Livro das Elucidações
Certa noite em que havia sol, Hermes estava a orar no templo da Luz. Então irrompeu a “coluna da aurora” quando viu desabar uma Terra que continha cidades sobre as quais a ira divina caíra e que se submergiram no abismo. Então clamou: “Tu, que sois meu pai, salvai-me do recinto dos vizinhos de perdição!”. E ouviu uma voz que lhe respondia a exclamar: “Apegai-vos ao cabo de nossa Irradiação e subi até às ameias do Trono”. Então ele subiu e viu que a seus pés havia uma Terra e Céus.
Sahrazuri: O autor designa com o nome simbólico de Hermes a alma nobre e perfeita. Sua oração é sua orientação para o outro mundo. A noite ensolarada é a Presença já real a partir de agora já do que a alma se propõe por meio de seus esforços espirituais e seguindo o itinerário místico. A irrupção da coluna da aurora é a epifania da alma fora do corpo material, quando vive a experiência das luzes divinas e dos resplendores sagrados. Do mesmo modo que a coluna surge ante nós no horizonte terrenal, assim aflora essa coluna da aurora — refiro-me à alma pensante — quando surge da Terra do corpo. Logo é certo que Hermes vê desabar uma Terra. O peregrino, ou seja, a alma pensante que o relâmpago das teofanias manifesta fora do corpo material, vê a Terra de seu corpo e suas cidades, isto é, suas próprias faculdades, desabarem juntas, porquanto a alma, devido a essa revelação e essa epifania, encontra-se no espaço das Luzes inteligíveis e das entidades superiores, ao passo que o corpo e suas faculdades permanecem no espaço do mundo inferior sobre o qual paira a ira divina, o que é uma forma de indicar que assinalam o máximo afastamento com relação à Majestade divina.
Então o peregrino místico, elevando-se por sobre o abismo do corpo material até o zenite da Inteligência, chama “seu pai”, nome que designa tanto o Ser Necessário por si mesmo quanto a Inteligência arcangélica da qual emana a alma do místico. “Salvai-me”, clama, “do recinto dos vizinhos de perdição”, ou seja, das faculdades corporais e das amarras materiais. Uma voz lhe responde: “Apegai-vos ao cabo de nossa Irradiação”, isto é, à teosofia especulativa e à teosofia prática, pois ambas conduzem aos mundos superiores. “Subi até às ameias do Trono”, até às Inteligências angélicas separadas da matéria. “E viu que a seus pés havia uma Terra e Céus”. Então Hermes elevou-se de fato por sobre todos os universos materiais, tanto por sobre o mundo das Esferas celestes quanto por sobre o mundo dos Elementos. Ora, os antigos Sábios costumavam designar as entidades espirituais como Esferas, porquanto aquelas cuja luz é mais intensa englobam as mais fracas, de modo que as Esferas celestes encaixam-se umas dentro das outras. É a isto que Platon alude quando manifesta: “Vi, em extase, Esferas de luz”, o que significa que há Céus que não são visíveis senão para aqueles que renascem, quando uma nova Terra sucede à Terra e novos Céus substituem os Céus.
Ibn Kammuna: Há aí um conjunto de símbolos difíceis de decifrar. Fizemos a seguinte conjectura: a irrupção da coluna da aurora é a epifania das luzes dos conhecimentos elevados. A Terra representa o corpo ou a matéria em geral. As cidades são almas que estão ligadas aos corpos materiais, ou bem as faculdades que neles se assentam, parece pois que o autor associa estas faculdades aos habitantes destas cidades, e designa por meio destas cidades a seus próprios habitantes, como quando se diz: “A cidade buscou refúgio junto a Deus”, querendo referir-se com isso a seus habitantes. Sua queda no abismo é a queda que lhes teria suposto a estas almas o princípio de sua natureza original. Tu já conheceis o modo e a causa desta queda. O recinto é o corpo e os vizinhos de perdição são as faculdades corporais. O cabo de Irradiação é a união com o mundo superior. As ameias do Trono são as entidades espirituais. Finalmente, o fato de haver uma Terra e Céus sob os pés de Hermes quer dizer que agora sua ascensão o faz sair do mundo dos corpos e das realidades materiais, tanto por sobre sua Terra quanto por sobre seus Céus.
Do mesmo modo que Sahrazuri o fez anteriormente, Ibn Kammuna vê-se obrigado a aludir ao célebre relato de extase que todos nossos autores atribuem a Platon, quando se sabe que na realidade se trata do testemunho de uma autobiografia espiritual das Eneadas de Plotino (IV, 8, 1). Nossos autores o conhecem por meio de um parágrafo da suposta Teologia de Aristoteles, que era, pode-se dizê-lo assim, um de seus “livros de cabeceira”. Suhrawardi cita também as primeiras linhas desta obra em sua Teosofia oriental, e seu comentarista, Qutb al-Din Sirazi, apressa-se a transcrever todo o parágrafo. Nossos comentaristas não põem em dúvida, e têm toda a razão, que o extase de Hermes simboliza sua entrada no intermundo, isto é, no mundo de Hurqalya. Para dar mais solidez a sua afirmação, Ibn Kammuna cita esses outros três textos cuja tradução lemos anteriormente. Hermes saiu dos limites da Terra e dos Céus visíveis da astronomia para penetrar no mundo das Formas imaginais, o mundus imaginalis, que possui sua própria Terra e seus Céus, onde se encontram, entre outras inumeráveis cidades, Yabalqa e Yabarsa.
Ibn Kammuna conclui: “A verdadeira intenção do autor neste parágrafo acarreta para mim mais dificuldades do que tudo o que o precede nesse capítulo”. Sohrawardi não sentiu essas dificuldades, mas é certo que Kammuna não era nenhum místico.
Não se oferecerá aqui a tradução do relato do extase, tal como aparece no texto árabe da suposta Teologia de Aristoteles, por se tratar de uma paráfrase do texto das Enéadas. Pelo contrário, essa nova Terra e esses novos Céus, que já não pertencem ao mundo sensível, mas que são a Terra e os Céus do mundus imaginalis ('alam al-mital), também se assinalam em um parágrafo da suposta Teologia de Aristoteles que Sadr al-Din Sirazi (cf. infra, II.VI, nesta edição) utilizou em seus comentários sobre o livro II da 2.ª parte da Teosofia oriental. É também um texto que justifica a imagem dos Céus ou Esferas de Luz em relação às entidades espirituais que, segundo nossos autores, Platão havia contemplado. Citar-se-á este parágrafo seguindo a tradução realizada por nosso colega Georges Vajda:
Há várias classes de entidades espirituais. Há aquelas que vivem no céu situado acima do céu estrelado. Cada uma das entidades espirituais que reside neste céu está na totalidade da esfera de seu céu, ocupando um lugar determinado, distinto do de seu companheiro, diferentemente das coisas corporais que estão no céu, já que estas não são corpos e o céu em questão já o é. Por esta razão cada uma delas está na totalidade de seu céu. Diz-se que atrás deste mundo há um céu, uma terra, um mar, animais, plantas e homens celestes; cada um dos seres que se encontra nesse mundo é celeste e não há nele nada de terrestre. As entidades espirituais que ali se encontram correspondem aos seres humanos que nele vivem; nenhuma é diferente das demais e não há nenhuma oposição nem contrariedade entre elas, mas sim cada uma delas repousa sobre as demais.