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id da página: 13336 Chuang Tzu – Elorduy – A verdade se acha no Tao

Chuang Tzu Tao Verdade Elorduy

TaoChuang TzuElorduy – A verdade se acha no Tao

ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991

A porta para evadir-se deste mundo de ilusões sensoriais é penetrar no interior das coisas e chegar ao fundo do ser onde está o Tao. Diz no cap. 13 p. 97, 10:

“Não se engana em apreciar as coisas e não se deixa levar por interesses e riquezas. Chegou à fonte da verdade e pode guardar seu fundamento... Penetrou o Tao e se uniu à sua Virtude.


O Tao é o eixo da verdade. O santo se situa neste eixo e contempla indiferente e tranquilo a procissão tumultuosa das coisas em perpétua mudança girando a seu redor. Imutável naquele centro, pode corresponder a todas as coisas. Sem necessidade de opor-se a elas nem receber dano delas. Não se “faz coisas nas coisas.” Remontou sobre o mundo das contingências mutáveis e se fixou na Unidade, no Absoluto.

“O ponto no qual isto e aquilo (as diferenças subjetivas) não tem seu par (seu correlativo), é o eixo do Tao. O eixo está originariamente no centro do círculo e desde aquele centro pode corresponder a todas (as diferenças) indeficientemente. O é naquela Unidade é inesgotável; o não é naquela Unidade é, também, inesgotável” cap. 2 p. 15,5.


De Lao-tse a Chuang-tzu tem havido uma evolução sensível no monismo taoista. Lao-tse em sua visão do cosmos dá-se conta, como Heráclito e os pitagóricos, de que o mundo está feito de elementos contrários. Heráclito e Empédocles formulam sua visão dizendo que os seres nascem da guerra. Da destruição de uns nascem os outros. Lao-tse, com os pitagóricos, diz que a paz ou o armistício dos dois contrários dá nascimento aos seres. Lao-tse contempla como estes dois contrários se vão alternando na natureza e suplantando um ao outro. Estes contrários, mais que contrários, são fases diversas, mas complementares, de um mesmo movimento pendular:

“Todos conhecem a beleza e por ela a fealdade. Conhecem a bondade e por ela a maldade. O ser e não ser mutuamente se engendram. Fácil e difícil mutuamente se fazem. Longo e curto mutuamente se marcam. Alto e baixo mutuamente se desnivelam. O som e a voz mutuamente se harmonizam. Diante e atrás se sucedem” cap. 2.

“A baixeza é a base da eminência”, c. 39. “Os mares e os grandes rios são os reis das dez mil torrentes porque souberam abaixar-se mais”, c. 66. “O sábio antepõe-se porque se pospôs, permanece porque se retirou. Alcança os seus propósitos porque deles se descurou”, c. 7. “O pesado é a base do leve. O repouso domina a agitação”, c. 26. “A desdita vem apoiada na dita, e após a desdita oculta-se a dita”, c. 58. “À robustez segue-se a velhice”, c. 55. “Ao decrescer sucede o crescer, e ao crescer o decrescer”, c. 42.


Chuang-tzu pretende identificar esses contrários no Tao ou reduzi-los a meras apreciações subjetivas. A visão de Lao-tse é mais primitiva e mais cosmogônica, a de Chuang-tzu mais psicológica e mais elaborada.

O cap. 17 p. 116 introduz ao gênio do Mar do Norte instruindo ao gênio do rio Amarelo sobre este problema das diferenças das coisas e lhe diz:

“Se se as vê desde o ponto de vista do Tao, nas coisas não existem as diferenças de preciosas e vis. Desde o ponto de vista das coisas mesmas, cada coisa se tem a si por preciosa e às demais por vis. Mirando-as desde o ponto de vista do sentir mundano, o precioso e o vis não estão nas coisas mesmas, (estão na apreciação que delas se faz). Mirando-as segundo as diferenças nelas existentes, se se as considera grandes pela grandeza própria delas, não há nenhuma das dez mil que não seja grande. Se se as considera pequenas por sua pequenez (a que compete à sua natureza), não há nenhuma das dez mil coisas que não seja pequena. Disto se deduz que o universo não é maior que um grão de arroz e que a ponta de um cabelo é grande como uma montanha. Isto mirando-as segundo suas diferenças. Mirando-as segundo seu valor ou eficácia, se se aprecia nelas o que têm, não há nas dez mil coisas nenhuma que não tenha seu próprio valor. Mas se se considera nelas o que não possuem ou lhes falta, não há entre as dez mil coisas uma à que não falte algo”.


Todo o capítulo segundo está dedicado a esclarecer este ponto tão importante para a ascese: a identidade de todas as diferenças no Tao. Quem o tem compreendido tem superado os altos e baixos e desgostos do mundo das contingências e tem entrado na paz do ser uno e idêntico eternamente.

“Juntam (os santos) todos os tempos na pureza e simplicidade da Unidade. Se pois todos os dez mil seres são isso mesmo e todos envolvem em si a verdade (o é) como posso saber eu que o amar a vida não é uma aberração, e que o aborrecer a morte não é como o haver-se extraviado sendo ainda criança pequena e não saber logo voltar a sua própria casa? A menina Li era filha do senhor feudal Ai. Ao princípio, quando o rei de Chin a cativou para esposa, ela chorou até molhar seu vestido. Mas logo que chegou à corte real e participou com o rei da mesma cama e da mesma mesa de viandas de animais herbívoros, arrependeu-se de ter chorado.
Como posso saber eu que depois de morto não me hei de arrepender de ter buscado a vida?” p. 21,11.


A identidade das coisas a expressa com a belíssima descrição dos organelos terrestre e celeste cap. 2 p. 11:

Yen Ch’eng Tzu Yu encontra a seu mestre Tzu Ch’i em êxtase. Voltado do êxtase, explica a seu discípulo as ideias que o têm absorvido: “O soluço da Grande Massa (Cósmica) chama-se vento. De ordinário não sopra. Quando sopra todas as cavidades bramam desaforadamente. Só tu não tens ouvido nunca seu zumbido e não tens visto como sacode os bosques das colinas? As cavidades dos troncos de corpulentas árvores de cem braças de circunferência se parecem a narizes, bocas, orelhas, capitéis, apriscos, morteiros, buracos e fundões. Os sons que emitem são murmúrios de cascatas, assobios, sussurros, clamores, suspiros, mugidos, estruendos de barrancos profundos. Uns entoam e outros respondem. É a sinfonia calada de murmúrios de mansas brisas, é o grandioso concerto de ventos furacionados. Cessado o vendaval, todas as cavidades voltam à inane vacuidade de seu silêncio.”


O vento, sendo uno e idêntico, produz uma música polifônica nas cavidades de formas diversas da floresta. É o realejo terrestre. Do mesmo modo, cada coisa recebe do Céu a sua própria forma, tom e colorido. É o realejo celeste. Se nosso coração não está bem fixado na unidade do Tao, suas cordas sentimentais vibram também diferentemente ao ser feridas pelos sucessos da vida:

“Ao entabular contacto com as coisas, o coração se prende com elas originando-se nele a luta diária. Tão pronto se ensancha e dilata como se dobra e encerra obstinadamente em seus profundos seios. São pequenas inquietações que o acossam ou grandes temores que o paralizam totalmente. Brotam de pronto como disparadas por mola de balestra. O mecanismo que as dispara é a distinção do é e do não é (bom e mau)... A alegria e a ira, a tristeza e o gozo, as preocupações e os lamentos se vão alternando ou se estancam fazendo-se crônicos. Vão brotando com ligeira luxúria e profusa prodigalidade como sons que nascem no vazio e cogumelos que cria a humidade” p. 12.