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Boosco Deleitoso

ASCETISMO E MISTICISMO — BOOSCO DELEITOSO

Edição do texto de 1515, com introdução, anotações e glossário de Augusto Magne (veja algumas páginas)

Resumo da Apresentação de Augusto Magne

  • O Boosco Deleitoso: Uma Raridade Bibliográfica Quinhentista

    • A 24 de maio de 1515, em Lisboa, foi impresso por Hermão de Campos, bombardeiro del-rei, um livro intitulado Boosco deleitoso, contendo exemplos e falamentos proveitosos para o mantimento espiritual dos corações.
    • Mais de quatro séculos depois, em 1950, na cidade do Rio de Janeiro, esta obra quinhentista é reeditada, enfrentando o desafio de ser acolhida por leitores modernos pouco preparados para suas lições graves e severas.
    • O objetivo do moralista de Quinhentos é dirigir uma ardente defesa da vida solitária às almas enredadas em negócios mundanos, convidando-as a buscarem, ao fim de uma vida agitada, o sossego balsâmico e pacificador do ermo.
    • Apesar do douto razoamento poder não conquistar muitos adeptos, a prosa equilibrada, tímida e fluente da obra, comparada a um regato serpeante por um ameno vergel, possui encantos irresistíveis para os amantes da língua portuguesa.
    • A obra palpita com a alma candorosa e singela da Idade Média portuguesa, saturada de intenso e vigoroso idealismo cristão.
  • Raridade e Autoria do Boosco Deleitoso

    • O Boosco constitui uma raridade bibliográfica, com apenas dois ou três exemplares conhecidos: um incompleto na Biblioteca Nacional de Lisboa e outro na livraria que foi de D. Manuel II, possivelmente o mesmo vendido em leilão pelo livreiro Armando Tavares.
    • Quanto à data de composição, embora impresso no primeiro quartel do século XVI, a análise linguística por J. Leite de Vasconcelos indica uma fase muito mais antiga, dos começos do século XV ou fins do século XIV, podendo ser uma reprodução de uma obra impressa no século XV hoje desconhecida.
    • A pessoa do autor permanece envolta em mistério. Aubrey F. G. Bell e D. Manuel II, em seus estudos, não conseguiram elucidar a questão.
    • Mário Martins foi o primeiro erudito de língua portuguesa a levantar uma ponta do véu, identificando no Brotéria (1944) a profunda influência do De vita solitaria de Francesco Petrarca sobre o Boosco, esclarecendo assim um capítulo da história literária portuguesa.
  • A Influência de Petrarca e o De Vita Solitaria

    • O De vita solitaria de Petrarca, iniciado em 1346 e concluído cerca de dez anos depois, é um elogio da solidão e do silêncio como fontes de tranquilidade espiritual, dedicado ao bispo Filipe de Cabassoles.
    • Divide-se em duas partes:
      • A primeira é uma ardente apologia da vida solitária, onde o conceito eremítico se confunde com o bucolismo clássico, enfatizando o conforto das letras: solitudo sine litteris, exsilium est, carcer, aculeus; adhibe litteras, patria est, libertas, delectatio (A solidão sem letras é exílio, prisão, tormento; com letras, é pátria, liberdade, prazer).
      • A segunda parte multiplica exemplos de solitários, desde patriarcas bíblicos e anacoretas da Tebaida até filósofos e poetas clássicos como Horácio, Virgílio, Cícero e Séneca.
    • Quase metade do Boosco deleitoso reproduz, com leves falhas e interpolações, os capítulos XVI a CXVII do De vita solitaria. O protagonista, "D. Francisco solitário", é o próprio Francisco Petrarca.
    • O compilador português não fez uma mera tradução, mas apresentou um conjunto mais espiritual e poético, adaptando o ascetismo cristão e transformando o arrazoado num cenário onde comparecem os apologistas da vida do ermo.
  • Exemplos de Dependência Textual e Equívocos de Interpretação

    • A versão do Boosco é, por vezes, tão literal que permite esclarecer dúvidas de interpretação ou eliminar lapsos gráficos através do confronto com o original latino.
    • Citam-se exemplos de correspondências textuais, como a descrição de São Bento em ambos os textos.
    • Identificam-se também equívocos de interpretação do compilador, que por vezes não compreendeu o original ou leu erroneamente o manuscrito base:
      • A palavra mures (ratos) é traduzida como se fosse um vocábulo português.
      • O "ancião" (senis) de Terêncio torna-se "o velho filósofo dom Terenciano".
      • Territorii Metensis (termo de Metz) é interpretado como a cidade de "Teritónia".
      • Diversorium viatorum (pousada de caminheiros) é treslido como diversorum viatorum (dos desvairados caminheiros).
      • A exclamação credo, edepol (creio, por Pólux!) é transformada em "aquela casa que chamam Edepol".
    • O Boosco reproduz até trocadilhos petrarquianos, como o jogo entre famem (fome) e famam (fama).
  • Estrutura e Conteúdo das Partes Finais do Boosco

    • A partir do capítulo CXVIII, desaparece da cena "D. Francisco solitário". As últimas partes do livro assumem um carácter mais acentuadamente ascético.
    • O solitário concentra-se na consideração da miséria humana, esboçada em termos vigorosos e impressionantes.
    • Purificado, o penitente é preparado para os arroubos da contemplação sublime, recebendo os últimos retoques da graça até ser introduzido na glória celestial. Estes capítulos tratam de realidades sublimes "que nom podem entender senom aquêles que as provarem".
    • A primeira parte do Boosco, que não figura no De vita solitaria, é de caráter alegórico: um pecador arrependido é conduzido por um "glorioso guiador" (uma figura angelical) a um bosque aprazível e depois à residência das Virtudes (Justiça, Misericórdia, Ciência da Sagrada Escritura, Fé, Esperança, Caridade), que lhe dirigem exortações.
    • Esta alegoria utiliza um artifício literário medieval para dar forma expressiva a conceitos abstratos, tendência da qual nem mesmo Petrarca se subtraiu totalmente.
  • Notas sobre a Presente Edição

    • A edição de 1950 envidou esforços para tornar o precioso cimélio acessível ao maior número de leitores.
    • Foram introduzidas subdivisões no texto para quebrar a monotonia, simplificada a grafia (sem prejuízo da genuinidade), adicionada pontuação, abertas alíneas e sinaladas com itálico as leves inovações necessárias para clareza.
    • Para os medievistas, é reservado o fac-símile do texto de 1515, que fará parte de uma "Biblioteca fac-similar e crítica de literatura medieval e quinhentista".
    • Um segundo volume trará excursos elucidativos e um extenso glossário.
    • Nota-se que o filólogo português Abílio Roseira preparava uma edição crítica do Boosco quando faleceu prematuramente, informação dada pelo humanista Rebêlo Gonçalves.