Contribuição de Antonio Carneiro
Refutação do sistema de Valentino sobre a abolição da morte.
Valentino exprime-se nestes termos em uma homilia:
Valentino supõe, com Basilides, uma eleição por direito de nascimento, e uma raça privilegiada que desce à nossa terra para exterminar do meio dos homens a morte, obra funesta do princípio mau que criou o mundo. Eis por que o sectário apoia-se nesta palavra do Gênesis:
para sustentar que Deus é o autor e a causa da morte. É ao menos o que ele insinua quando diz:
Como o Criador é chamado na Escritura Deus e Pai, Valentino nomeia-o imagem do verdadeiro Deus e profeta; ele transforma em pintor a sabedoria, que reproduz a imagem para glorificar o invisível. "Os seres que nascem da conjunção, eis os pleromas", diz ele; "os que procedem de um único princípio não são senão imagens." "Mas, já que as substâncias visíveis não pertencem ao Deus invisível, a alma, substância intermediária, isto é, diferente, é portanto a emanação de um espírito diferente, uma insuflação que a faz alma e imagem do espírito." Em suma, os valentinianos pretendem que suas invenções sobre o Demiurgo, rival do Criador, foram expressas antecipadamente por uma imagem sensível na passagem em que o Gênesis relata a criação do homem. Há mais: fazem descer até eles essa semelhança, afirmando que esse sopro com que o espírito, de natureza diferente, os encheu, era desconhecido do Demiurgo. Quando viermos demonstrar que há um só e mesmo Deus, proclamado pela lei, pelos profetas e pelo Evangelho, combateremos essas doutrinas: esta questão é dominante. Por ora, vamos ao mais urgente. Se é verdade que a raça privilegiada desceu para destruir a morte, não é, portanto, o Cristo quem a destruiu, a menos que se lhe atribua a mesma essência que aos membros da raça favorecida. Mas se ele a aniquilou para que ela não atingisse a raça privilegiada, os membros dessa raça, emuladores que são do Demiurgo e, conforme a fórmula de seus dogmas, insuflando em sua imagem a vida superior da alma, cuja essência é intermediária, não destroem portanto a morte, ainda que aqui fizessem intervir a Mãe para essa destruição. Ou bem, se sustentam que é de concerto com o Cristo que travam combate contra a morte, confessem abertamente esse dogma misterioso, pois não temem atacar o poder divino do Demiurgo, reformando suas criaturas como se lhe fossem superiores e esforçando-se por salvar da dissolução essa imagem carnal, que ele próprio não pôde libertar da corrupção. Nesse caso, também o Senhor seria de natureza melhor que o deus Demiurgo; ora, que filho jamais lutou contra seu pai — e isso entre deuses? Mas que o Senhor todo-poderoso, que o Demiurgo, ou Criador de todas as coisas, seja o pai do Filho, deixamos para prová-lo na discussão em que combateremos a heresia, conforme nossa promessa, mostrando que há um só e mesmo Deus, proclamado pelo Filho.
O apóstolo, exortando-nos à paciência nas aflições, diz:
Pergunto: como o mesmo apóstolo, depois de ter dito aos Filipenses que participam de sua graça, chamá-los-ia homens unidos no mesmo espírito e organizações animais? Do mesmo modo, mais adiante, quando fala de si mesmo e de Timóteo:
Que os hereges acima nomeados não nos façam, pois, mais injúria de nos chamar organizações animais (psiquistas). Digo o mesmo aos frígios, pois atribuem essa mesma pecha aos que não creem na nova profecia. Refutaremos sua doutrina quando tratarmos da profecia.
É necessário, portanto, que o homem perfeito exerça-se na caridade e por ela eleve-se até a amizade de Deus, cumprindo seus preceitos por amor a ele. Quando o Senhor nos ordena amar nossos inimigos, não nos recomenda amar o mal, a impiedade, o adultério, o roubo, mas amar o ladrão, o ímpio, o adúltero, não enquanto pecam e cobrem de ignomínia a dignidade humana, mas enquanto são homens e obra de Deus. O pecado é indubitavelmente um ato; não é uma substância. Eis por que não é obra de Deus. Dizemos que os pecadores são inimigos de Deus; por quê? Porque são inimigos dos preceitos contra os quais se revoltam. Por razão contrária, chamamos amigos de Deus os que se submetem aos mandamentos. Amigos, pois, por causa dos vínculos voluntários que estes têm com Deus; inimigos, por causa do afastamento voluntário que os separa de Deus. A inimizade e o ódio não existiriam sem a existência de um inimigo e de um pecador.
Este mandamento, assim como imaginaram os heresiarcas que distinguem do primeiro deus o Demiurgo ou criador, não nos proíbe desejar as coisas desejáveis enquanto fossem estranhas e do domínio do outro deus. Esse mandamento tampouco condena a geração, como se ela fosse um ato abominável; tal doutrina é ímpia. Dizemos que as coisas do mundo nos são estranhas, não porque sejam desonestas e más em si mesmas, não porque nada tenham em comum com Deus, senhor do universo, mas porque, homens de um dia, não vivemos eternamente em meio a elas. Consideradas sob o aspecto da posse, são-nos estranhas, pois escapam de nós para passar às mãos de nossos sucessores; consideradas sob o aspecto do uso, pertencem a cada um de nós, pois foram criadas para nós, na medida, todavia, em que é necessário que sejamos misturados a elas durante nossa aparição aqui embaixo. É necessário, portanto, usar dentro dos limites da natureza as coisas das quais o preceito sabiamente nos afasta, guardando-nos de todo excesso e de todo apego aos bens materiais.