir que é temporal. É por isso que sou não-nascido e, de acordo com o modo de meu nascimento eterno, não posso jamais morrer.
Segundo meu nascimento eterno, fui eternamente, sou agora e permanecerei eternamente. O que sou como criatura temporal morrerá e se aniquilará, pois isso é destinado ao tempo e deve apodrecer com o tempo. Mas em meu nascimento eterno nasceram todas as coisas; ali fui causa de mim mesmo e de todas as coisas. Se eu o tivesse querido então, o mundo inteiro e eu não existiríamos; e, se eu não fosse, Deus também não seria; que Deus seja Deus, sou eu uma causa disso. Se eu não fosse, Deus tampouco seria.
… Mas em minha irrupção, sou despojado de minha própria vontade, livre até mesmo da Vontade de Deus e de todas as suas operações, e até de Deus mesmo; ali estou acima de todas as criaturas, nem Deus, nem criaturas; mas sou o que era, o que permanecerei agora e para sempre. Então algo penetra em mim que deve elevar-me acima de todos os anjos. Nessa irrupção recebo uma riqueza tão grande que Deus não pode bastar-me com tudo o que Ele é como Deus, nem com todas as suas operações divinas; pois recebo nessa irrupção isto: que Deus e eu somos um. Ali sou o que era, não cresço nem diminuo, pois ali sou uma causa imóvel, que faz mover todas as coisas. Então Deus já não encontra lugar no homem, pois o homem conquista por esta pobreza aquilo que foi de toda eternidade e sempre permanecerá. Então Deus é um com o espírito, e isso é a pobreza mais íntima que se pode encontrar.
Quem não compreender este discurso não se aflija. Com efeito, enquanto o homem não for semelhante a esta Verdade, não compreenderá este discurso. Pois é uma verdade toda nua que saiu diretamente do coração de Deus.
Possamos viver de modo a experimentá-la eternamente, com a ajuda de Deus. Amém » (Mestre Eckhart, « Por que devemos nos libertar até mesmo de Deus », ed. Aubier, p. 254).
« Então não resta mais em nosso intelecto senão isto: ele é, e nada mais. Mas, enfim, esse mesmo ser, na forma em que se encontra nas criaturas, nós o negamos dele, e então permanece (nosso intelecto) em uma espécie de noite de ignorância que nos une a Deus da maneira mais perfeita, tanto quanto é possível nesta vida » (S. Tomás de Aquino, Comentários às sentenças 1, I, dist. XIII, art. 1, rép. 4).
« Nada torna o homem mais semelhante a Deus do que este desapego impassível. Pois que Deus é Deus, isso repousa sobre seu desapego impassível: daí decorrem sua pureza, sua simplicidade e sua imutabilidade … Esta semelhança deve ser produzida pela graça que apenas eleva o homem acima do temporal e o purifica de tudo o que é passageiro » (Mestre Eckhart, « Do desapego »).
A Vida divina é realmente o modelo do homem, feito à imagem de Deus; nela se concebe, pela Graça, a equivalência perfeita na Caridade entre total Pobreza e Riqueza absoluta: o Amor ideal (Caridade) que dá tudo (Riqueza) e nada espera (Pobreza). « Nada espera! », pois a esperança não é a expectativa, pois a esperança de um indizível não é a expectativa de um bem concebível. « Que Ele me mate e ainda esperarei nEle », dizia Jó (XIII, 15).
Porque é a confiança absoluta no Amor de Deus, pela graça, que permite o abandono total. Porque é « o próprio Espírito que intercede por nós com gemidos inefáveis » (Rm VIII, 26).
Pois tudo o que se pode conceber pela inteligência ou perceber pelos sentidos não é senão a aparição do que é não aparente, a manifestação do que é oculto, a afirmação do que é negado, a compreensão do incompreensível, a proferação do inefável, o acesso do inacessível, a inteligibilidade do não-inteligível, a corporificação do incorpóreo, a essencialização do suressencial, a formalização do informe, a mensuração do incomensurável, a numeração do inumerável, a ponderabilidade do imponderável, a materialização do espiritual, a visibilidade do invisível, a localização do que não tem lugar, a temporalização do intemporal, a finalização do infinito, a circunscrição do incircunscrito…
(João Escoto, Periphyseon 3, 633AB)
O único interesse da hermenêutica (da interpretação, da busca de sentido) é, assim, conduzir até onde ela já não tem curso, porque o saber pode ali tornar-se ser, até onde ela se torna impossível e, portanto, inútil. E é realmente próprio de um caminho que seu termo já não seja o caminho (por definição).
Ali, o saldo ontológico é totalmente despojado de toda verdade relativa, de todo caminho pessoal, de toda vida própria: é a Virgem!
Ali, este saldo ontológico, esta criatura virgem, pode desposar a única Verdade, o único Caminho e a verdadeira Vida: é o Cristo!
Esta Verdade absoluta e esta Vida eterna são este Caminho único que conduz ao Pai pelo Dom total do Filho no Espírito. Ali, começa o turbilhão imóvel dos Dons absolutos e recíprocos das três Pessoas, que « se contêm reciprocamente » (S. João Damasceno): é a Trindade!
(Introdução a uma metafísica dos mistérios cristãos)