SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983
Nós acabamos de encontrar a concepção do perdão divino no islã e vamos mostrar como ela se une, no Sufismo ou esoterismo muçulmano, à ideia da vitória espiritual. Segundo a doutrina sufi também, o homem, expulso do paraíso e se encontrando assim no estado de queda que é aquele do pecado, não saberia recobrar seu estado normal de união ao Uno, sem o divino perdão. Nós vimos que esta união não para na conformidade do ser humano ao Ser divino, encarada pelo exotismo como a finalidade mesma do homem, mas vai até sua absorção no so Verdadeiro e Real. É aí o objetivo dos esoteristas que combatem o que, neles mesmos, os separam dEle, e isto até a vitória do «Uno sem segundo».
É este o sentido mais profundo desta frase repetida em relevo sobre os muros da Alhambra: «Não há nenhum vencedor, se não é Deus» (la ghaliba illa-llah). Ela implica portanto que a vitória espiritual, ao mesmo tempo em que supõe o esforço do homem, exige ao mesmo tempo o socorro de Deus, sua assistência, sua Presença mesma. Esta vitória depende de sua Misericórdia que, segundo o Corão, se manifesta fundamentalmente sob os dois aspectos de sua luz e de seu perdão. Com efeito, a «aqueles que O temem e têm fé em seu Mensageiro», sua Revelação prometeu: «Ele vos dará duas partes de sua misericórdia; Ele fará para vós uma luz com a qual vós caminhareis, e Ele vos perdoará, porque Deus é aquele que perdoa, que é compassivo (Corão, LVII, 28).»
A luz feita pelo Ser divino para os homens é primeiro seu próprio «ser», vindo dEle como um raio do sol. Este raio sai da essência incriada do homem que, ela, está enraizada na Essência divina; ele desce, em atravessando os centros respectivos de todos os estados de existência hierarquicamente sobrepostos, até seu ponto de queda terrestre. Sua centelha final é o centro espiritual da alma individual habitando o corpo humano, cujo próprio centro é o coração. Neste centro brilha o raio que é o ser e que, ao mesmo tempo em que desposa a substância cósmica e tomando uma forma criada, permanece divino, em sua essência transcendente, como em sua imanência puramente espiritual. É por ele que Deus comunica ao homem toda luz espiritual e natural, — entre outras a intuição da fé. Esta é inata, conferida ao homem com seu ser mesmo; ela é entretanto esquecida por muitos homens sob a influência nefasta do «Adversário», e ela é reencontrada, quando jorra novamente misericordiosamente a luz original no coração que se abre a Deus.
Portanto, a centelha divina, que anima o homem, lhe comunica a luz da Fé, «com a qual ele caminhará» para a Luz das luzes. Ela indica ao homem antes de mais nada a boa direção em lhe fazendo compreender as palavras da Revelação; depois, se nada se opõe a isto na alma, as divinas palavras inflamam a centelha, a clareza invade o ser e o ajuda a se conformar ao Divino. A alma se expande em Sua Presença; em seguida, ela busca o ponto de junção com Ele, e o encontra na centelha mesma: esta se revela ao mesmo tempo como seu ponto de partida individual e a «porta estreita» — ou o «istmo» (barzakh) — de seu retorno à sua própria essência universal e transcendente. Então, a alma abandona seu expandimento individual e se reduz à centelha; e esta morte à individualidade, à particularização ilusória de seu ser, se torna sua passagem ao estado universal. A centelha se expande nele, sua luz se totaliza, ela se eleva para o Infinito e se torna novamente o Sol supremo. Assim, a «primeira parte da Misericórdia», a divina Luz é ao mesmo tempo o ser, o caminho e o objetivo do homem.
Ora, abstração feita da influência obnubilante exercida sobre o ser por Satan, o Adversário, ou pela alma egocêntrica ela mesma, Deus vela as vezes sua Clareza ao homem em busca dEle, a fim de provar seu livre-arbítrio em correlação com seu discernimento entre o Real e o ilusório, o Verdadeiro e o falso; porque por estas faculdades, o ser humano deve realizar, ativamente e no mais alto ponto, sua deiformidade em vista de sua absorção completa no Divino. É por isso que chega a acontecer que o Senhor deixe o servo passageiramente nas trevas de seu «nada» simbólico; a alma conhece então o que ela «é sem o Ser», e ela se ve compelida a empregar todo seu discernimento e toda sua vontade para lutar contra as forcas do mal que sobem do abismo interior. Destas provas e tentações, o homem sai, ou como vencedor, ou como vencido; no último caso, ele sucumbiu a uma fraqueza, uma dúvida, uma confusão, a um pecado que concretiza a ausência relativa do Verdadeiro, e é o momento onde a «segunda parte da Misericórdia» deve vir salvar o homem: o «perdão». Mas lá ainda, a «primeira parte», a Luz, intervém por definição, para cooperar com a redenção do ser que, caído na obscuridade, precisa dEla. Se esta necessidade coincide com um movimento de «retorno» para Deus, este movimento de tawbah já é Sua luz na alma, — luz, luz, sem a qual o homem ficaria no desespero ou na revolta e não se decidiria a pedir perdão. Portanto, as «duas partes de Misericórdia» são inseparáveis: a Luz é a essência do perdão, e o perdão é a descida da Luz nas trevas. O ser humano vive positivamente destas «duas partes»: a Luz lhe é dada, antes de toda outra coisa, enquanto «Ser», enquanto que o perdão lhe «restitui» o Ser, depois de seu afastamento dEle. Privada destas «duas partes», a existência humana não é nada: é o abismo aberto entre a luz retirada e o perdão não concedido, abismo onde se encontra perdido o «ser sem o Ser».
Antes da primeira vitória decisiva da luz, o homem é mais ou menos sujeito às «alternâncias do dia e da noite» interiores; ele sofre muitas derrotas e obtém também triunfos em sua «grande guerra santa» (jihada al-akbar) contra o inimigo que ele porta nele mesmo. Estas vitórias interiores se refletem às vezes naquelas da «pequena guerra santa» exterior (jihad al-asghar) e da qual o Corão dá exemplos. Ele menciona, entre outros, três vitórias decisivas concedidas por Deus ao Profeta em sua luta contra os politeístas: elas simbolizam, segundo certos comentários suficos, a conquista espiritual de tantas «estações» (maqamat) fundamentais na via conduzindo ao Supremo. Mas nós não vamos entrar aqui nos aspectos históricos destas vitórias das quais a última e suprema foi a tomada de Meca e, com ela, a destruição dos ídolos cercando a Caaba, assim como a conversão em massa das tribos árabes. Sua união no islã se tornou a imagem da união de todos os seres com o Ser Uno, o símbolo da «união suprema». Nós vamos falar das grandes vitórias espirituais que conduzem a esta união e formam com ela as três «estações» fundamentais da via; estas vitórias correspondem também a tantas manifestações do perdão divino, como nós o veremos à luz do Corão e de sua exegese espiritual.