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id da página: 1532 Henry Corbin – O IRÃ E A FILOSOFIA – Iranologia e ciência das religiões - Hierologia Henry Corbin

Corbin Hierologia


CORBIN, Henry. L’Iran et la philosophie. Paris: Fayard, 1990

Versando uma hierologia


O sufixo pelo qual se obtém o termo psicologismo — e a observação vale para "historicismo", para "sociologismo" — deixa entender, de uma maneira geral, um procedimento que retorna, ou erige sistematicamente em princípio de explicação, o que se tinha precisamente a cargo de explicar. É conceber por exemplo tal forma de estado vivido, tal função psíquica, através das quais e graças às quais se revela tal ou qual domínio privilegiado do ser, como sendo não mais o lugar e o órgão, o meio (medium) desta aparição, a forma deste fenômeno, mas como sendo por elas só a explicação de seu ser mesmo, a razão primeira e última. Era em suma para uma psicologia que, na maioria das vezes, não ousava mais pronunciar a palavra de alma antecipar a conclusão: vejam, está explicado, não era senão isso! Em lugar do fenômeno, de uma epifania do ser, não se tem mais de fato diante de si senão um fantasma de ser.

Tomemos um exemplo. É legítimo falar de inquietudes religiosas, de necessidades e de desejos religiosos. Mas tomemos bem cuidado com isto: de onde vem então para nós a possibilidade mesma de lhes dar esta qualificação? Toda atribuição de um predicado pressupõe um horizonte de antemão já eclodido, um jato de luz a priori que desvela tal ou qual região específica do ser, aqui aquela que constitui o "religioso" ou o "sagrado". E é este horizonte — que dizemos preinicialmente eclodido porque a eclosão não é situável cronologicamente, mas que está lá com cada um de nós desde a origem —, é este horizonte com sua dimensão própria que nos permite, ou ao contrário proíbe, dar tal ou qual qualificação.

Em outras palavras: é necessário que já preexista, no caso que nos ocupa, uma certa ideia do bem de que temos a necessidade, o desejo, a inquietude. E se tal necessidade, tal desejo, tal inquietude são religiosos, é porque são a necessidade, o desejo, a inquietude deste objeto ou deste mundo, eclodidos precisamente no jato de luz, neste Ato preinicial que constitui desde a origem o modo de ser mesmo do sujeito religioso. E se se quer falar de sua "realidade objetiva" ou "positiva", é aí que ela se manifesta, mas pode-se ter certeza de a faltar se se pretende reduzi-la ao modo da realidade empírica ou ao da abstração intelectual, ou bem julgá-la segundo os critérios destas últimas. Qualquer fase que tomemos na história das religiões, tal é a condição primeira, se queremos "compreender".

É por isso que se faria inteiramente falsa rota ao se pôr primeiro em busca de uma faculdade qualquer: pensamento, sentimento, vontade, tendência, etc., para se perguntar em seguida qual tem o papel de causa, e sob qual delas convém ordenar o ato religioso. Pois longe disso, este último é tão bem ele mesmo e desde a origem: pensamento, sentimento, vontade, etc., que é igualmente modo próprio de sentir, modo próprio de querer, modo próprio de expressão (língua religiosa, prece, culto), e é por isso que Rudolf Otto podia falar do sagrado como a priori. Que seja de fato um ato transcendental, inseparável estruturalmente do termo correlativo que o significa ou representa; uma Presença transcendental, inseparável Daquilo que ela torna presente, é o que nos se tornará mais claro, pelo paralelismo das observações que se pode fazer a propósito do historicismo.

Sublinhemos bem com vigor que não é a pesquisa histórica como tal que está em causa. Longe disso; sem os textos, sem os monumentos figurados que nos transmitem nossos colegas filólogos ou arqueólogos, nossa "hierologia" estaria como suspensa no vazio. A questão é simplesmente de saber se os problemas são a conceber como idênticos de uma e outra parte, se "ciência das religiões" enquanto hierologia se confunde sem mais com "história das religiões".