BILLETER, Jean François. Leçons sur Tchouang-Tseu. Paris: Allia, 2002 (JFBLC)
Eis, para finalizar, um relato no qual se reencontram vários motivos que acabo de abordar. Como é mais longo que os precedentes e como não desejo interromper seu fio, colocarei em notas as poucas explicações que serão úteis ao leitor:
Viajando para o leste, quando já havia passado sob os ramos de Fou-yao, o General Nuvem deparou-se com Grande Oculto que batia nas próprias coxas saltitando como um pardal1 . Diante desse espetáculo, deteve-se subitamente e não se moveu mais: "Quem sois vós? Que fazeis ali?", perguntou o general. "Divirto-me", respondeu o outro sem cessar de bater nas coxas e de saltitar como um pardal 2 . "Permiti que vos faça uma pergunta", disse o general. "Ah?", fez Grande Oculto erguendo a cabeça e olhando-o por um instante. "Os sopros do Céu já não se encontram em harmonia", declarou o general, "os da Terra embaralham-se e enovelam-se; os seis sopros estão desregulados, as quatro estações não seguem mais seu ritmo. Desejaria reajustar as essências dos seis sopros a fim de que todas as criaturas prosperem. Como devo proceder?"3 Batendo sempre nas coxas e saltitando como antes, Grande Oculto balançou a cabeça e disse: "Não faço a menor ideia! A menor ideia!" O general nada mais obteve.
Três anos depois, durante outra viagem para o leste, nos campos de Song avistou novamente Grande Oculto. Radiante, precipitou-se até ele e apresentou-se: "Ter-me-íeis esquecido, celestial mestre? Ter-me-íeis esquecido?" Prostrou-se por duas vezes e pediu para ser instruído. Grande Oculto disse-lhe: "Vou ao acaso, divago e, em meu errar, vejo aquilo que não engana. Que queres que te diga além disso?"4 "Julgava que divagava como vós", disse-lhe o general, "mas as pessoas seguem-me por toda parte aonde vou e – nada posso fazer – contam comigo. Aconselhai-me, por favor."5 "Quando se embaraça a trama das coisas e se violam as disposições naturais dos seres, a obscura natureza não pode agir. Os quadrúpedes dispersam-se, as aves gritam durante a noite, flagelos atingem as plantas, chagas afligem os insetos. Eis o que sucede quando o homem pretende pôr ordem!" "Mas que devo fazer então?", perguntou o general. "É sem esperança", respondeu-lhe Grande Oculto; "parti, retornai à vossa casa!"
"Tive tanta dificuldade em encontrar-vos", retomou o general; "dignai-vos a dizer-me algo!" Grande Oculto respondeu: "Bom: será nutrir o espírito! Contentai-vos em não intervir em coisa alguma e as coisas se transformarão por si mesmas. Abandonai vosso corpo e vossos membros, afastai vossa audição e vossa vista, deixai-vos submergir esquecendo tudo, fundi-vos no indistinto; desprendei-vos de toda intenção, deixai ir vosso espírito, permanecei ali todo pasmado e todas as coisas retornarão à sua origem, farão isso sem que vos apercebais. Permanecei nesse estado de confusão, não saiais dele até o fim de vossos dias; se buscardes compreendê-lo, por esse fato dele saireis.6 Não vos preocupeis com seu nome, não busqueis saber de que é feito e todas as coisas dele surgirão naturalmente." "Celestial mestre", disse o general, "conferistes-me a potência, ensinastes-me o silêncio. O que busquei toda a vida, encontrei-o." Prostrou-se duas vezes, levantou-se, despediu-se e partiu.
Este final é característico. Tendo encontrado o segredo da autonomia, o General Nuvem já não precisa de Grande Oculto e vai embora. Este diálogo é prodigioso.
Após haver apresentado minha maneira de ler Tchuang-Tseu explorando um aspecto de seu pensamento, completarei brevemente as descobertas que fizemos e interrogarei-me para finalizar sobre os efeitos que poderiam ter sobre nossas ideias aquelas que descobrimos em Tchuang-Tseu.