FUNDAÇÃO DE TOMAR
Já em Portugal, Gualdim Pais é nomeado comendador da casa de Braga da Ordem dos Templários. E desse cargo ascenderá ao mestrado da Ordem em Portugal.
A primeira questão que se lhe põe é a da defesa do coração do reino, Coimbra. Tratava-se, concretamente, de defender a via romana que, partindo de Santarém, através do vale de Tomar, dava acesso a Coimbra; e, por outro lado, evitar que uma travessia do Tejo fizesse cair novamente nas mãos dos muçulmanos as cidades de Santarém e Lisboa. «Havia que criar uma linha de fortes avançados sobre o próprio Tejo, reconstruindo os castelos de Mouriol (Almourol), Cardiga e Ozêzar (Praia do Ribatejo), reforçar a cintura de Coimbra com castelos em Pombal, Redi-nha e Ega, e, enfim, criar uma potente fortaleza, impedindo a progressão pela via romana. Para esta, que seria a cabeça da Ordem, foi escolhida Ceras, o antigo Castro Caesaris, onde os romanos, bons estrategas, haviam edificado uma fortaleza que defendia a via à entrada de um desfiladeiro, e a cujos pés a ribeira de Ceras constituía um obstáculo natural (...) Gualdim Pais mandou um dos seus subordinados, Richaldo, proceder a um reconhecimento da região de Ceras. Richaldo não gostou do local, mas quis a sorte que andasse por ali à caça um monteiro que lhe disse que duas léguas a sul havia as ruínas duma velha cidade de que ainda restavam igrejas, uma que outra casa, e muito material de construção e boas águas. Logo para ali seguiu Richaldo e, confirmado «de visu» o fato, apressou-se a ir apresentar ao seu mestre o relatório verbal do reconhecimento».
«Seguido do seu séquito, dirigiu-se Gualdim Pais para Sellio, mas achou o lugar demasiado plano para nele erigir fortaleza. Contudo, no outro lado do «Rio das Doces Águas» estendia-se, em forma de segmento geométrico, uma planície com a sua meia légua na corda e umas trezentas varas na flecha, cortada por três ribeiros, chamados mais tarde de São Gregório, de Riba Fria e da Água das Maias (...) Achou D. Gualdim Pais o sítio azado, pois dominava o vale do Nabão e a via romana, e logo determinou ali construir a sede da Ordem do Templo. Segundo a lenda, hesitou-se por algum tempo qual dos três montes maiores escolher. Deitada a sorte por três vezes, sempre ela designou o monte entre a ribeira de São Gregório e a Riba Fria».
«E, segundo reza a lápide que se encontra no castelo, que pelo seu grande valor histórico transcrevemos na íntegra, em linguagem corrente,
«Era de 1160 reinando el-rei de Portugal D. Afonso: Gualdim Pais, mestre dos soldados portugueses do Templo, com seus soldados: em o primeiro dia de Março começou a edificar este Castelo: por nome Thomar: o qual castelo o dito rei ofereceu a Deus e aos soldados do Templo.»
«Servindo-se dos materiais da antiga cidade de Além da Ponte (muitas pedras ainda hoje mostram as suas velhas inscrições romanas), depressa se ergueu no alto do monte uma potente fortaleza, feita com todos os requisitos da arte bélica então em uso na Palestina, onde Gualdim Pais e seus companheiros colheram as últimas novidades castrenses. Tal como o famoso Krak-dos-Cavaleiros, construído em 1145 para defesa do condado de Trípolis pela Ordem do Hospital, possuía duas cintas de muralhas ameadas: a interior ligava a Torre de Menagem (o actual castelo) à Charola, construída em estilo romano-bizantino sob a inspiração do templo de Jerusalém. A exterior, de que ainda hoje restam os panos oriental e meridional, seguia, depois da torre da Condessa, rumo a norte, pela encosta do vale do Chouso (...) Como o Krak-dos-Cavaleiros, ainda hoje se podem ver nela a conjunção de cubelos e torres redondas; e a flagrante semelhança entre a Porta do Sangue e uma das portas da fortaleza tripolitana dos Hospitalares, não é simples coincidência».
«Dentro da cinta exterior ficava a Igreja de Santa Maria do Castelo e, depois, a Capela de Santa Catarina».
«Do outro lado do rio reconstruiu-se a Igreja de Santa Maria do Olival, junto da qual se ergueu uma torre de atalaia que a lenda diz comunicar com o castelo por longo túnel».
«Ao abrigo desta fortaleza, começou a construir-se a povoação».1
Tomar nascia, assim, sob a égide da mais poderosa (temporal e espiritualmente) das Ordens de cavaleiros-monges e iria, mais tarde, atingir a sua maturidade graças a outra Ordem militar-religiosa: a dos cavaleiros de Cristo.
Pode-se dizer que nos fins do século XII toda a vasta região do Mondego ao Tejo, a montante de Santarém (ou seja: o centro do País), estava confiada à guarda dos Templários.
Em todos os territórios que lhes eram doados por nobres ou pelo rei, os Templários encarregavam-se do respectivo repovoamento e da construção de casas, igrejas e fortalezas. Assim aconteceu em Tomar, como vimos. «Era este castelo um dos mais fortes de Portugal e talvez o mais bem defendido, por estar confiada a sua guarda aos Templários, que dele tinham feito o centro da Ordem, estabelecendo aí a sua casa capitular», escreveu Alexandre Herculano.
Dentro dos muros do castelo de Tomar, Gualdim Pais, já com setenta e dois anos, resistiu ao avanço e ao cerco posto à cidade por Iacube Almansor:
«No meio daqueles muros que ele próprio travara com os píncaros do monte despenhado e fragoso, o duro velho esperou com os monges-cavaleiros a fúria dos pagãos.» E os mouros não passaram...
A partir do sexto mestre do Templo, os altos dignitários portugueses acumularam os mestrados de Portugal, Leão e Castela — a Ordem tinha sido, efetivamente, dividida em nove «províncias» europeias, sendo as três principais as que tinham por sedes Paris, Londres e Tomar (província da Lusitânia). E também quando se trata de construir réplicas da cúpula octogonal (importância do número oito, o número de Cristo) do Santo Sepulcro de Jerusalém, a primeira réplica será erguida em Paris, a segunda em Londres e a terceira em Tomar: é a charola, de tipo bizantino, que tanto nos impressiona pelo seu ar estranho, de uma pureza arquitetônica que contrasta flagrantemente com a mistura de estilos do resto do Convento de Cristo.
Terceira província, terceira charola — sempre a importância do número três dentro do Triângulo Místico...
Continuemos (v. Ordem de Cristo).
NOTAS