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id da página: 3594 Orígenes Tratado da Oração Orígenes

Orígenes Pedidos

A tentação permitida por Deus

Portanto, devemos orar, não para não ser tentados — coisa impossível — mas para que não sejamos enredados pela tentação, como acontece aos que são por ela aprisionados e vencidos.

Vemos que fora da oração do Senhor está escrito: "Orai para não cair em tentação" (Mt 26,41; Lc 22,40). Isto se pode entender pelo que já dissemos.

Na oração pedimos a Deus Pai: "Não nos induzas em tentação" (Mt 6,13; Lc 11,4). Por isso justamente, podemos ver e entender que Deus deixe cair em tentação alguém que não pede nem foi escutado.

Deus não faz cair a ninguém na tentação, como se o entregasse à derrota, por absurdo. Quem cai, já foi anteriormente vencido.

A mesma dificuldade ocorre com esta frase, interpretada à vontade: "Pedi para não cair em tentação" (Lc 22,40). Porque, se cair em tentação é um mal que pedimos não nos sobrevenha, como não deve ser absurdo pensar que Deus, sendo bom, de quem não podem brotar "maus frutos" (Mt 7,18), arme ciladas a quem quer que seja?

Vem a propósito acrescentar o que Paulo diz em sua Carta aos Romanos: "Jactando-se de sábios, tornaram-se estúpidos, tendo trocado a glória de Deus incorruptível por simulacros feitos à imagem do homem corruptível, de pássaros, de quadrúpedes, de répteis. Por isso foram abandonados por Deus nos desejos do seu coração, à impureza e desonraram seus corpos" (Rm 1,22-24).

Em seguida, ajunta: "Por isso os abandonou Deus a paixões infamantes, pois suas mulheres inverteram suas relações naturais por outras contra a natureza; igualmente, os homens, abandonando o uso natural da mulher, se abrasaram em desejos uns com os outros" , etc. E, afinal, acrescenta: "Como não tiveram por bem guardar o verdadeiro conhecimento de Deus abandonou-os Deus à sua mente réproba, para que fizessem o que não convém." (id. 26-28).

Tudo isto devem ter em conta os que falam de dois deuses e dão por certo que um é bom, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e o outro é o deus da Lei.

Cabe agora perguntar-lhes se o Deus bom induz em tentação aquele cuja oração não é escutada, e se o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo abandona à "impureza nos desejos do seu coração aqueles que antes pecaram de outro modo, para que sejam desonrados os seus corpos". Ou se, emancipados, segundo dizem, do pensamento do juízo e da punição, os abandona a "paixões infamantes, à sua mente réproba, para que fizessem o que não convém", como se "nos desejos de seu coração" se encontrassem sozinhos e sem Deus, e "cedam a paixões infamantes" porque desligados dele. Não haveriam eles por si mesmos caído em "mentes réprobas", independente do fato de Deus tê-los deixado de lado?