A imagem que os ocidentais fazem do tantrismo geralmente decorre de certas manifestações espetaculares e degeneradas que tiveram a ocasião de ver ou, muito mais frequentemente ainda, que lhes foram descritas depois de ter passado por numerosos intermediários. Por outro lado, certos autores ocidentais que não tinham praticamente nenhum conhecimento publicaram sobre este assunto livros de uma completa fantasia, fazendo crer que tinham uma experiência direta, e infelizmente tais obras tiveram muito sucesso de livraria.
Também somos muito tentados a tomar o tantrismo por um conjunto de práticas muito pouco recomendáveis, mais orientadas para a sensualidade e a sexualidade do que para a espiritualidade, que se prosseguem em um segredo propício à magia negra e às orgias mais abomináveis.
No entanto, acontece que os maiores mestres espirituais da Índia moderna reivindicam altamente sua pertença às escolas sobre as quais fazemos pesar tão graves suspeitas. Shri Ramakrishna tinha pessoalmente feito a experiência completa das sessenta e quatro disciplinas tântricas. Shri Aurobindo nos dizia ele mesmo que se considerava mais tantrista do que vedantista, e isso aparece aliás a todos os leitores avisados de suas obras.
Ma Ananda Moyi, Mahamahopadhyaya Pandit, Gopinath Kaviraj não escondem que eles também o são. E quando em Benares, no lugar santo do shivaismo, os monges mais rigorosamente advaitistas, discípulos de Shankara, chegaram ao ponto supremo de sua disciplina, à consciência do Absoluto, ao nirvikalpa samadhi, eles solicitam, para ir mais longe, o favor de adorar a Deusa sob seu aspecto supremo de Rajarajeshvari. Isso aliás só surpreende os ocidentais, pois todos os hindus sabem muito bem que o mestre de todos os advaitistas, Shankaracharya, era um grande adorador da Mãe Divina, a quem ele dedicou seus mais belos hinos.
Na realidade, pode-se, sem dúvida, contar nos dedos os ocidentais que foram verdadeiramente iniciados nos ensinamentos e nos cultos extremamente herméticos que o tantrismo comporta.
No entanto, em tal disciplina, a instrução só é dada pelo Guru ao discípulo muito progressivamente, à medida que este último mostra ao mesmo tempo que assimilou tudo o que lhe foi dado e que é digno de receber mais. Os lamas tibetanos só acedem aos mais altos graus depois de estudos que podem se prolongar por sessenta anos, durante cada um dos quais eles podem ser chamados não apenas a memorizar mil páginas de textos terrivelmente árduos, mas ainda a colocá-los em prática.
Mais do que em outros ensinamentos da mesma ordem, nos textos que são transmitidos, e dos quais uma fraca parte apenas foi colocada por escrito e muito menos ainda impressa, o autor permanece voluntariamente obscuro e ambíguo, e a posse material de tal documento permanece sem nenhuma utilidade para aquele a quem um mestre não vem explicá-lo. Além disso, todos esses textos comportam um número às vezes importante de significados sucessivos, todos autênticos e nenhum contradizendo os outros, mas cada um indo mais longe e mais alto do que aqueles de caráter mais exotérico.
O autor do presente volume é um desses raros europeus que receberam autênticas iniciações, e se os livros importantes que ele publicou e traduziu do sânscrito são muitas vezes quase ininteligíveis, não é por sua culpa, mas em consequência da natureza mesma do texto e em consequência também de que o tradutor não pôde revelar a compreensão esotérica que ele tinha obtido senão na fraca medida em que seu instrutor mesmo lho permitiu. É por isso que os textos que o próprio Arthur Avalon compôs, se vão infinitamente menos longe do que as obras sânscritas comunicadas por ele, são muito mais acessíveis e podem nos trazer um conhecimento que, sem ser aprofundado, não tem menos o mérito de ser verídico. É o caso de “a Potência da Serpente” que o Sr. Charles Vachot traduziu em francês tão bem quanto é possível fazê-lo.
É preciso, no entanto, advertir solenemente o leitor contra a tentação à qual ele poderá ser submetido de tentar na prática o que ele terá compreendido ou crido compreender desses ensinamentos. Justamente porque eles são absolutamente verdadeiros e extremamente poderosos, eles são infinitamente perigosos. Aquele que se aventura sem ser guiado por um mestre autêntico — o que é quase certamente impossível no Ocidente — se encontrará em uma situação muito análoga a uma criança que se deixaria brincar com todas as drogas que guarnecem uma farmácia, ou se passear com uma tocha em uma loja de fogos de artifício. Distúrbios cardíacos incuráveis, destruição lenta da medula espinhal, desordens sexuais e loucura esperam aqueles que se arriscam. Jean Herbert