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id da página: 12227 Chuang Tzu – O Tao tem em si mesmo a razão de sua existência (Elorduy)

Chuang Tzu Tao Supremo Elorduy

TaoChuang TzuElorduy – O Tao tem em si mesmo a razão de sua existência

ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991

O caráter Tao tem muitas significações mais ou menos aparentadas entre si. Significa caminho, dizer, arte ou método e as mais afins a nosso propósito: razão, verdade e muito especialmente em Lao-tse e Chuang-tzu, a Suprema Razão ou Verdade. Poderíamos tê-lo traduzido por Logos, que também tem a maior parte dessas significações, mas preferimos deixar a mesma palavra chinesa. Em Chuang-tzu, como nos livros sapienciais hebreus, está usado quase sempre como sinônimo de sabedoria. Tanto a Sabedoria Suprema e transcendente como a imanente aos seres, em especial ao homem.

O Tao não tem origem ou é Ele mesmo a sua origem.

Ele mesmo é seu fundamento e sua raiz. Sua existência já estava sólida e firme antes de existirem o Céu e a Terra.


A segunda frase é clara. O Tao é anterior a todos os seres, não uma forma ou modalidade deles. Em si mesmo, não neles, tem a razão de sua existência.

O c. 23 p. 169, 12 diz também:

Sai sem origem e entra sem orifício, tem realidade e não tem lugar, é duradouro mas não tem origem nem fim ("tronco e ramos").


No c. 32 p. 238, 5:

Aqueles super-homens voltam em espírito para Aquele que é sem princípio e dormem docilmente nessa região onde nada existe.


Pouco antes o chamou de o Grande Princípio.

O Tao, diz no cap. 17 p. 118,7, é um ser sem princípio nem fim; as coisas, em contrapartida, morrem e voltam à vida. Seu ser não tem apoio em si mesmas.


No c. 24 p. 185 diz também:

No princípio existe Ele. Explicá-Lo é igual a não explicá-Lo. Conhecê-Lo é como não conhecê-Lo. Sua investigação não pode ter término e não pode não ter término. Naquele caos existe uma realidade ou verdade. Desde a antiguidade até os tempos atuais permanece invariável. Não pode sofrer detrimento ou perda. Não é o que pode ser denominado a Grande Grandeza Incontrastável?


Esta doutrina é comum no taoísmo. Lieh-tzu a exprime com a mesma firmeza: "O Tao é o que vive eternamente sem ter origem de onde provenha". Lao-tse o coloca também no ápice supremo, acima dos seres, anterior e independente em sua existência a todo outro ser. No c. 51 diz: "O Tao, sua majestade, e o Te, seu preço ou estimabilidade, os têm, não por vontade alheia, mas por si mesmos." No c. 42 diz: "O Tao gera o Um, este gera o Dois, o Dois gera o Três e o Três gera os dez mil seres." No c. 25: "O homem tem por norma a Terra, a Terra o Céu, o Céu o Tao, e o Tao é sua própria lei Tao fa tzu jan." Mais tarde analisaremos a expressão tzu jan que aqui Lao-tse usa.

A existência do Tao está tão bem alicerçada no taoismo que nunca se a põe em dúvida. É o fundamento no qual se apoia todo o sistema taoista. Chama-se a Ele fundamento e raiz de todas as coisas. "Ele cria e sustenta todos os seres sem que eles se deem conta; por isso se Lhe chama Raiz e Fundamento". c. 22 p. 155, 4.

Várias vezes se fala das opiniões dos antigos sobre a origem dos seres, dizendo uns que sempre os tem havido e outros que, a princípio, existiu o nada c. 2 p. 16, 6; c. 12 p. 83, 8; c. 23 p. 169, 12. Mas adverte-se que o existir yu e a realidade shih referem-se apenas ao âmbito dos seres.

Nomes e realidades são domínios das coisas. O anonimato e a carência de realidade se dão no vazio dos seres. Pode-se falar d'Ele, mas quanto mais se fala, mais se afasta" c. 25 p. 194.

"Se houve quem os fizesse ou não, diz pouco depois, refere-se ao mundo das coisas. Como pode referir-se à Grande Imensidão? O Tao não pode haver (como coisa assinalável); o Haver não pode não haver". Seu mesmo nome Tao não Lhe é próprio, senão coisa emprestada".


Plotino diz: "É preciso inquirir a origem dos seres que vêm d'Ele (do Primeiro); mas há que cessar de inquirir como foi gerado o Primeiro, porque não foi gerado. É o primeiro e não se pode já ir mais adiante." PLOTINO, Enéada VI 8, 10 p. 146 ed. Bréhier

Não, diz pouco depois, não há que dizer sequer que existe. As outras coisas são as que existem depois d'Ele e por Ele. Como pode haver recebido a existência de outro ou de si mesmo Aquele que subsiste antes de toda existência? Uma coisa que não existe, o que pode ser? Não convém fazer tais perguntas, senão ir calando... Toda indagação chega a um princípio e ali tem que se deter. Toda pergunta refere-se à essência, à qualidade ou ao porquê de sua existência. Que o Primeiro existe — no sentido que dizemos existir — o vemos pelos seres que vêm depois d'Ele. Perguntar por sua causa é buscar-Lhe um outro princípio... Nossa dificuldade provém de que nos representamos primeiro um espaço ou um lugar, à maneira do caos dos poetas; depois introduzimos o Primeiro nesse lugar ou espaço que nasceu em nossa imaginação, e nos perguntamos de onde veio e chegou aqui. Inquirimos sua presença ou sua existência como se fosse Ele um estranho.


Chuang-tzu, para designar a existência do Tao, usa o caráter tsun subsistir, mas Lhe nega o caráter yu, que parece envolver mais a ideia de ter ou estar contido em um lugar.

Pode-se afirmar com toda segurança do Tao de Chuang Tzu o que o historiador G. Fraile diz do Uno de Plotino:

A existência do Uno é um pressuposto prévio para a explicação de toda a realidade. Com o Uno se explica tudo e sem o Uno não se explica nada." (FRAILE, GUILLERMO. Historia de la Filosofia, I BAC, Madrid, 1961 p. 706)