ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991
A porta para evadir-se deste mundo de ilusões sensoriais é penetrar no interior das coisas e chegar ao fundo do ser onde está o Tao. Diz no cap. 13 p. 97, 10:
O Tao é o eixo da verdade. O santo se situa neste eixo e contempla indiferente e tranquilo a procissão tumultuosa das coisas em perpétua mudança girando a seu redor. Imutável naquele centro, pode corresponder a todas as coisas. Sem necessidade de opor-se a elas nem receber dano delas. Não se “faz coisas nas coisas.” Remontou sobre o mundo das contingências mutáveis e se fixou na Unidade, no Absoluto.
De Lao-tse a Chuang-tzu tem havido uma evolução sensível no monismo taoista. Lao-tse em sua visão do cosmos dá-se conta, como Heráclito e os pitagóricos, de que o mundo está feito de elementos contrários. Heráclito e Empédocles formulam sua visão dizendo que os seres nascem da guerra. Da destruição de uns nascem os outros. Lao-tse, com os pitagóricos, diz que a paz ou o armistício dos dois contrários dá nascimento aos seres. Lao-tse contempla como estes dois contrários se vão alternando na natureza e suplantando um ao outro. Estes contrários, mais que contrários, são fases diversas, mas complementares, de um mesmo movimento pendular:
“Todos conhecem a beleza e por ela a fealdade. Conhecem a bondade e por ela a maldade. O ser e não ser mutuamente se engendram. Fácil e difícil mutuamente se fazem. Longo e curto mutuamente se marcam. Alto e baixo mutuamente se desnivelam. O som e a voz mutuamente se harmonizam. Diante e atrás se sucedem” cap. 2.
“A baixeza é a base da eminência”, c. 39. “Os mares e os grandes rios são os reis das dez mil torrentes porque souberam abaixar-se mais”, c. 66. “O sábio antepõe-se porque se pospôs, permanece porque se retirou. Alcança os seus propósitos porque deles se descurou”, c. 7. “O pesado é a base do leve. O repouso domina a agitação”, c. 26. “A desdita vem apoiada na dita, e após a desdita oculta-se a dita”, c. 58. “À robustez segue-se a velhice”, c. 55. “Ao decrescer sucede o crescer, e ao crescer o decrescer”, c. 42.
Chuang-tzu pretende identificar esses contrários no Tao ou reduzi-los a meras apreciações subjetivas. A visão de Lao-tse é mais primitiva e mais cosmogônica, a de Chuang-tzu mais psicológica e mais elaborada.
O cap. 17 p. 116 introduz ao gênio do Mar do Norte instruindo ao gênio do rio Amarelo sobre este problema das diferenças das coisas e lhe diz:
Todo o capítulo segundo está dedicado a esclarecer este ponto tão importante para a ascese: a identidade de todas as diferenças no Tao. Quem o tem compreendido tem superado os altos e baixos e desgostos do mundo das contingências e tem entrado na paz do ser uno e idêntico eternamente.
“Juntam (os santos) todos os tempos na pureza e simplicidade da Unidade. Se pois todos os dez mil seres são isso mesmo e todos envolvem em si a verdade (o é) como posso saber eu que o amar a vida não é uma aberração, e que o aborrecer a morte não é como o haver-se extraviado sendo ainda criança pequena e não saber logo voltar a sua própria casa? A menina Li era filha do senhor feudal Ai. Ao princípio, quando o rei de Chin a cativou para esposa, ela chorou até molhar seu vestido. Mas logo que chegou à corte real e participou com o rei da mesma cama e da mesma mesa de viandas de animais herbívoros, arrependeu-se de ter chorado.
Como posso saber eu que depois de morto não me hei de arrepender de ter buscado a vida?” p. 21,11.
A identidade das coisas a expressa com a belíssima descrição dos organelos terrestre e celeste cap. 2 p. 11:
O vento, sendo uno e idêntico, produz uma música polifônica nas cavidades de formas diversas da floresta. É o realejo terrestre. Do mesmo modo, cada coisa recebe do Céu a sua própria forma, tom e colorido. É o realejo celeste. Se nosso coração não está bem fixado na unidade do Tao, suas cordas sentimentais vibram também diferentemente ao ser feridas pelos sucessos da vida: