Skip to main content
id da página: 131 Boehme – Vida Suprassensual Jacob Boehme

Boehme Vida Suprassensual

Jacob Boehme — DA VIDA ALÉM DOS SENTIDOS

Diálogo em forma de questões e respostas, da época madura deste místico. Existe uma versão em inglês, devida a William Law (VEJA AQUI) e uma versão em francês atribuída a Louis-Claude de Saint-Martin. A primeira está disponível no ótimo site Pass-the-Word que reúne um amplo acervo digital de obras de diferentes autores cristãos, como William Law, Jane Leade, e outros. A segunda encontra-se dividida em partes em nosso site francês, e na íntegra em formato digital no site da Biblioteca Nacional da França. Foi a partir desta última que iniciamos a tradução nesta página.

Existe também uma versão brasileira, muito bem cuidada, em forma de livro à venda, traduzido por Américo Sommerman, que vem traduzindo com sucesso as obras de Boehme para o português: A Sabedoria Divina — o caminho para a iluminação.

A tradução a seguir é baseada na publicação bilíngue da editora Arfuyen (alemão-francês), onde a versão francesa é feita por Gérard Pfister (De la vie au delà des sens).


DA VIDA ALÉM DOS SENTIDOS (ou DA VIDA SUPRA-SENSUAL)

Ou a conversa de um Mestre com seu discípulo sobre a maneira pela qual uma alma pode ascender à visão ou à escuta divinas, sobre o que é sua infância na vida natural e sobrenatural, sobre a maneira pela qual, saindo da natureza, ela penetra em Deus e, saindo de Deus, retornam à natureza de sua existência própria, e sobre o que são sua beatitude e sua perda.

Escrito no ano de 1622 por Jacob Boehme.


1

O discípulo demandou ao Mestre:

«Como posso ascender à vida além dos sentidos, de sorte que veja Deus e O ouça falar?»

E o Mestre lhe disse:

Se podes um instante te lançar neste lugar que não habita nenhuma criatura, então ouves o que Deus diz.


2

«Este lugar está próximo, demandou o discípulo, está longe?

— Está em ti, disse o Mestre. E se podes durante uma hora fazer silêncio de todo teu querer e de todo teu pensamento, então ouvirás as palavras inexprimíveis de Deus.»


3

«Como posso ouvir se me mantenho no repouso do pensar e do querer?

— Quando te manténs no repouso do pensar e do querer de tua existência própria, então a escuta, a visão e a palavra eternas se manifestam em ti, e Deus ouve e vê para ti.

«Tua própria escuta, teu próprio querer, tua própria visão, eis o que te impede de ver e de entender Deus.


4

«Por qual meio me é necessário ouvir e ver Deus se está além da natureza e da criatura?

— Quando te calas e repousas, então tu és isso que era Deus antes da natureza e antes da criatura, isso do qual Ele fez tua natureza e tua criatura.

Então tu O ouves e o vês por isso mesmo pelo que Deus via e ouvia em ti antes que não começassem teu próprio querer, tua própria visão e tua própria escuta. »


5

Logo o que é que me retém de ascender a este lugar?

— Teu próprio querer, tua própria visão e tua própria escuta, e que te esforces contra isso de onde és vindo.

«Por teu próprio querer, te apartas do querer de Deus. Por tua própria visão, não vês que em teu querer próprio, e teu querer obstrui tua escuta pela sensualidade própria das coisas terrestres e naturais.

«Ele te introduz em um fundo e te recobre da sombra disso que queres, de sorte que não podes ascender a isso que está além da natureza, além dos sentidos.»


6

Posto que estou na natureza, como posso no entanto ascender pela natureza ao fundo que está além dos sentidos sem quebrar a natureza?

— Três coisas são aqui necessárias.

«A primeira é que remetes tua vontade à Deus e que te afundes inteiramente em sua misericórdia.

«A outra coisa é que odeies tua vontade própria e não faças o que ela te empurra.

«A terceira é que te submetas com paciência à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de poder sustentar a tentação da natureza e da criatura.

«Se fazes isso, Deus falará em ti e introduzirá tua vontade abandonada nele, no fundo sobrenatural.

«Então ouvirás o que diz em ti o Senhor.»


7

Se fizesse isso, precisaria que abandonasse o mundo e minha vida?

— Se abandonas o mundo, acedes a isso de cujo o mundo foi feito.

«E se perdes tua vida e chegas ao desfalecimento de teu poder, tua vida permanece nisso pelo amor do que tu a abandonou, quer dizer em Deus, de onde ela saiu para tomar corpo.


8

«Deus criou o homem na vida natural para que domine todas as criaturas sobre a terra e seja senhor sobre todas as vidas neste mundo. Logo é certamente preciso que as possua em propriedade?

— Se é somente de uma maneira exterior que dominas as criaturas, te comportas com tua vontade e tua dominação segundo um modo bestial: não estás senão em uma dominação imaginária, passageira. E introduz igualmente teu desejo em uma essência bestial de que és infectado e cativado e recebes igualmente um modo bestial.

«Mas se abandonastes o modo imaginários, então te encontras nisto que está além das imagens e dominas todas as criaturas no fundo de onde elas foram criadas. E nada na terra não pode te perturbar, pois todas as coisas te são indiferentes e nada há que não te seja indiferente. »


9

«Caro Mestre, ensine-me como posso além do mais ascender a este estado onde todas as coisas me sejam indiferentes.

— Com prazer. Lembras-te das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo quando disse (Reino dos Pequeninos): Em verdade, se não vos converteis e não vos tornais como as crianças, não vereis o reino de Deus (Mt 18,3).

«Logo se queres que todas as coisas se tornem indiferentes para ti, deves abandonar todas as coisas e desviar delas teu desejo e não as cobiçar nem te preocupar em possuir em propriedade qualquer coisa que seja. Pois em seguida que te apreendas este algo em teu desejo e o acolhas e o tomes em propriedade, este algo se torna contigo mesmo coisa e age contigo em tua vontade. É então responsável de protegê-lo e dele tomar conta seja como de tua própria existência.

«Mas se não deixas nada entrar em teu desejo, é livre de todas as coisas e dominas subitamente ao mesmo tempo todas as coisas. Pois não tens nada em tua preocupação, e és para todas as coisas um nada, e todas as coisas te são elas também um nada. És como uma criança que não compreende o que é uma coisa. E se mesmo o compreendesses, se o compreendesse sem que não seja de maneira alguma tocada tua sensibilidade, segundo o mesmo modo pelo qual Deus domina e vê todas as coisas, e no entanto nenhuma coisa tem preensão sobre Ele.

«Mas me demandavas isto: que te ensine como poderias ascender a este estado. Logo vês as palavras do Cristo que dizia isso: Sem mim nada podeis fazer (Jo XV,5). Não podes por teu próprio querer ascender a um repouso tal que não te toque nenhuma criatura, a menos que não te remetas inteiramente na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, e não Lhe cedas inteiramente teu queres e teu desejo, e não queiras nada sem Ele. És então por teu corpo no mundo, entre as propriedades, e por tua razão sob a Cruz de Nosso Senhor o Cristo; mas por tua vontade vives no céu e és para este fim de onde vêm todas as criaturas e onde todas elas retornam.

«Podes então olhar todas as coisas exteriormente pela razão e interiormente pelo coração, e reinar em e sobre todas as coisas com e pelo Cristo a quem todo poder é dado no céu e sobre a terra (Mt 18,18). »


10

«Ó Mestre, as criaturas que vivem em mim me impedem de me abandonar inteiramente como eu o queria!

— Se tua vontade sai das criaturas, então as criaturas são em ti abandonadas e são no mundo: e só teu corpo está junto às criaturas, mas tu vives espiritualmente com Deus.

«E se tua vontade abandona as criaturas, nela as criaturas estão mortas e elas não vivem senão no corpo, no mundo. E se tua vontade não se introduz nelas, elas não podem tocar tua alma.

«Pois São Paulo disse: Já vivemos no céu (Fil III,20). E: Sois o templo do Espírito Santo que habita em vós (1Co VI,19). É assim que o Espírito Santo habito na vontade, e que as criaturas habitam no corpo.»


11

«Se o Espírito Santo habita na vontade do coração, como posso me guardar para que ele não se retire de mim?

— Ouça a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo que dizia: Se permaneceis em minha palavra, minha palavra permanecerá em vós.

«Logo se permaneces por tua vontade na palavra do Cristo, sua palavra e seu espírito permanecem em ti. Mas se tua vontade vai às criaturas, então te apartas dEle.

Assim não podes te guardar de outro modo senão permanecendo sempre em uma humildade abandonada e em te doando a uma perpétua e constante penitência, a fim de que sempre te habite a lamentação de que as criaturas vivam em ti.

«Se fazes isso, estás em uma morte cotidiana das criaturas e em uma ascensão cotidiana da vontade. »


12

«Ó meu caro Mestre, ensine-me no entanto como posso ascender a esta penitência contínua?

— Se abandonas isso que te ama, e se amas isso que te detesta, podes em permanência aí te encontrar. »


13

Que quer dizer isso?

— Tuas criaturas na carne e no sangue, assim como todas aquelas que te amam, é porque tua vontade cuida que elas te amam. É elas que tua vontade deve abandonar e ter por inimigas.

E se odeias a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo de todo o desprezo do mundo, é ela que deves aprender a amar e a tomar para exercício cotidiano de tua penitência.

«Assim terás sempre razão de te odiar com as criaturas e de buscar o repouso eterno onde tua vontade possa repousar como dizia o Cristo: em mim tereis o repouso, mas no mundo tereis a angústia.»


14

«Como posso nesta tentação me satisfazer?

— Se, uma vez a cada hora, te lanças fora de todas as criaturas, além de toda razão sensível, na mais pura misericórdia de Deus, no sofrimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, e se te remetes nelas, então receberás a força de dominar o pecado, a morte, o inferno, o diabo e o mundo.

«Assim poderás bem se manter em toda tentação.»


15

«Como a mim, pobre homem, poderia bem me advir de ascender pelo coração a este lugar onde não está nenhuma criatura?

— Ó meu caro discípulo, lhe respondeu o Mestre com grande benevolência, se tua vontade pudesse uma só hora se desprender de toda criatura e se lançar neste lugar onde não está nenhuma criatura, ela seria revestida do mais alto brilho da majestade de Deus. Ela saborearia nela o amor o mais doce de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nenhum homem não poderia exprimir, e experimentaria nela as palavras inexprimíveis de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua grande misericórdia.

«Ela sentiria nela que a Cruz de Nosso Senhor o Cristo mudou-se para ela em um suave benfazer. E ela amaria melhor conquistar isto que todos as honras e todos os bens do mundo.»


16

Mas que adviria de seu corpo, posto que deves viver na criatura?

— O corpo seria posto à imitação de Nosso Senhor o Cristo que dizia que seu reino não era deste mundo. Ele começaria do lado de fora e do lado de dentro a morrer.

«Fora, à vaidade e às más ações do mundo: e se tornaria inimigo e contrário a toda lascividade.

Dentro, a toda concupiscência e inclinação má: e receberia verdadeiramente um sentido e um querer novo, que seriam continuamente voltados para Deus.


17

«O mundo no entanto o odiaria e o desprezaria porque lhe seria preciso contradizê-lo e viver de outro modo, e agir de outro modo que ele?

— Ele disso não se preocuparia como se se encontrasse tocado de uma infelicidade.

«Ao contrário, ele se deleitaria de ter se tornado digno de assemelhar à imagem de Nosso Senhor o Cristo, e levaria voluntariosamente a seu exemplo esta Cruz, a fim que ele nele faça correr seu muito doce amor.


18

Mas que adviria dele se, de dentro, a cólera de Deus, e de fora, a malignidade do mundo o assaltassem, como adveio a Nosso Senhor o Cristo?

— Lhe adviria como a Nosso Senhor o Cristo.

«Quando ultrajado e crucificado pelo mundo e pelos sacerdotes, remeteu sua alma entre as mãos de seu Pai e deixou a angústia deste mundo pela alegria eterna.

«Ele também, deixando o escárnio e a angústia do mundo, penetraria nele mesmo no grande amor de Deus, e seria fortificado e mantido pelo muito doce Nome de Jesus.

«Veria e sentiria nele um mundo novo penetrar através da cólera de Deus. Enveloparia sua alma e teria todas as coisas por indiferentes: que o corpo esteja no inferno ou sobre a terra, desde que seu coração esteja no maior amor de Deus.»


19

«Mas como seu corpo seria alimentado no mundo, como alimentaria os seus se a desgraça do mundo inteiro caísse sobre ele?

— Ele recebe uma graça maior que o mundo não pode oferecer, pois tem Deus e todos seus anjos por amigos, que o protegem em toda necessidade.

«Deus é sua alegria em todas as coisas: e se parece que deseja esta alegria, isto não é portanto senão uma provação e uma atração do amor a fim de que ore a Deus mais ainda e Lhe remeta todas suas vias. »