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Santos Gênese do símbolo

Mas podem dar-se duas variantes importantes
1) a acomodação, por mais excessiva que for, não oferece uma assimilação correspondente, pois o fato não é facilmente captável, por não poderem os esquemas realizar a ação de ad como, isto é, acomodarem-se, serem como o objeto, por mais que o procurem, não permitindo boa assimilação correspondente. Neste caso, os esquemas, de qualquer espécie que forem, tendem a ser como (função ficcional, função do como si, isto é, os esquemas procuram atuar como se fossem o objeto), realizam uma mimesis, (psicossomática ou apenas eidética), uma cópia, e temos a imitação. Na imitação, os esquemas procuram ser como se fossem o objeto ao qual buscam adaptar-se. É, uma bola, e fazemos o gesto que corresponde à sua figura estereométrica. É alguém que sofre, e fazemos os gestos de sofrimento, realizamos uma acomodação dos esquemas como se fossem daquela dor.

Deste modo, quando a acomodação supera demasiadamente a assimilação, estamos em face da imitação.

Vê-se, assim, que há certa positividade no pensamento ficcionalista, porque, de certo modo, o que conhecemos das coisas é o correspondente psíquico às mudanças de potencial dos nossos esquemas, que constituem seus arithmoi, seus números, e nos dão esquemas noéticos dos fatos.

Quando Kant negava a possibilidade de um conhecimento do númeno, restringindo-o apenas ao fenômeno, ao que aparece, a sua afirmativa era positiva, pois para conhecermos as coisas, no que elas são, teríamos de nos fundir com elas.

Mas tais doutrinas não esgotam, porém, todas as possibilidades de um estudo mais vasto do nosso conhecimento. E é fácil ver a razão. Se o nosso conhecimento se processa por esquemas intencionais (noéticos), e esses são intencionalmente cópias das quididades que estão nas coisas, não podemos esquecer que, em toda cópia, mimesis, imitação, há a presença de uma analogia. E esta implica uma síntese da semelhança e do diferente, o que nos leva, fatalmente, a saber que há um ponto de identificação, de univocidade, como tivemos oportunidade de mostrar na "Ontologia", ao estudarmos o tema da analogia. E essa univocidade está, ontologicamente falando, no ser, que é sustentáculo de tudo, pelo qual nos univocamos, todos os seres, inclusive Deus 1 .

Eis por que assistia razão a Goethe quando dizia que se somos capazes de ver aquela estrela distante, é porque entre ela e nós deve haver um ponto de identificação. O conhecimento está a afirmar esse ponto, pois, do contrário, ele seria impossível. Em todo o conhecimento há uma assimilatio, e como pode dar-se o simul ou o similis, sem o simultâneo e o semelhante. E se há algo semelhante, há, por distante que seja, um ponto de identificação no Ser. Nós somos, estamos no Ser, e somos do Ser, e como seres temos o ser em nós.

E o Ser é o númeno, que nos surge em toda a equivocidade e as analogias do existir. Se dele não temos um conhecimento imediato, por meio de esquemas, há um conhecer confuso, porque somos quando conhecemos e o conhecimento é ser.

Razão tinha, portanto, Duns Scot quando afirmava que o primeiro objeto, com anterioridade ôntica, ontológica e até gnoseológica, é o ser, porque para conhecer é mister antes ser. Há assim uma fusão do ser com o ser, no conhecimento, e há tal fusão porque dele nunca saímos, nem o sai o que é em nós.

Essa fusão antecede ao tempo e às circunstâncias. E se não captamos o númeno por intuição intelectual, captamo-lo afetivamente, e o somos existencialmente. Este ponto de magna importância, na Noologia dará ainda seus frutos, e, na Simbólica, auxilia-nos a compreender. melhor o itinerarium mysticum que nos oferece o símbolo, pois a mística é uma estética, um sentir afetivo do simbolizado, como a estética é uma mística do símbolo, como o temos mostrado e que, com o tempo, se tornará ainda mais claro.