Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 3594 Orígenes Tratado da Oração Orígenes

Orígenes Pedidos

Estas reflexões, como eu bem compreendo, produzem forte impressão em certas pessoas. E isto acontece porque elas criaram um Deus diverso do Criador do céu e da terra. Porque encontram na Lei e nos Profetas muitas expressões que, em sua opinião, estão em contradição com o Deus que não poderia ser bom, se dele vieram tais palavras. Pelas dúvidas suscitadas pelas palavras: "Não nos induzas em tentação", citei vários trechos do Apóstolo, para ver se aí se encontram soluções convenientes às suas objeções. É minha convicção que Deus sustenta toda alma racional em vista da vida eterna. Toda alma tem sempre o livre arbítrio e é responsável, se ela se empenha no caminho da perfeição em alcançar as alturas da virtude, ou, pelo contrário, desce pela negligência, de mal a pior, aos abismos da maldade. A rapidez e facilidade com que alguns são perdoados os impedem de ponderar a gravidade do mal em que caíram, por facilidade do remédio. Daí acontece que venham a recair gravemente, depois de se ter levantado. Em tais casos, Deus, com razão, finge não ver o mal que vai se agravando, e parece despreocupar-se com ele, até chegar a ser incurável. Com isto quer Deus deixá-los até que se enfastiem de ser tanto tempo vítimas do mal. Fartos já do pecado que desejam, reconheçam o mal que fizeram a si mesmos. Então, odiarão o que antes amavam. E como com duradouro vigor experimentam a cura, podem agora se beneficiar da saúde recuperada da alma. Exemplo disto: "O gentio misturado no meio dos filhos de Israel, teve ardente desejo de alimento, de modo que os filhos de Israel começaram a chorar e a dizer: Quem nos dará a comer carne? Como nos recordamos do pescado que comíamos no Egito! E dos pepinos, melões, das verduras, das cebolas e dos alhos. Em lugar disto, agora temos a alma ressecada. Não temos nada. Nossos olhos não enxergam senão o maná!" (Nm 11,4-6).

E um pouco mais adiante: "Moisés viu chorar o povo, cada um em sua família, à porta da sua tenda" (Nm 11,10). E de novo o Senhor disse a Moisés: "Dirás ao povo: Santifiquem-se para amanhã, e comereis carne, porque vos lamentastes aos ouvidos do Senhor, dizendo: Quem nos dará carne a comer? Como estávamos bem no Egito! Ora, pois, o Senhor vos dará carne a comer. Não comereis só um dia nem dois, nem cinco, nem vinte dias, mas por todo o mês até que a comida vos saia pelo nariz e vos enjoeis, porque não acreditastes no Senhor, que está no meio de vós, e chorastes diante dele, dizendo: Por que saímos do Egito?" (Nm 11,18-20).

Vejamos se esta história nos ajuda a resolver as contradições entre as palavras: "Não nos induzas em tentação" e as palavras do Apóstolo.

"O gentio misturado aos filhos de Israel, teve ardente desejo de alimento, de modo que os filhos de Israel começaram a chorar" (Nm 11,4).

É bem claro que, enquanto não possuíam o que queriam, não podiam experimentar nenhum desgosto nem ficar livres da doença. Mas Deus, na sua benignidade e bondade, ao dar-lhes o que desejavam, queria, no entanto, concedê-lo de tal maneira que não deixasse neles o apetite desordenado. Por isso lhes disse que comeriam carne não só num dia, já que assim a paixão continuaria em sua alma, inflamada e acesa por ela, se recebessem carne somente por pouco tempo. Nem só por dois dias atendeu a seu desejo. Deus quis que comessem até sentir náusea. Há um julgamento no que se assemelha a uma mercê.

Assim pois, mais do que prometer-lhes a concessão, parece, ao contrário, ameaçá-los, dizendo: Vais comer carne não por cinco dias ou o dobro disto, ou ainda vinte, mas por todo um mês, até a carne vos sair pelas narinas com repugnância. O que supunhas bom, é torpe e vergonhoso. Proponho-me a fazer-vos livres, quando já não cobiçardes mais. Se realmente vos libertais deste modo, purificados de vossos apetites, lembrados de quanto tivestes de sofrer para o conseguir, não voltareis a cair nesta falta.

Mas, se passado muito tempo, vos esquecerdes do muito que a vossa cobiça vos fez sofrer; se não fizerdes caso de aceitar a Palavra que vos livra perfeitamente de toda paixão, então caireis no mal. Suspirando mais uma vez por vossos caprichos no futuro, voltareis a cair de novo na mesma paixão. Mas se odiais o que agora desejais com ânsia, então vos convertereis para as coisas nobres e para o celestial alimento, que é desprezado pelos que se nutrem de baixezas.

Isto é o que sofreram aqueles que "tendo trocado a glória de Deus incorruptível por simulacros feitos à imagem do homem corruptível, de pássaros, de quadrúpedes, de répteis. Por isso foram abandonados", por haver abandonado a Deus, "nos desejos do seu coração, à impureza e desonraram seus corpos" (Rm 1,23-24).

Deram a corpos sem alma e sensibilidade, diminuindo-o, o nome daquele que concede a todos os seres sensíveis e racionais não só os sentidos, mas também a razão, e a alguns até concede sentir e entender com perfeição e virtude. E com razão, por haverem abandonado a Deus e serem abandonados por ele, caem em "paixões infamantes" e recebem "o pagamento merecido por seu desvario" (Rm 1,26-27), que os induziu a amores degradantes. Recebem, assim, a pena devida a seu erro, sendo entregues a "paixões infamantes", em vez de serem purificados com o fogo espiritual e pagam no cárcere toda a sua dívida, até o "último ceitil" (Mt 5, 25-26). Ao se entregarem a "paixões infamantes", umas de abusos naturais, outras contra a natureza, eles se mancham e degradam carnalmente, como se não tivessem alma nem entendimento e fossem somente carne.

No fogo e na prisão, não recebem então castigo da aberração, mas, ao contrário, um beneficio: são libertados, com punições salutares, da impudicícia e do sangue, dos quais estavam inquinados e infectados, sem condições de pensar no modo de se salvar da perdição.

"E Deus, com efeito, lavará a impureza dos filhos e filhas de Sião, e purificará as manchas de sangue com um sopro de justiça e com um sopro de fogo" (Is 4,4). "De fato, ele avança com o fogo do fundidor e com o detergente dos lavandeiros" (Ml 3, 2).

Lava e purifica quantos precisam, com esse remédio, porque ¦"' l não quiseram conhecer a Deus de maneira conveniente. Abandonando-se voluntariamente a essas provações salutares, eles odiaram a sua "mente réproba" (Rm 1,28). Deus não quer que se aceite o bem por necessidade, mas com plena liberdade. Talvez haja alguns que por longo costume do mal, tenham muita dificuldade em reconhecer a própria torpeza, e em detestá-la, considerando-a, talvez, como falsa aparência de bem.

Poder-se-ia pensar que foi por isso que Deus endureceu o coração do Faraó, para que pudesse dizer aquilo que declarou depois de ter o coração endurecido: "Justo é o Senhor; eu e o meu povo somos ímpios" (Ex 9,27).

Sem embargo, necessitou de maior endurecimento, e demais pragas para não acontecer que, cessando logo o endurecimento do coração, deixasse de considerá-lo um mal e merecesse de novo ser endurecido.

Portanto, "não é injusto armar redes para os passarinhos", como se diz nos Provérbios (1,17), porque "Deus os leva ao laço", segundo diz o Salmo: "Prendeste-nos na rede" (65,11). Ora, se até o mais insignificante dos pássaros, o pardal, não cai na rede "sem a vontade do Pai" (Mt 10,29), (cai na rede quem usa mal as asas, que lhe foram dadas para elevar-se), pecamos em nossa oração nada fazer que, segundo o reto juízo de Deus, nos mereça sermos induzidos em tentação. É induzido em tentação aquele que "foi abandonado por Deus nos desejos do seu coração" à impureza, isto é, cada um que "se abandona às paixões infamantes", e cada um que é abandonado "à sua mente réproba", faz coisas inconvenientes, porque não deu provas de trazer Deus em si (Rm 1,24.26.28).