Oitenta são certas almas cristãs que estão unidas ao Senhor somente pela fé, mas não pelas obras. Delas se escreve no Cântico dos Cânticos (6, 8): “Há sessenta rainhas — isto é, as almas dos perfeitos — e oitenta concubinas”. (Sobre o significado místico dos números, de Rábano Mauro)
Irineu de Lyon Contra as Heresias
15,2. Jesus tem, diz ele, esta origem inefável. Da Mãe de todas as coisas, isto é, da primeira Tétrada, teve origem, como filha, a segunda e se formou a Ogdôada da qual derivou uma Década e assim se formou o número dezoito. Ora, a Ogdôada multiplicada por dez produziu o número oitenta, multiplicada outra vez por dez deu oitocentos, de forma que o número total das letras que se forma dos produtos das Ogdôadas pelas Décadas é oito, oitenta e oitocentos (888), isto é, Jesus (Iesous). Jesus, conforme os números correspondentes às letras gregas, dá como total 888. Eis claramente, segundo eles, a origem supraceleste de Jesus. Por isso o alfabeto grego tem oito unidades, oito dezenas, oito centenas que indicam o número 888, isto é, Jesus, que se compõe de todos os números e é chamado alfa e ômega, que significam a sua origem de todos. E ainda desta maneira: somando-se progressivamente os números da primeira Tétrada, aparece o número 10; de fato 1+2+3+4=10. Este número, representado pelo io ta, ele o identifica com Jesus. Diz também que Cristo (Chreistós) tem oito letras e que por meio delas é indicada a primeira Ogdôada que, combinada com o número 10, produziu o número 888. Diz-se ainda, acrescenta ele, Filho Cristo, e temos a Duodécada: Yihòs tem quatro letras e Chreistós oito, que somadas mostram a grandeza da Duodécada. Antes que o número insigne deste Nome, isto é, Jesus, aparecesse aos filhos, os homens encontravam-se em grande ignorância e erro, mas quando foi manifestado o nome com seis letras, revestido de carne para descer até a sensibilidade do homem, tendo em si mesmo o seis e o vinte e quatro, então os que o conheceram deixaram de ser ignorantes e passaram da morte à vida, porque este nome se tornou para eles o caminho que os conduziria ao Pai da Verdade. O Pai de todas as coisas, com efeito, decidiu eliminar a ignorância e destruir a morte. Ora, a eliminação da ignorância era a gnose do Pai. Por isso foi escolhido o homem estabelecido na sua vontade à imagem da Potência do alto.
Barnstone, The Other Bible, HAGGADAH
Há oitenta miríades de árvores em todos os cantos do Paraíso, sendo que a mais simples entre elas é mais seleta do que todas as árvores de especiarias. Em cada canto há sessenta miríades de anjos cantando com vozes doces, e a árvore da vida fica no meio e sombreia todo o Paraíso. Ela tem quinze mil sabores, cada um diferente do outro, e seus perfumes também variam. Sobre ela pairam sete nuvens de glória, e sobre ela sopram ventos de todos os quatro lados, de modo que seu odor é levado de um extremo a outro do mundo. Embaixo, sentam-se os eruditos e explicam a Torá. Sobre cada um deles estão estendidos dois dosséis, um de estrelas e outro de sol e lua, e uma cortina de nuvens de glória separa um dossel do outro. Além do Paraíso, começa o Éden, contendo trezentos e dez mundos e sete compartimentos para sete classes diferentes de piedosos. No primeiro estão "as vítimas mártires do governo".
Philon
Por que se diz que Abraão tinha oitenta e seis anos quando Agar lhe deu à luz Ismael? Porque o número que segue oitenta, isto é, seis, é o primeiro número perfeito, sendo igual às suas partes, e sendo o primeiro número composto pela multiplicação de um número ímpar e de um número par; recebendo também algo de sua causa eficiente segundo o número ímpar ou redundante, e de sua causa material e efetiva segundo o número par. Por esta razão, entre os mais antigos de nossos antepassados, alguns o chamaram matrimônio, e outros harmonia; e o nosso historiador sagrado também dividiu a criação do mundo em seis dias. Mas, entre os números, oitenta exulta em perfeita harmonia, pois é composto de dois generosos diâmetros em proporção dupla e tripla, segundo a figura de um quadrado de quatro lados. E contém em si todas as quatro inferências: a aritmética, a geométrica e a harmônica. Sendo, em primeiro lugar, composto de números duplos, como seis, oito, nove, doze, cuja união faz trinta e cinco; em segundo lugar, de número triplo, seis, nove, doze, dezoito, cuja soma alcança quarenta e cinco. E destes dois números, trinta e cinco e quarenta e cinco, completa-se o número total oitenta. Ainda, quando o próprio historiador sagrado Moisés começou, por inspiração divina, a proclamar os preceitos oraculares que lhe haviam sido confiados, tinha oitenta anos de idade. E o primeiro homem de nossa nação que existiu segundo a lei da circuncisão, sendo circuncidado no oitavo dia, eminente em virtude, traz o nome da alegria, sendo chamado Isaac na língua caldaica, e Isaac significa riso; sendo naturalmente chamado assim porque a natureza se alegra ou ri de todas as coisas, não se irritando com nada do que acontece no mundo, mas antes contemplando com complacência tudo quanto ocorre, como se fosse bem e proveitosamente realizado.
Giovanni Filoramo
Com o seu Panarion (Caixa de Remédios) (374–7), pretendia oferecer um antídoto confiável àqueles que haviam sido mordidos pelo veneno da heresia, bem como proteção e encorajamento àqueles que haviam permanecido fiéis à fé. Não há dúvida de que a heresia florescia naquele tempo: basta pensar nas intermináveis controvérsias teológicas iniciadas por Ario. Que os grupos gnósticos continuavam a prosperar é questão de menor incerteza. Contudo, é significativo que Epifanio, em alguns casos, tenha tido experiência direta com os seus opositores (ver capítulo 11 abaixo). Que as heresias, desde Simão Mago até as de seus contemporâneos, os Messalianos, reapareçam e sejam reunidas ao número profético oitenta, ao qual Epifanio as limita, constitui mais um exemplo do amor antigo pela especulação aritmética (cf. o paralelo das oitenta concubinas em Cântico dos Cânticos 6:8) e certamente não um fato histórico real. O material heresiológico é subdividido ou multiplicado de acordo com este esquema numérico, com resultados e problemas para o estudioso moderno que facilmente se podem imaginar. Ademais, Epifanio, com o seu ódio tertulianesco pela especulação filosófica ou teológica demasiadamente ousada (ao qual se pode acrescentar sua incapacidade de compreendê-la, diferentemente do escritor africano), aparece como a antítese exata do método científico moderno. Os hereges são, por fim, relegados a uma linhagem genealógica cada vez mais fantástica, pintada nas cores mais sombrias, acusada dos piores pecados e condenada às penas mais severas.