Resumo da apresentação do Prof. Nachman Falbel (USP), da tradução brasileira de "IDEL, Moshe. Cabala: Novas Perspectivas. São Paulo: Editora Perspectiva, 2024".
I. A assunção do caráter científico dos estudos sobre a tradição mística judaica e a postura da Ciência do Judaísmo
- A assunção de um caráter científico, propriamente dito, nos estudos sobre a tradição mística judaica ocorreu somente em nosso século.
- A mínima ou quase nenhuma importância dada pelo movimento da Ciência do Judaísmo (Wissenschaft des Judentums) do século passado
- Olhava-a com desprezo por considerá-la uma expressão obscurantista.
- Julgava-a pouco digna da postura racionalista dos estudiosos daquele tempo.
- Sua postura era influenciada pela rejeição natural do Hassidismo, comum nos meios intelectuais.
- Sua erudição conservadora típica via nessa mística a presença de elementos forâneos ao judaísmo.
- A atitude de desvalorização manifestada por homens como o grande historiador Heinrich Graetz
- Ao escrever sobre o misticismo dos heichalot com conhecimento e verdadeira captação de seus componentes gnósticos.
- Poucos foram os que se interessaram por aqueles textos.
II. Exceções importantes na apreciação crítica da Cabala no século anterior
- David Heymann Joel e o estudo profundo sobre o Zohar
- Em sua obra Midrash haZohar: Die Religions Philosophie des Sohar und ihr Verhaeltnis zur algemeinen juedischen Tlieologie (Leipzig, 1849).
- Encetava um estudo profundo sobre o Zohar com conhecimento sólido da literatura rabínica.
- Adolf Jellinek e sua apreciação crítica importante sobre a Cabala em várias obras
- Auswahl kabbalistischer Mystik (Leipzig, 1853).
- Beitrãge zur Geschichter der Kabbala (Leipzig, 1852, 2 vols.).
- Moses ben Schem Tob de Leon und sein Verhãltnis zum Sohar (Leipzig, 1851).
- Outros interessados em encarar o pensamento cabalístico como uma área merecedora de atenção particular
- Adolphe Franck com a obra La Kabbale ou la Philosophie religieuse des hébreux (Paris, 1843), a qual foi traduzida por Jellinek, cujo título em português significa "A Cabala ou a Filosofia religiosa dos hebreus".
- Samuel David Luzzato
- Em sua obra Vikuach al Chochmat haKabala (1852), indicava um novo olhar sobre a Cabala e o Zohar.
- Ainda que a visse com sérias restrições, mostrava que a tradição de ser uma obra escrita por Shimon bar Yochai era inaceitável e não se sustentava com o emprego de um método crítico literário mais apurado.
III. O papel fundamental e seminal de Gershom Scholem na consolidação da área de estudos
- O papel fundamental e seminal de Gershom Scholem coube a ele desde os anos 20, vivendo na Palestina sob Mandato Britânico.
- A contribuição de Scholem e o fundo histórico
- Concentrou-se em levantar sistematicamente todas as fontes concernentes a essa área de estudos.
- Iniciou-se como espécie de reação ao meio assimilacionista judaico-alemão de seu tempo, tendo como fundo histórico o movimento sionista de renascimento nacional.
- A dedicação de Scholem e a amplitude de sua pesquisa
- Desde a sua integração na vida universitária de Jerusalém até seu falecimento, dedicou-se a explorar profundamente o milenar veio da tradição mística judaica.
- Abarcou desde as tradições tanaíticas após a destruição do Segundo Templo até o movimento Hassídico originário do século XVIII.
- Deu forma a um quadro histórico sistemático e coerente escrito com clareza exemplar e espírito elevado.
- O caráter indispensável da obra de Scholem
- Poucas foram as questões que ele deixou de abordar e elucidar com sua percepção aguda de pesquisador incansável e rigoroso nos detalhes.
- Sua obra constitui um conjunto notável e indispensável para todo e qualquer estudioso do pensamento judaico.
- Teve o mérito de chamar a atenção para aquelas que não elucidou, como questões abertas até hoje em dia como desafio aos estudiosos.
- A influência da disciplina de pesquisa histórico-filológica
- Scholem contribuiu decisivamente para a disciplina se tornar uma área de pesquisa histórico-filológica de investigação.
- Repercutiu sobre outros campos de conhecimento do judaísmo, auxiliando para a sua melhor compreensão e entendimento.
- Sua obra passa a ser um ponto de referência para uma reflexão mais fundamentada sobre a difícil e polêmica questão das relações e mútua influência entre filosofia, misticismo e Cabala, em particular durante o período medieval.
- A integração de literatura excluída e a consciência dos primeiros passos dos estudos
- Sua obra integrou ao pensamento judaico uma vasta literatura que se encontrava excluída e selada com muitas chaves do pré-julgamento acobertado com verniz pseudo-científico.
- Tinha plena consciência de que os estudos de mística judaica ainda estavam dando seus primeiros passos e muito ainda havia por se fazer.
- A metodologia histórico-filológica e a periodização do pensamento místico em Israel formulada por Scholem:
- A mística da Merkavah com seu centro no oriente (do primeiro milênio de nossa era).
- O pietismo asquenazita cujo centro é a Alemanha medieval (dos anos 1150-1300), com sua influência posterior até o século XV.
- O desenvolvimento da Cabala propriamente dita, cujo centro está na Espanha, desde 1200 até a expulsão de 1492.
- A Cabala posterior cujo centro se localizava na terra de Israel entre os anos de 1500-1650.
- O movimento de Sabatai Tzvi e suas ramificações, de aproximadamente 1665-1800, no Oriente Médio e na Europa.
- O Hassidismo na Europa Oriental desde 1750.
- Os fatores que explicam a postura metodológica
- A inevitável necessidade de sistematizar uma ciência ou área de estudos que estava em formação, procurando abrir caminhos na vida acadêmica.
- Sua própria longitude histórica adstrita aos diversos momentos da vida do povo judeu.
IV. Estudosos posteriores e a trajetória acadêmica de Moshe Idel
- Estudosos que se destacaram naqueles anos: Samuel Aba Horodezky, Ernst Muller, David Kahane.
- Estudosos importantes que despontaram e se interessaram em entender e elucidar os vários aspectos da Cabala, centrados na Universidade Hebraica de Jerusalém: Schlomo Pines, Y. Tishby, E. Gottlieb, J. Ben-Schlomo.
- Scholars de outros lugares: Alexander Altmann, Georges Vajda e François Secret.
- A ascensão de Moshe Idel
- É atualmente um dos mais brilhantes e criativos estudiosos, cujos trabalhos estão iluminando cantos esquecidos da tradição mística judaica numa abordagem renovadora, mesmo que por vezes polêmica.
- Sua formação se deu à sombra dos grandes mestres mencionados anteriormente.
- Graças ao seu talento pessoal e ao admirável impulso de não se ater apenas ao estabelecido, conseguiu chamar a atenção pelas suas interpretações arrojadas.
- Suas interpretações são resultantes de uma leitura inesgotável de manuscritos, em boa parte inéditos.
- A trajetória acadêmica de Moshe Idel
- Formação inicial na Universidade de Haifa nos cursos de hebraico e literatura inglesa.
- Continuidade nas áreas de filosofia judaica e Cabala na Universidade Hebraica de Jerusalém.
- Doutorou-se em Cabala, com distinção máxima, com uma tese sobre o místico do século XIII Abraham Schmuel Abulafia, e seus escritos.
- Desenvolveu atividade docente em universidades de Israel (Haifa, Beersheba e Jerusalém) e passou a ser professor visitante em instituições de ensino tais como Harvard, Yale, Jewish Theological Seminary de Nova York, Princenton, École de Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e outras.
- A ampla produção científica de Moshe Idel
- Abrangeu os mais variados aspectos da mística judaica.
- O montante de seus trabalhos (1971 a 1997) se aproxima ao extraordinário número de mais de duzentas publicações, incluindo livros, artigos, resenhas e edição de textos.
- Fez jus ao Prêmio Israel pelo conjunto de sua obra na área de ciências judaicas.
- Seu autor soube extrair uma ampla gama de temas assentados sobre a multiplicidade de fontes manuscritas.
- O catálogo de seus escritos, organizado por Daniel Abrams e publicado em 1997, dá um retrato da diversidade de sua produção científica.
- Sua produção mereceu ser traduzida ao inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, além do hebraico, romeno, russo e catalão.
- Os estudos notáveis sobre Abraham Schmuel Abulafia e o pensamento místico-cabalístico
- Deu uma contribuição substanciosa sobre Abraham Schmuel Abulafia, lídimo representante da corrente estática sob a designação de Cabala profética e seus devaneios messiânicos, em contraposição aos representantes da corrente teosófica-teúrgica.
- Preocupou-se em trazer à luz e elucidar aspectos particulares do pensamento místico-cabalístico na sua dimensão cronológica-temporal e espacial.
V. Moshe Idel: Cabala: Novas Perspectivas e a nova visão metodológica
- O presente volume de Moshe Idel, Cabala: Novas Perspectivas
- Reúne um conjunto de ensaios originais que primam pela profundidade e erudição.
- Tem como escopo central explicar conceitos centrais de Cabala em suas diversas apreensões, grupos e correntes.
- Procura apresentar o mundo místico judaico com novas possibilidades metodológicas de estudo para revelar estratos ainda sujeitos a indagação científica.
- A postura inovadora e a crítica implícita ao conservadorismo
- Sua postura é inovadora.
- Encontra-se nela uma implícita crítica em relação a um certo conservadorismo dos estudiosos.
- O conservadorismo é em boa parte determinado pela avassaladora e autoritativa produção científica de Gershom Scholem.
- O avanço na compreensão e no conhecimento da literatura do pensamento místico
- Observa-se o quanto avançou-se na compreensão e no conhecimento, acrescido de uma visão mais apurada da mútua influência entre as várias manifestações da espiritualidade judaica.
- O esclarecimento da hermenêutica cabalística e de conceitos centrais
- O autor ilumina aspectos importantes para o conhecimento da própria hermenêutica cabalística.
- Ajuda a captar e apreender o mundo esotérico judaico, sua teosofia.
- Elucida conceitos centrais como os de deveikut ou unio mystica, assim como o que tange a esfera das técnicas místicas e da teurgia.
Destaca-se dentre os muitos pesquisadores recentes da Cabala apenas alguns nomes notáveis, inclusive entre os chamados Perenialistas.