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Santos Gênese do símbolo

2) Examinamos, agora, quando a acomodação é pequena. Neste caso, há pouca possibilidade de tornar-se como se fosse o objeto, e, no entanto, a assimilação é maior. Há no objeto esta ou aquela forma, este ou aquele aspecto, que se incluem nos esquemas, tais e tais. Embora não se adequem, própria e totalmente, a este ou àquele esquema, tem o fato notas, que se adequam a outros esquemas. Como a acomodação não foi suficiente, e não se captaram suficientes notas para estruturar noeticamente o objeto, mas apenas uma ou algumas, essa nota ou notas são assimiladas a um ou a vários esquemas, o que revela um excesso de assimilação sobre a acomodação, e novo rompimento do equilíbrio. Estamos em face do símbolo.

Assim, quando a assimilação é muito inferior à acomodação, temos a imitação; quando a assimilação supera em muito a acomodação, temos o símbolo.

E nos casos de equilíbrio dinâmico, temos a inteligência maior ou menor do fato.

Um exemplo do segundo caso logo nos clareará o funcionamento da simbolização. Estamos numa praia. Olhamos o mar, e vemos uma mancha branca no horizonte. "Um barco", diz um. "Não, responde outro, uma nuvem". "Qual, afirma um terceiro, deve ser a fumaça de um navio". "É uma onda muito alta", propõe um quarto. Em tal caso dá-se uma fraca acomodação devido à distância e à dificuldade dos esquemas se acomodarem ao fato. Consequentemente é máxima a assimilação. Há apenas uma nota que pode ser de barco, de vela, de onda, de fumaça, de nuvem, mas que por si só não é suficiente para dar uma certeza, uma inteligência do fato. Os quatro assimilaram mais do que acomodaram, pois assimilaram a esquemas vários. Portanto, os quatro realizaram uma ação simbólica.

Não há separação entre a acomodação e a assimilação. Não há uma acomodação pura, nem uma assimilação pura.

A atividade adaptativa do nosso espírito funciona dialeticamente por dois vectores inversos, o de exteriorização dos esquemas, e o de interiorização nos mesmos pelas ações de acomodação e de assimilação.

No sonho, por exemplo, nossos sentidos estão adormecidos, e fraca é a atividade de acomodação, por conseguinte a assimilação é máxima, razão por que os sonhos tomam a forma simbólica, segundo os esquemas que constituem o psiquismo, na sua ação de captar objetivamente o próprio funcionamento, e também o do nosso corpo.

Em conclusão: há símbolo quando há a assimilação fictícia de um objeto qualquer ao esquema, sem a necessária acomodação atual do mesmo.

As coisas fazem de conta que são outras. O "faz de conta" infantil mostra-nos bem a gênese do símbolo. O símbolo repousa sobre uma simples semelhança entre o objeto presente (na realidade ou no espirito), que faz o papel de significante, e o objeto ausente, o de significado, que é por aquele simbolicamente referido.

Mas o símbolo precisa ter uma analogia de atribuição intrínseca com o simbolizado, do contrário é metáfora e não símbolo.

E não pode ser convencional ou arbitrário, pois do contrário é apenas sinal, e não tem a característica específica e diferencial de símbolo.

Por isso, símbolo distingue-se do sinal. O sinal é um significante que pode ser arbitrário ou convencional, ou indicante por correlação, enquanto o símbolo é apenas um significante motivado, representando uma semelhança intrínseca com o significado.

Podemos enunciar, como síntese do que até agora, expusemos, que símbolo é tudo quanto está em lugar de outro, sem acomodação atual á presença desse outro, com o qual tem, ou julgamos ter, qualquer semelhança (intrínseca por analogia), e, por meio do qual, queremos transmitir ou expressar essa presença não atual.