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id da página: 7475 Henry Corbin – CORPO ESPIRITUAL E TERRA CELESTE – Sohravardi Sohravardi

Corbin CSTC Sohravardi 4

Livro das Conversações

O encontro com a realidade suprassensível pode produzir-se por meio de uma determinada leitura de um texto escrito e pode produzir-se ao se escutar uma voz, sem que aquele que fala seja visível. Umas vezes a voz é suave, outras faz tremer, e outras se assemelha a um ligeiro murmúrio. Pode ocorrer que o interlocutor se faça visível sob um aspecto determinado, seja como uma configuração sideral, seja sob o aspecto de um príncipe celeste dentre os príncipes supremos. A experiência dos autênticos raptos ao mundo de Hurqalya depende do magnífico príncipe Hurajs, o mais sublime de quem adotou um corpo, o muito venerado, que é o Supremo Rosto de Deus, na terminologia da teosofia oriental. Ele é o que se ocupa da meditação da alma outorgando-lhe a luz e é a testemunha de sua contemplação. Outros príncipes celestes também realizam visitas e estabelecem comunicações. Pode ocorrer que a visita consista na Manifestação de alguns destes príncipes celestes, por meio de formas ou lugares epifânicos adequados ao momento em que se aparecem ao solitário perfeito. Também pode ocorrer que sejam as almas dos tempos passados as que provoquem um despertar ou uma chamada interior.

Algumas vezes a aparição adquire forma humana, outras vezes as de uma constelação, em outros casos a de uma obra de arte, uma estátua que fala ou bem uma figura que se assemelha aos ícones que se veem nas igrejas e que também pronuncia um discurso. As vezes a Manifestação se apresenta sob uma forma determinada imediatamente depois do choque da luz que extasia, e em outras ocasiões só se apresenta após a forma de luz. Quando a luz fulgurante se prolonga, anula a forma; as figuras desaparecem e a visita especial se apaga. Então se compreende que o que se apagou é porque desaparece ante uma categoria superior…

… Quanto ao que se refere às formas e realidades que se fazem visíveis aos contemplativos visionários, este é um direito que se nega aos peripatéticos, já que se trata de uma via que nenhum deles seguiu, excetuando um reduzido número deles, e de todos os modos a experiência mística destes últimos continua a ser débil e precária. Aquele que segue a via mística após ser iniciado por um mestre com experiência teosofal, ou bem graças a uma ajuda divina especial que guia o exilado solitário — embora este último caso seja excepcional — este compreenderá perfeitamente que os Peripatéticos negligenciaram totalmente dois universos sublimes, que nunca aparecem em seus debates, e que, para além dos aspectos que sua filosofia trata, existem outras coisas.



… Em definitivo, o teósofo que possui realmente experiência mística é aquele para quem seu corpo material se transforma em uma espécie de túnica da qual algumas vezes se despe e que outras vezes veste. Enquanto não tiver conhecimento da semente sagrada da sabedoria mística e enquanto não tiver experimentado a sensação de despir-se da dita “túnica”, nenhum homem pode ser considerado teósofo místico. A partir desse momento pode, se o desejar, ascender para a Luz, e se o quiser pode manifestar-se sob a forma que escolher. Este poder se produz nele por meio da Luz da aurora (nur sariq) que irradia sua pessoa. Porventura não vedes que quando o fogo agiu sobre o ferro este se volta incandescente, se lhe assemelha, irradia e abrasa? O mesmo ocorre com a alma cuja substância é a do mundo espiritual. Quando esta recebe a ação da luz e se reveste com a túnica da Luz da aurora, é também capaz de influir e agir; faz um gesto e o que sucede está de acordo com este gesto; imagina, e o que ocorre está de acordo com sua imaginação. Os impostores atraem com hipocrisias, mas o iluminado, o perfeito, o enamorado da harmonia, imunizado contra o mal, este age graças à energia e à ajuda da Luz, porque ele mesmo é filho do mundo da Luz.

Se o que predomina na substância essencial da alma é a res victoriales (al-amr al-qahri), então a Luz da aurora se ergue sobre ela de modo que predomina nela a parte das realidades vitoriosas que emana das configurações siderais e dos Anjos cujas teurgias constituem estas últimas. Esta realidade suprassensível é a que os antigos Persas denominavam Xvarnah (“Luz-de-gloria”, em persa Jurrah). É algo que, ao produzir-se nas incandescências astrais, deixa no mundo humano como rastro a força dominadora; aquele que está investido dela se converte em um herói, em um vencedor, em um triunfador.

Se a Luz da aurora que emana dos astros espirituais, sendo estes últimos as puras entidades espirituais de luz, corresponde à capacidade da alma por meio de uma “dimensão” de desejo e de amor, então o rastro do Xvarnah que a penetra se manifestará fazendo com que seu possuidor encontre satisfação nas coisas sutis e delicadas, despertando nas almas inclinação e amor para com ela e levando os homens a exaltar seu louvor porque o esplendor que se comunica a seu ser procede de Anjos de teurgias benéficas, dignas de louvor e de amor. Quando existe um equilíbrio e predominam nele as qualidades de luz recebidas pela mediação do príncipe celeste de sublime luminiscência, então se converte em um rei magnífico, rodeado de respeito, dotado de conhecimento, perfeição e prosperidade. E somente isto é o que se chama Xvarnah real (Kayan Jurrah). Em sua plenitude, trata-se da categoria mais augusta, pois implica um perfeito equilíbrio de luz, à margem do fato de que a Iluminação sublime seja o umbral de todos os extases maiores.

Quanto ao fato de caminhar sobre as águas, de mover-se pelos ares, de alcançar o Céu, de ver a Terra recolher-se como um tapete, estas são experiências que só uns poucos místicos conhecem, sob condição de que a Luz que os alcança seja produzida pela coluna da aurora nas cidades do Oriente intermédio. E tudo isto pode encontrar-se, é claro, no itinerário que os místicos seguem. Aqueles místicos que só avançaram pela metade detêm-se aí, mas os perfeitos não lhe dão nenhuma importância. Em qualquer caso, na seita dos Peripatéticos não se conhece ninguém que se tenha movido nunca com segurança na sabedoria teosófica, quer-se dizer na ciência das puras Luzes.