Études sur la Psychologie des Mystiques, par JOSEPH MARÉCHAL, S. J. (Bruxelles, 1937)
Contemporânea de Hadewijch, e por ela conhecida, Beatriz exerceu o cargo de prioresa no mosteiro das Bernardinas de Nazaré, próximo de Lierre. Seu nome foi inscrito no martirológio de sua Ordem com o título de “bem-aventurada”; talvez tenha até sido objeto de um “culto público”. Pouco tempo após sua morte, uma biografia, composta em latim a partir das Notas nas quais ela registrava suas experiências místicas, forneceu novo alimento à veneração que cercava sua memória. Trechos dessa biografia, até então inédita, foram publicados pelo padre Reypens; permitir-se-á aqui escolher, conforme a conveniência, algumas passagens 1 . Observa-se que o biógrafo medieval não apenas relata com base nos documentos que tinha diante de si, mas, sempre que o assunto o permite, disserta por conta própria como teólogo do final do século XIII: por ambos os aspectos, suas palavras interessam-nos.
Eis, portanto, o que se lê na seção do manuscrito intitulada De eo quod rapta fuit (Beatrix) in choro seraphin. “In choro seraphin”: isto é, no grau mais elevado de contemplação a que pode alcançar um espírito criado.
“E sem demora, tendo ela permanecido por algum tempo ocupada nessas coisas, foi subitamente despojada dos sentidos corporais e, por um excesso de contemplação, arrebatada às realidades celestes; e nesse coro sublime, o mais próximo da presença divina, a serva de Deus Beatriz, arrebatada em espírito divino, em mente e não em corpo, não transportada pela carne, mas pela alma, foi colocada. Ali, de modo admirável, reconheceu ter-se tornado espírito seráfico e compreendeu claramente, por revelação divina, que fora destinada a unir-se plenamente a eles no mesmo ofício de louvor e ação de graças, conformando-se a eles em tudo.” (Reypens, art. cit., p. 430)
“Aí, mereceu contemplar a essência divina, em toda a plenitude de sua glória e perfeitíssima majestade, contendo em seu poder todas as coisas, governando o universo e ordenando cada ser; e, ao compreender esse seu Criador, aderindo firmemente a Ele num inefável abraço de deleitação, louvando e ardendo, repousou numa felicidade suprema e incompreensível aos sentidos humanos.” (Ibid.)
“Mas, tendo permanecido por breve tempo nessa inestimável bem-aventurança da contemplação, reconheceu, por revelação do Espírito Santo, que não poderia permanecer por mais tempo naquela dulcíssima fruição da alegria celeste, na qual ainda não merecera permanecer eternamente, devendo ser logo reconduzida à morada da carne; mas que, uma vez concluído o curso da presente vida, tendo-se aperfeiçoado nas virtudes e alcançado o cume da perfeição, então, enfim, seria transferida às celestiais moradas para esse mesmo lugar de bem-aventurança, preparado para ela desde o princípio por Deus, onde reinaria consigo sem fim e gozaria de alegrias eternas.” (Ibid., p. 431)
Em seguida, vem o comentário do teólogo: as objeções que ele teme e os lugares-comuns com os quais ele se cobre podem não nos ajudar muito a entender o estado de espírito de Beatriz, mas nos dizem como um caso tão surpreendente, facilmente assimilado pela piedade ingênua, teve que ser colocado dentro de uma estrutura teórica de possibilidades já reconhecidas pela Escola para ser aceito pelos "eruditos". Portanto, nosso biógrafo agora vai falar "non tam ad eruditionem simplicium quam ad confutationem loquacium" (art. cit., p. 433):
“Presta atenção, leitor, pois são grandíssimas as coisas de que falamos, e tanto mais raras em nossos tempos quanto menos vemos quem ascenda já ao cume da perfeição apostólica. Com efeito, que outra coisa diremos senão que a nossa Beatriz elevou-se ao auge da santidade apostólica, ela que, ainda neste século, enquanto constituída em corpo, mereceu por um tempo recrear-se nas alegrias celestes e, antes de depor o fardo da carne e cumprir a dívida da condição humana, saboreou, por uma experiência momentânea, as recompensas daquela bem-aventurança eterna?
Com efeito, lemos que o doutor das nações, Paulo, ainda não totalmente liberto deste cárcere, quer em corpo quer fora do corpo, foi arrebatado até o terceiro céu e ouviu palavras secretas que não é lícito ao homem pronunciar. Julgar-se-á que essa visão não difere muito daquela, se houver quem investigue plenamente o modo e a ordem da visão apostólica. Com efeito, aquele é descrito como arrebatado ao terceiro céu; esta, como elevada pelo Espírito divino ao coro dos serafins. Pois o que diremos ser o terceiro céu ao qual Paulo foi arrebatado, senão a terceira, isto é, a suprema hierarquia dos bons espíritos, na qual se contêm os tronos, querubins e serafins? E ainda que não ouse equiparar os méritos de Beatriz aos méritos daquele beatíssimo príncipe dos apóstolos, Paulo — pois este trabalhou mais do que todos —, todavia, não direi temerariamente que o modo de uma e outra visão não seja semelhante, visto que ambas foram realizadas pela ação do mesmo Espírito e consumadas, quase da mesma maneira, na mesma ordem.” (Ibid., p. 431)
No terreno assim preparado, o biógrafo lança uma lança contra os argumentos do "loquaz":
“Mas haverá talvez quem julgue temerário eu proferir tais coisas, sobretudo porque, ainda que ninguém duvide de que o apóstolo Paulo foi elevado ao terceiro céu, lê-se, de fato, que ouviu palavras secretas que não é lícito ao homem pronunciar, mas não que tenha contemplado o rosto de Deus, especialmente quando isto foi negado pelo Senhor ao próprio Moisés, que o pediu: ‘Minha face, disse Ele, não poderás ver; pois nenhum homem me verá e viverá.’” (Ibid., p. 431–432)
“Que responderei, então, a essa objeção tão forte, eu, de engenho tão pobre? Certamente aquilo que lemos ter sido respondido pelos santos Padres e insignes doutores — a saber, Agostinho, Haímon e os demais intérpretes da Sagrada Escritura — a esse mesmo ponto...” (Ibid.)
“Um desses, com efeito, o disertíssimo Haímon, homem notabilíssimo e de grande autoridade na exposição da Sagrada Escritura, ao comentar estas palavras de Paulo aos Coríntios, depois de algumas observações preliminares, acrescentou o seguinte: — ‘Foi arrebatado e elevado’, disse ele, ‘à visão intelectual, que é significada pelo terceiro céu. Ali não apenas viu, pelo entendimento, as coisas que se encontram no céu espiritual, mas também contemplou a própria substância de Deus, o Verbo divino por meio do qual todas as coisas foram feitas, na caridade do Espírito Santo — não por meio do corpo, nem por semelhança corporal, mas como a própria Verdade é contemplada nesta vida: a saber, de que modo Deus onipotente é Trindade nas pessoas e unidade na substância, assim como será visto por todos os santos, após a ressurreição geral, na pátria celestial.’ — Tendo dito isso sobre a visão apostólica, acrescenta imediatamente, em solução da questão proposta...” (Ibid.)
Segue-se o texto de Haímon, no qual está inserida a passagem de Santo Agostinho (De videndo Deo), tantas vezes reproduzida pelos teólogos medievais: “... e não seja incrível que também a alguns santos tenha sido concedida esta excelência de visão, ainda não totalmente mortos, de modo que restassem os cadáveres a serem sepultados.” (Ibid., p. 432–433)
“Com tais palavras, segundo opina o biógrafo, não se negou de modo algum que essa excelência de visão, concedida ao apóstolo, possa também ser conferida a outros santos.” (Ibid.)
Em um artigo citado anteriormente (p. 289, n. 2), o padre Reypens demonstra, por meio de outras passagens não menos explícitas, que Beatriz, tendo alcançado a etapa suprema do “matrimônio espiritual”, acreditou ter sido favorecida várias vezes com visões trinitárias, na contemplação imediata da essência divina. Diante de tais sublimes experiências, os contemporâneos da extática, testemunhas de sua vida e primeiros leitores de sua biografia, em geral não se escandalizaram. O próprio biógrafo, que declara ter feito uma seleção nas confidências de Beatriz e sacrificado o relato de maravilhas transcendentes demasiado difíceis de compreender, assume ao menos com coragem a responsabilidade daquilo que conservou para edificação dos leitores. E mesmo isso, que seu infeliz escrúpulo permitiu subsistir, não era, há de se reconhecer, algo de pouca importância: tratava-se simplesmente do “perfectus mentis excessus” (nona maneira de ver Deus), que Guigo do Pontal, aproximadamente na mesma época ou um pouco mais tarde, situava no ápice extremo da contemplação terrena (ver acima, p. 279 e 283–284).
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