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id da página: 3594 Orígenes Tratado da Oração Orígenes

Orígenes Pedidos

Alguém é pobre? Tenha cuidado para "não se dar ao roubo e injuriar o nome do Senhor" (Pr 30,9). É rico? Não se ensoberbeça porque pode enganar-se e chegar a dizer: "Quem me vê?" (id.).Na verdade, nem sequer Paulo, "rico em toda palavra e em todo conhecimento" (1 Cor 1,5), esteve isento do perigo de pecar e de se orgulhar. Foi-lhe dado um anjo de Satanás que o esbofeteasse para não se orgulhar (cf. 2 Cor 12,7). E mesmo que alguém tivesse a consciência tranquila e acreditas-se fugir ao mal, leia aquilo que está escrito no segundo livro das Crônicas sobre Ezequias, de quem se diz que caiu pela exaltação do seu coração (cf. 2 Cr 32, 25-26).

Por não termos falado mais da pobreza, talvez alguém despreze as tentações do pobre, como se ele não as tivesse. Saibam que o Tentador arma ciladas "para abater o pobre e o indigente" (Sl 36,14), sobretudo porque, segundo Salomão, "o pobre não suporta ameaça" (Pr 13,8).

Para que citar casos numerosos de quantos vão ao lugar de castigo do rico do Evangelho (cf. Lc 16,22-24), por não haver administrado dignamente as riquezas adquiridas? E quantos outros perderam a esperança do céu (cf. Cl 1,5) por suportar uma pobreza indigna e viverem de maneira bem servil e libertina, inconveniente aos santos? Mas também aqueles que vivem num estado intermediário entre a pobreza e a riqueza não são de todo imunes ao pecado, vivendo entre os extremos da posse e da carência.

Mas, talvez, quem é fisicamente são e robusto poderia crer que está livre da tentação, em razão do seu estado de saúde e por sua prosperidade. Mas o pecado que consiste na violação do "templo de Deus" (1 Cor 3,17), a quem pertence, senão a gente sã e de sadia constituição? Ninguém ousará, a esse propósito, demorar-se em explicações, porque é evidente a todos. Por acaso, livram-se os enfermos de solicitações para "violar o templo de Deus", uma vez que passam o tempo na ociosidade e, portanto, acolhem facilmente pensamentos impuros? Para que dizer quantas coisas, além dessas, os perturbarão, se não acho que deve ser guardado o coração, com o maior cuidado? Há muitos que, debaixo do peso do sofrimento, e não sabendo como enfrentar de bom grado as doenças, prejudicam mais à alma do que ao corpo, quando está enfermo.

Outros muitos, para evitar a desonra, caíram na humilhação eterna, porque se envergonharam de levar com brio o nome de Cristo.

Pensará, talvez, alguém que não terá tentações quando o glorificarem os homens. Mas, como lhe soa dura a sentença: "Já receberam a sua recompensa"? (Mt 6, 2). Ela foi pronunciada justamente sobre aqueles que se comprazem com a glória vinda das multidões, como se fosse um bem! Podemos nos livrar dessa censura: "Como podeis crer, vós que aceitais a glória uns dos outros, e não buscais a glória que vem de Deus?" (Jo 5,44).

Será necessário que eu enumere os pecados de orgulho de alguns que passavam por nobres, ou de outros de baixa categoria que por sua ignorância caíram no servilismo de adulação em relação aos considerados superiores? Tal servidão distancia de Deus aqueles que não possuem uma sincera amizade, e simulam aquela que é a mais bela virtude humana, o amor.

A vida inteira do homem sobre a terra é, como foi dito, tentação.

O escopo, portanto, do nosso pedido relativo à tentação, não é tanto o ser isento da tentação — coisa impossível enquanto estamos na terra — mas de não sucumbir, quando tentados. Quem sucumbe à tentação, a meu ver, entra nela porque se deixa envolver nas suas redes. Nessas redes entrou o Salvador por causa daqueles que nelas estavam embaraçados. E "olhando através das grades", segundo a expressão do Cântico dos Cânticos, responde àqueles que estão presos e entraram em tentação, e diz a eles como à sua Esposa: "Levanta-te e vem, amiga minha, minha bela, minha pomba" (Ct 2,9-10). Para esclarecer a afirmação de que não existe para os homens um tempo sem tentação, acrescento: Não está livre de tentação nem sequer aquele que noite e dia "se compraz na lei do Senhor" (Sl 1,2), e se esforça por praticar a palavra de Deus que diz: "A boca do justo meditará a sabedoria" (Pr 10,31). Nem este é imune à tentação.

Não é também necessário dizer quantos no estudo da Escritura Divina interpretaram falsamente o que é anunciado na Lei e nos Profetas e se abandonaram a doutrinas tolas e ridículas. E quantos outros, que deveriam se censurar por sua negligência nas leituras bíblicas, caíram nos mesmos erros.

O mesmo aconteceu a muitos no estudo dos escritos apostólicos e evangélicos, os quais por sua própria conta inventaram outro Pai e outro Filho, diversos daqueles que os Santos pregaram e são conhecidos na verdade.

De fato, quem não tem o conhecimento verdadeiro de Deus e do seu Cristo, separa-se do verdadeiro Deus e do seu único Filho. Tal pessoa, cuja insânia a levou a fantasiar, pretendendo tratar-se do Pai e do Filho, na realidade não os adora, porque !' eles não são como pensa. Não compreendeu a tentação escondida na leitura dos escritos sacros, e não estava armada para o combate que aí a ameaça.