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Santos Gênese do símbolo

Há necessidade de alguns comentários esclarecedores. Dizemos julgamos ter, pois em muitos símbolos há a afirmação de uma semelhança analógica com o simbolizado. Mas, como nem sempre temos acomodação suficiente com o simbolizado, na maior parte das vezes por nós incaptável, a ele atribuímos este ou aquele predicado, podendo construir um símbolo que reproduza tal predicado do simbolizado.

Assim, através de especulações filosóficas, concluímos que o ser é imutável como forma. Mas, ao mesmo tempo, é operatio (operação). Neste caso, temos de atribuir-lhe uma atividade, a par de uma imutabilidade. Como compreender tão aparente contradição? Vejamos a esfera. É a única figura geométrica que num movimento de rotação em si mesma ocupa sempre o mesmo espaço, isto é, pode volver em si mesma, sem nunca abandonar o mesmo espaço. Outras figuras geométricas ocupam espaços sempre diferentes, pois um triângulo, volvendo em si mesmo, abrange espaços diferentes em cada instante. Mas a esfera não. Simbolizar-se o ser pela esfera, como o fazem muitas concepções filosóficas e religiosas é pretender mostrar que a atividade do ser pode dar-se a par da imutabilidade, pois a esfera, que muda constantemente de lugar, nunca sairia do seu espaço, e sempre o ocuparia com plenitude.

A especulação filosófica irá justificar as notas que o símbolo reproduz. Mas há muitos casos em que os símbolos apenas reproduzem notas que julgamos tê-las o simbolizado, que nem sempre é passível de prova segura. 2

No restante do enunciado permanece claro que o símbolo tem uma presença atual para quem é o seu autor, o que não a tem, de imediato, o simbolizado. O símbolo refere-se ao simbolizado, e está em lugar dele. Dá uma visão do simbolizado e torna-o presente por outro. Há exemplos de fusionabilidade do símbolo e do simbolizado, como se ve na parte exotérica das religiões.

Lembremo-nos da cruz de São Paulo, que era apresentada como símbolo vivo da presença real e atual, portanto, de Cristo, ou o símbolo da comunhão, em que há a consubstanciação do símbolo e do simbolizado na hóstia. São exemplos de fusionabilidade muito comuns nas crenças religiosas. 3


NOTAS:
1 Importante é a polêmica entre os defensores da univocidade e os da analogia. Os fundamentos e razões de cada posição estudamos na "Ontologia". Convém, contudo, dizer que, em “Filosofia Concreta” voltaremos a este tema, que é de primacial importância na filosofia, porque do seu esclarecimento obtemos uma posição segura para compreender as diversas formas de monismo e as doutrinas criacionistas.
2 A imutabilidade do ser refere-se, como se vê na "Ontologia", à sua essência e existência, que, nele, se identificam (à forma). O Ser Supremo não é mais nem menos, não conhece aumentos nem diminuições, é o máximo e o mínimo de ser, porque menos que ser é nada. Os seres que são do Ser, mesmo quando devêm, quando conhecem mutações, estas são ser, porque quando um ser deixa de ser o que é, há o surgimento de um ser outro, e não uma queda num nada absoluto. Há, portanto, sempre a presença no Ser do que devém, porque o devir é o devir no Ser. Na "Ontologia", este tema foi devidamente examinado. Nossas referências ao Ser em sua plenitude são sempre simbólicas, até quando racionalmente construídas, porque captamos o ser analogicamente, no sentido que consideramos a analogia, o que evita, como vimos naquela obra, a crise que se quer instalar entre posições como a de Tomás de Aquinas e a de Duns Scot, que são dialeticamente conciliáveis, um ao afirmar a analogia e o outro ao afirmar a univocidade.
3 Quando estudamos a teoria das modais, na "Ontologia", apontamos para o fato de que se aceitarmos a posição de Suarei, a ideia da consubstanciação encontra, na teoria modalista, um fundamento para o dogma da Igreja. Se fôr bem compreendida a desproporcionalidade que há entre o acidente e a substância, pois o que acontece com a substância (o acidente), não é tudo quanto lhe pode acontecer, a distinção que se pode fazer entre um e outro é uma distinção real (para nós real-real), pois tem o acidente, como a substância, uma assentia própria. E embora não sejam eles, aqui e agora, separáveis, podiam-no ser desde que se admita um Deus omnipotente, no sentido que dá à omnipotência a teologia católica. Neste caso, a consubstanciação ou a substância com acidentes desproporcionados, como o caso da hóstia, que seria o corpo de Cristo, com os acidentes do pão, não é um absurdo filosófico. E embora se possa discordar de certas afirmações teológicas, é da dignidade do filósofo examiná-las, e não rejeitá-las in limine, sem um exame mais detido.