Études Traditionnelles Ano 41 N. 204 (1936)
- O Mistério do Borobudur
- O Borobudur, obra-prima da arte indo-javanesa construída no centro de Java, é uma charada que permaneceu indecifrada pelos arqueólogos ocidentais até que M. Paul Mus (antigo aluno da Escola Francesa do Extremo Oriente) rompeu o mistério em uma série de artigos.
- M. Paul Mus observa que o fracasso de seus antecessores decorre da recusa em aceitar uma explicação simbólica da arte e da desconfiança em relação à metafísica.
- Os arqueólogos persistem em buscar o segredo da construção na técnica do monumento, enquanto, para os arquitetos hindus ou javaneses, a técnica está a serviço das ideias e princípios, e o construtor é sempre um iniciado.
- A atitude dos arqueólogos ocidentais de se aterem apenas aos "fatos" em exclusão da metafísica é uma "metafísica inconsciente e temível" e de má qualidade.
- Os pretensos "fatos" aos quais os cientistas ocidentais se prendem são abstrações arbitrárias, e o único fato verdadeiro e completo deve corresponder à concepção de seus autores, reunindo em sua unidade os diferentes pontos de vista, incluindo o mais importante, o metafísico.
- M. Paul Mus busca demonstrar que o Borobudur, como toda arquitetura tradicional, é uma representação monumental do espaço e do tempo, ou do espaço-tempo, visto que hindus e chineses nunca separaram estas noções.
- O Borobudur é um esquema cosmológico que possui também, e sobretudo, um simbolismo iniciático.
- Para quem o vê de longe (em elevação e perfil), o Borobudur parece um vasto stupa budista (tumulus hemisférico, de aspecto achatado, contendo ou suposto conter relíquias do Bem-aventurado).
- Para quem o vê em planta (como visto de um avião), o monumento desenha um verdadeiro yantra (analogia assinalada por M. Heinrich Zimmer em "Kunstform und Yoga im indischen Kultbild").
- O plano do Borobudur é formado por cinco andares de plataformas quadradas com recuos, sobrepostas por três andares de degraus circulares, e coroado por um dagoba central em "claires-voies" (treliças) que contém um grande Buda inacabado.
- O monumento é um prasada, um tipo mais antigo de arquitetura hindu, uma pirâmide em degraus, análoga aos ziggurats caldeus e às pirâmides do Egito (como o phnom na língua khmer), que deve ser assimilado ao Monte Meru.
- As escavações revelaram que o conjunto é absolutamente cheio e que, abaixo do nível do solo, está oculta uma primeira base inteiramente coberta por esculturas que figuram o mundo das paixões humanas e infernais.
- Arquitetonicamente, o Borobudur pode ser visto como um stupa (redondo, figurando o céu) envolvendo um prasada (pirâmide em degraus, figurando o mundo manifestado).
- A base quadrada oculta figura a terra, e entre ela e o céu (o stupa redondo) se escalonam os diversos graus do prasada (o mundo intermediário) em torno do eixo do Meru, visível no topo pelo dagoba central que substitui o antigo harmika celeste.
- Nenhuma característica externa do Borobudur (com suas quatro faces cegas atrás dos 436 Budas) revela sua substância espiritual interior ou o Meru terrestre oculto no bloco.
- O interior do Borobudur é profusamente ilustrado: a base é ornamentada com cenas do mundo das paixões, e quatro quilômetros de frisos esculpidos (com cenas dos jatakas budistas) adornam os dois lados das galerias fechadas das cinco terraças quadradas.
- Cada terraço é um caminho horizontal, um mundo fechado, um alicerce cósmico que estende sua amplitude nas quatro direções do espaço.
- Quatro escadas estreitas e íngremes sobem diretamente da base ao topo, sendo as portas que lhes dão acesso em cada andar habilmente dissimuladas, parecendo "fendas sobrenaturais" que se abrem no flanco das montanhas sagradas.
- A dificuldade de penetrar no monumento é simbolizada pelo bloco do Borobudur interior, que é "cheio de fato, mas idealmente oco".
- O Borobudur pode ser considerado, seguindo Saint-Yves d'Alveydre, um verdadeiro arqueômetro, sendo o espécime mais completo da arquitetura oriental.
- A origem da arquitetura hindu está no altar e na sepultura védicos (o altar, sobretudo).
- O Chandogya Upanishad descreve a origem do universo a partir do "não-ser" que se desenvolveu em um ovo, cujas duas metades (uma de prata e outra de ouro) são a terra e o céu, separados pelo sopro da luz cósmica.
- O hemisfério do stupa é um símbolo do ovo do mundo, da bolha cósmica e do polo de ouro celeste, como era o antigo altar védico.
- O simbolismo repousa na identificação do altar védico com o próprio mundo.
- O altar, com seus 10.000 tijolos, é um pequeno cosmos; o altar e o stupa não são uma figura do mundo, mas "o mundo ele mesmo em uma figura".
- O sacrifício humano, um dos ritos védicos de construção, fixava a alma cósmica no edifício sob a forma mortal do microcosmo (uma réplica humana de Purusha).
- O templo, o altar e o túmulo sempre foram associados, sendo que as igrejas católicas são obrigatoriamente construídas em torno de um altar que contém o corpo ou as relíquias de um santo.
- O altar antigo e o stupa mais recente são os protótipos de toda construção humana, incluindo o corpo humano.
- Ao redor do altar e do stupa se estendem os pontos cardeais que regem o espaço, e as estações que regem o tempo.
- Toda construção só tem verdade e realidade por essa correspondência com o universo visível e invisível.
- O Borobudur, em seu aspecto de prasada (pirâmide em degraus) com seus oito andares e oito direções (4 lados e 4 ângulos), oferece a imagem da oitava do mundo, dos oito estádios da realidade e dos oito estados do mundo sutil.
- A equivalência entre os sistemas de divisão em setenário (sete) e oitava (oito) é comum, sendo que o oitavo grau se encontra na esfera inferior terrestre ou, mais geralmente, na esfera do primeiro móvel.
- Os andares do Borobudur encontram sua equivalência nos sete recintos das cidades hindus (como Divapavati) ou nas de Ecbatane, cujas cercas tinham cores diferentes em correspondência com um ciclo planetário (segundo Heródoto).
- O simbolismo espacial do Borobudur (rigorosamente orientado) se transforma imediatamente em simbolismo temporal, como acontece com o altar védico, assimilado à ano, pois ao longo de ambos se realizam os ritos e os dias, imagens dos ciclos.
- A ordem completa do mundo, a procissão dos orientes e o ciclo do tempo (materializado no espaço) constituem a lei (dharma), tornada visível no centro geográfico, político e religioso do país.
- O Borobudur foi construído no centro do império javanês, assim como a cidade de Pataliputra (atual Patna) foi construída no local do Meru (segundo as epopeias).
- O autel, o templo, a cidade, o reino, o mundo e o Meru implicam suas imagens mútuas no mesmo centro.
- Do alto do Meru fluem quatro rios de uma mesma fonte, simbolizados no Borobudur pelas quatro escadas das fachadas.
- O Meru é o polo espiritual do universo, o lugar onde o sol pode fazer uma revolução completa sem descer abaixo do horizonte.
- A iluminação permanente é um dos elos acessórios do simbolismo polar e do simbolismo solar, mas é crucial evitar tomar o significado cosmológico e metafísico do Borobudur por um simples simbolismo solar e real.
- O simbolismo supremo do Borobudur é sobrenatural e se refere à escala dos estados do ser e aos diferentes graus de iniciação.
- As prodigiosas esculturas que se desdobram ao longo das balaustradas internas das cinco terraças quadradas (representando o mundo sutil) ilustram os inumeráveis jatakas budistas (vidas anteriores do Buda) e a procissão indefinida das existências.
- As três terraças superiores (redondas, relativas a um mundo não orientável) representam o céu invisível, sendo nuas e apenas pontuadas pelos 72 dagobas contendo cada um o mesmo Buda sereno e impessoal.
- O peregrino que realiza a pradakshina (a volta das balaustradas e a ascensão das terraças) eleva-se progressivamente de um mundo confuso a um mundo mais sereno.
- O peregrino sai da "vertiginosa miscelânea da roda da vida" esculpida nos flancos das galerias e alcança o horizonte desimpedido das terraças altas, chegando ao Buda do topo, que é inacabado propositalmente.
- O Buda inacabado em seu dagoba de treliças representa a impossibilidade de exprimir o estágio supremo e de concluir algo neste mundo terrestre, bem como a dificuldade de atingir o estado de chakravartin ("monarca universal"), que é o sábio perfeito que, colocado no centro da roda cósmica, a põe em movimento pela sua presença invisível.